08/03/2026
No Dia da Mulher, e com o mundo falando tanto de guerra, vim abrir esse baú de memórias.
Como pode ser visto na foto, sou a única mulher na comitiva com na época Ministro Celso Amorim.
Por lei, as mulheres são obrigadas a cobrir cabelos e pescoço com o hijab, que pode ser um lenço qualquer.
Quando o avião começa a descer, as outras passageiras vem te ensinar a colocar.
Braços também não podem ficar à mostra, então deve-se usar um casaco de comprimento até os joelhos e de mangas compridas.
No Oriente Médio, política e religião se misturam.
A população em geral, não parece concordar com o uso obrigatório do hijab. Nos escritórios, me perguntavam se eu queria tirar o hijab, e me mostravam que ali dentro, as mulheres não usavam.
Na época, havia uma polêmica sobre o vestibular: Como as mulheres tinham menos oportunidades, se esforçavam mais e os homens não estavam mais conseguindo vagas nas universidades. Então, instituíram cotas (assim como temos as cotas raciais) para os homens.
Mulheres iranianas possuem profissões e trabalham normalmente.
Os iranianos são hospitaleiros. Em todas as reuniões oferecem algo de beber e de comer aos convidados.
Em uma das reuniões mais tensas de minha carreira, com a animosidade quase palpável, havia frutas na mesa. E mesmo com toda a tensão, a reunião não terminava nunca. Foi então que o tradutor me explicou que a reunião não terminaria enquanto não comessemos algo. E quando eu achava que não podia ficar pior... tive que confessar que eu não sabia descascar frutas (pasmem, mas sou péssima com facas). Quando o homem que me acompanhava começou a descascar a fruta para eu poder comer e aquilo acabar, aí sim o caldo entornou de vez, com os iranianos vermelhos de raiva por ver um homem servindo uma mulher.
O que ficou gravado em mim não foram as leis rígidas ou o hijab obrigatório, mas a generosidade de um povo que oferece frutas em meio à tensão e a força das mulheres que estudam até as regras precisarem mudar.
O radicalismo do topo nunca conseguiu apagar a hospitalidade de quem está no solo. E eu? Continuo péssima com facas, mas expert em quebrar protocolos sem querer.
Sempre me pego refletindo... O que é ser mulher?
Durante a infância, cresci com meu pai dizendo que eu havia nascido com o s**o errado porque brigava com os meninos na rua enquanto as minhas amigas ficavam na paquera...
Tive uma gerente que me dizia que sabia que eu era uma mulher, mas que era bem difícil me gerenciar, porque eu 'trabalhava como um homem'. O que isso quer dizer? Nunca descobri.
Até hoje, não sei o que define "ser mulher". É o órgão ge***al? Mas minha manicure tem órgão diferente e garanto que é muito mais "menininha" do que eu.
Está na moda dizer que "lugar de mulher é onde ela quer estar", mas será que é sobre o lugar? Ou é sobre as expectativas que mais funcionam como regras veladas? Como uma mulher não sabe usar descascar uma fruta?
Isso vai muito além de gênero; é sobre a necessidade extrema de definições. No meu 1o estágio no consulado Sul-africano. Ali eu era a estranha no ninho: a japonesa em um ambiente recém saído do Apartheid, o cônsul branco foi obrigado a trabalhar com a consulesa preta e que 4 anos antes sequer poderiam sentar-se na mesma mesa, portanto simplesmente a ignoravam como se ela não existisse. No Brasil sou a japonesa, e no Japão sou a brasileira. É complexo...
Aliás, sabe o que é diplomacia? A melhor explicação foi do chefe dos diplomatas no Itamaraty: "é chamar o outro de filho de uma boa mãe, entre sorrisos cordiais".
Talvez ser mulher seja justamente isso: ser o elemento inesperado no Irã, no consulado ou naquela fábrica em que o gerente alemão disse que meu MBA era perda de tempo, porque apenas homens subiam de cargo ali.
Ser mulher talvez seja estar onde tentam nos definir... E ser, simplesmente, indefinível.
Feliz Dia das Mulheres! 🌹
Ou melhor, Feliz Dia, Seres Infinitos!