09/05/2026
"2073": UM FILME INDIGESTO QUE NOS FORÇA A OLHAR PARA O ABISMO E A SUPORTAR SUA MIRADA RECÍPROCA | Comecei a assistir porque gosto de sci-fi, principalmente se for mais divulgação científica do que ficção. E também porque nasci no finzinho de 1972 e 73, portanto, foi meu primeiro ano fora do ventre de minha mãe. Um filme que se passa a um século do nascimento. Wow! Acontece que a maior parte da história são flashbacks de vídeos reais e não lineares entre o fim do século XX e 2024, com todos os efeitos das mudanças climáticas, disrupção tecnológica, especialmente as redes sociais, robotização e Inteligência Artificial – e como isso levou à ascensão de uma "monarquia tecnológica". A narradora e protagonista é uma mulher de cerca de 40 anos conhecida como Ghost (Samantha Morton) que não fala por opção – e, no entanto, é sua voz em off que conduz a narrativa. Trata-se de um filme contundente de crítica política e ideológica às big techs, aos regimes autocratas ou ditatoriais que nasceram delas ou que nelas encontraram um grande arma de ruptura da ordem estabelecida desde o fim da Segunda Grande Guerra. Mas não há esperança nenhuma a ser vendida. O filme usa imagens reais de encontros políticos e de lobistas; declarações dos donos das big techs; imagens das catástrofes climáticas (até o Cavalo Caramelo gaúcho aparece), responsabiliza a união internacional de extrema-direita atacando Modi, Duterte, John Major, Bannon, Trump, Biden, Bolsonaro, Milei e bate duro também em Putin e Xi Jinping. Parece distopia mas aí a gente se dá conta de que estamos VIVENDO essa distopia. Ao final, (SPOILER!) a narradora, já capturada, informa que, em 2073, 72% do que restou da espécie humana sobre o planeta vive sob este regime autoritário. Mas que os que ainda têm livre-arbítrio podem lutar. E a acaba com a pegunta, conclamando a uma aliança global: "Esse é o ponto crítico. Vamos cair no penhasco? A democracia vai sobreviver ou o fascismo vai vencer? (...) Foi tarde demais pra mim. Mas pode não ser pra você." • "2073", 1h24min, drama documental. Direção: Asif Kapadia. Roteiro: Asif Kapadia e Tony Grisoni. Disponível no HBO. [Resenha de Henri Figueiredo]