11/02/2019
A subjetivação feminina é construída no Patriarcado como o "Ser-para-o-Outro" (conceito que empresto da feminista mexicana Marcela Lagarde). Ou seja: desde muito cedo ensinadas a viver para os demais e obter satisfação e realização disto. Exemplo deste treinamento feminino são os brinquedos relacionados ao cuidar (bonecas a imitar bebês). Assim, o Outro é prioridade nas vidas femininas. É ensinado o sacrifício de si em prol do bem estar alheio como medida da nossa aceitação pelo outro. Somos ensinadas que a aceitação do outro é tudo para nós, em detrimento da aceitação de si mesma. Somos ignorantes de nossos limites pessoais, de nossos nãos, somos ensinadas que pensar em si é egoísta e mesquinho. Sendo a feminilidade um processo social enraizado no Patriarcado e concebido pela classe masculina, trata-se de uma pedagogia da servidão.
O filósofo Foucault discorre sobre o "Cuidado de Si".
Podemos extrair reflexões importantes nos apropriando desse conceito, reconstruindo essa idéia dentro de uma reflexão feminista. O Cuidado de Si seria a construção de uma estética da existência, o que significa a construção de um modo próprio, singular, de ser e viver, sendo responsabilidade de uma criar a sua estética existencial. Somos, cada uma de nós, singularidade, e somente a partir de vivências e experiências próprias, podemos decidir o que são bons encontros e maus encontros, o que é bom para mim e o que é ruim: aquilo que me provoca afetos tristes e alegres, sendo a alegria aquilo que aumenta minha potência e a tristeza aquilo que a diminui. Porém, todos afetos são informantes vitais, mesmo a tristeza. São guias do meu ser no mundo, mostrando como quero viver, quais corpos combinam comigo produzindo afetos alegres, quais experiências produzem afetos tristes como não combinação daqueles corpos, e daí delineando consciência de si e os projetos de vida de uma.
É diferente do conceito liberal (capitalista) de individualidade ou de ocupar-se apenas de si mesma em detrimento dos demais. A existência feminina sob o Patriarcado veio vivendo sob o mandato de uma não-existência, sob uma ética do esquecimento de si, da modéstia, da vergonha.
As mulheres desde esse mandato do cuidado são levadas consequentemente ao “burn out” (esgotamento) na vida, trabalho, relações, marcadas pelo sacrifício pessoal.
Ressignificar o cuidado de uma forma mais libertária é compreender que cuidar a si mesma é importante por si só, e é consequentemente cuidar o grupo e nossos projetos individuais e coletivos, cuidando a qualidade da revolução que desejamos ver no mundo.
Como estamos nos tratando? Que atenção ou energia damos à nós mesmas? É a mesma que doamos aos demais?
E o cuidado de si também é uma ética de cuidado do outro, pois é o que mantém a qualidade do nosso cuidar aos demais nas relações e convívio, sem que o cuidar implique auto-abnegação e auto-anulação, e também sem rechaçar o cuidado a partir da celebração de valores androcêntricos e capitalistas da indiferença ao outro e competitividade, objetalização das relações, muito comuns hoje em tempos neoliberais.