10/06/2026
O suicídio na adolescência é mesmo provocado, essencialmente,pelo lado nocivo e compulsivo do mundo digital?
Sua alta taxa de incidência é, realmente, fruto dos tempos atuais?
Como muitos profissionais da educação e saúde abraço o ponto de vista de que temos a considerar questões menos tecnológicas e, mais humanas, sobre tal renúncia da vida vivenciada por adolescentes.
Assim me posiciono pela minha escuta e observação da história de vida de alguns clientes como, também,por informações obtidas ao revisitar uma obra de Françoise Dolto.
No livro A Causa dos Adolescentes (1988),no capítulo Epidemia do Suicídio, a psicanalista citada relata a abrangência mundial com porcentagens de ocorrências preocupantes deste grave fenômeno da saúde mental presente naquela adolescência.
Não podemos, é claro,negar a atual realidade da influência das telas em muitas situações. Porém, parece que este contexto eletrônico contribui parcialmente para impulsionar a opção pelo suicídio na adolescência de nossos dias,pois as ações educativas, que muitos já aderiram, para evitar o uso excessivo destes recursos não têm surtido os efeitos esperados .Basta observar os resultados pouco satisfatórios das pesquisas de entidades como a Fiocruz e outras organizações de saúde física e psíquica .Isto indica não ser esta escolha dos adolescentes dependente só de aplicativos ou de redes sociais.
Penso,então, na possibilidade de intensificarmos aquelas já existentes discussões profissionais que, com o propósito de entender este tema, focalizam a subjetividade,a compreensão da dor vivida,a busca de uma aproximação do sentido atribuído ao sofrimento por estes meninos e meninas em risco de perder a vida, saber como se constitui a percepção deles de que há uma única saída para reprimir as amargas experiências internas : suicidar-se.
No entanto,estes cuidados só poderão ser realizados,efetivos,ao darmos antes a palavra,o discurso, a fim de que compartilhem o que só eles sabem e sentem, do que tentarmos colocar limites, prevenir consequências perigosas através de proibições , restrições, responsabilidades únicas às formas de contato e comunicação online. Como Heidegger dizia nas entrelinhas:”É no discurso que o indivíduo revela aquilo que ele oculta”.
Acredito que estaríamos ,nós,pais,educadores, psicólogos, médicos colaborando para o decréscimo dos casos de suicídio na adolescência se permanecermos, primordialmente, oferecendo o acolhimento descrito aliado às propostas de educação e conscientização das conexões via internet.
(Texto de Cristina Ricardi)
Dados descritos pela autora:
“Estatísticas sanitárias da Europa ao Japão:
- forte progressão do suicídio entre os jovens
- desde 1906 pensa-se e inicia-se a abertura de Centros Comunitários que se ocupam do suicídio
-1948 – cria-se o 1º Centro de Suicídio em Viena após a 2ª guerra.
- O 2º em Los Angeles e começa a funcionar em 1959
- Em Bruxelas em 1970
- entre 1956 e 1975 dobra-se o numero de suicídios de menores de 14 anos por angústias diante dos fracassos escolares e em uma sociedade com tendências á competição
- 1984 – segundo os antropologistas da Turquia - taxas de suicídio por ocidentalização das culturas ,mudanças na estrutura familiar e dos valores tradicionais
- outras visões adolescentes não habituados a exprimir sua agressividade diante da família
- 1985 – 6000 adolescentes se suicidam correspondendo a 17 suicídios por dia – falta de segurança e identidade pela mudança de qualidade de vida da família
- diversos uso de álcool,drogas,pressão do sucesso escolar,angústia diante do futuro,exploração da mídia,,romantização deste ato pelos jovens.