Clarisse Pires - Psicóloga

Clarisse Pires - Psicóloga • CRP 07/34503
• Psicanálise
• Atendimento online e presencial em Santa Maria
• Adolescentes, adultos e idosos

A dificuldade em dizer não surge muitas vezes do receio de desagradar o outro e, consequentemente, de que imagem será tr...
28/07/2026

A dificuldade em dizer não surge muitas vezes do receio de desagradar o outro e, consequentemente, de que imagem será transmitida a esse outro se eu o desagradar.

Na tentativa de sustentar essa imagem idealizada — a do filho perfeito, da parceira compreensiva, do profissional incansável — cedemos com um sim quando, lá no fundo, preferiríamos recusar.

Tememos que o nosso não leve o outro a retirar o afeto, nos rejeitar ou nos abandonar. Assim, consideramos mais fácil atender ao que esperam de nós do que enfrentar a angústia de sustentar o nosso próprio desejo.

Mas um sim dito pelo medo de desagradar é um não doloroso imposto a si mesmo. Uma atitude que cobra seu preço, afetando o sujeito de diferentes maneiras: ansiedade, ressentimento e sintomas que insistem em aparecer.

Aprender a dizer não é aprender a demarcar limites. É aceitar que não podemos satisfazer a todos e que a aprovação do outro não pode custar o nosso próprio apagamento. É reconhecer que, por mais “sins” que digamos, ainda assim vamos desagradar em algum momento. Isso está posto, faz parte das relações humanas.

Assumir os próprios limites é o primeiro passo para sair do lugar de subserviência e se posicionar como um sujeito responsável pelo seu próprio desejo.

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O trabalho analítico não se limita ao discurso consciente. A análise é o espaço onde o sujeito é convidado a falar além ...
16/07/2026

O trabalho analítico não se limita ao discurso consciente. A análise é o espaço onde o sujeito é convidado a falar além do que planejou, através da associação livre, para que possa, enfim, começar a se escutar de verdade.

É nas brechas da fala, nos lapsos e nos silêncios que o inconsciente insiste em se fazer notar. Conteúdos reprimidos, dores antigas ou vivências que nunca encontraram uma via de simbolização não desaparecem, se transformam em sintomas.

Frequentemente, aquilo que não conseguimos elaborar pela palavra, acabamos repetindo na ação, nos padrões de relacionamento e no próprio corpo.

Como o próprio processo analítico nos mostra: o que não se lembra e não se elabora, repete-se.

Dar lugar a esse sofrimento em análise possibilita que o sujeito o encare e encontre uma via de elaboração. Ao nomear o que antes não tinha nome, o sujeito pode romper o ciclo da repetição e criar um novo saber-fazer com a própria história, escrevendo uma nova narrativa sobre si mesmo.

Há sempre mais em nós do que a nossa consciência consegue enxergar.

Se você sente que carrega um mal-estar sem nome, talvez seja a hora de escutar o que o seu sintoma está tentando dizer.

Quando o analista pontua como Patrick se protege dos seus questionamentos, a resposta que se segue é uma reiteração da p...
10/06/2026

Quando o analista pontua como Patrick se protege dos seus questionamentos, a resposta que se segue é uma reiteração da própria defesa.

Na psicanálise, a resistência é a expressão clínica dos mecanismos de defesa que o ego utiliza para se proteger do desamparo ou de verdades inconscientes que seriam insuportáveis de encarar. O “proteger-se ferozmente” denuncia que a aproximação do analista tocou em algo estrutural. O sujeito resiste porque falar sobre o que dói ameaça desorganizar a forma como ele aprendeu a sobreviver até ali.

A fala de Patrick desvela a fantasia que o paciente traz sobre a análise e sobre a figura do analista. Antes mesmo de escutar o que o profissional tem a dizer, o analisando já pressupõe sua conduta.

Essa antecipação engessa a alteridade do analista, transformando-o em um personagem de um roteiro que o paciente já escreveu. Ao tentar adivinhar e antecipar o próximo passo, o paciente tenta manter o controle da sessão. A menção quase caricata à figura materna funciona como uma defesa irônica, tentando desarmar o analista reduzindo a intervenção a um clichê de senso comum.

O diálogo da cena mostra que o maior medo do sujeito não é que o analista erre a intervenção, mas sim que ele acerte, e que, ao fazê-lo, desmonte as barreiras que o paciente levou uma vida inteira para construir para se proteger do Outro.

Cabe ao analista manejar essa transferência, não caindo no roteiro previsto, para que o sujeito possa, enfim, se deparar com a sua própria verdade.

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Série: The Mentalist (Netflix)

O meme é engraçado, mas o que ele fantasia?Muitas vezes, a expressão “terapia em dia” é usada nas redes sociais como uma...
19/05/2026

O meme é engraçado, mas o que ele fantasia?

Muitas vezes, a expressão “terapia em dia” é usada nas redes sociais como uma tentativa de tamponar a nossa falta. Cria-se a ilusão de que a análise é um processo linear, onde você entra angustiado e sai “curado”, pronto para funcionar perfeitamente como uma máquina.

Na psicanálise, o caminho é bem diferente. Estar em análise não é sobre alcançar uma meta de bem-estar higienista ou se colocar em um lugar de superioridade em relação ao outro. Pelo contrário: é suportar o não-saber, é se deparar com as próprias contradições e com aquilo que nos escapa.

“Estar em dia” com a sua análise é, na verdade, estar disposto a sustentar o trabalho — às vezes árduo, às vezes desconfortável — de se escutar. Não há troféu, há implicação.

E você, como enxerga esse movimento nas redes?

Vera Iaconelli nos lembra: “Cada mulher que dá um passo em direção ao próprio desejo oferece uma oportunidade às demais....
14/05/2026

Vera Iaconelli nos lembra: “Cada mulher que dá um passo em direção ao próprio desejo oferece uma oportunidade às demais.” Essa frase ecoa na história de Ângela Diniz, uma mulher que desafiou as normas sociais de sua época para ir ao encontro do que desejava.

Para Ângela, o “inferno” não era a separação em si, mas a repressão de seu desejo e a opressão social que sofria. Sua busca pela separação era, acima de tudo, uma busca por identidade e liberdade.
A repressão do desejo feminino é um elemento estruturante da sociedade patriarcal. Freud, em O Mal-estar na Civilização, já nos alertava sobre a angústia que emerge quando as pulsões e desejos são sacrificados em nome das exigências culturais. Na época de Ângela, essas regras eram ainda mais rigorosas e silenciadoras para as mulheres.

Ao buscar o desquite — já que o divórcio ainda não era uma realidade legal —, Ângela desafiou a estrutura familiar e social dominante. Enfrentou o julgamento de uma sociedade que não suportava a liberdade feminina e pagou um preço altíssimo por isso. Contudo, a injustiça sofrida por ela mobilizou o movimento feminista no Brasil, tornando-se um marco na luta contra a violência de gênero e garantindo que o discurso jurídico não fosse mais o mesmo.

A trajetória de Ângela nos recorda que o movimento em direção ao próprio desejo é um ato de resistência. Cada passo dado rumo à autenticidade subjetiva rompe amarras e convoca outras mulheres a também se libertarem das opressões sociais.

O gesto de Ângela permanece como um lembrete: a importância de sustentar o próprio desejo e trilhar um caminho que nos pertença.

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Série: Ângela Diniz: Assassinada e Condenada (HBO Max)

A psicanálise não é, e nunca pretendeu ser, um refúgio de conforto imediato. Pelo contrário, o consultório é frequenteme...
12/05/2026

A psicanálise não é, e nunca pretendeu ser, um refúgio de conforto imediato. Pelo contrário, o consultório é frequentemente o lugar onde o “bem-estar” educado dá lugar ao mal-estar constituinte. Entrar em análise é aceitar o convite para habitar um lugar incômodo.

Freud já nos alertava que o preço que pagamos pela civilidade é a renúncia pulsional. No setting analítico, essa renúncia é colocada em xeque. O incômodo surge porque a terapia nos retira da posição de “vítimas do destino” para nos colocar como implicados em nosso próprio sofrimento.

O desconforto é o sinal de que a resistência está sendo tensionada. Quando o analisante diz “não quero falar sobre isso” ou sente o silêncio do analista como um peso insuportável, ele está tocando naquilo que Lacan chamou de Real, aquilo que foge às palavras, que não faz sentido e que angustia. É assim que observamos a relação de Wandinha com o processo analítico, ela prefere fugir do que encarar suas questões mais profundas.

O objetivo final não é eliminar o desconforto para sempre, mas mudar nossa relação com ele. Atravessar esses lugares difíceis permite o que a psicanálise chama de atravessamento da fantasia. Deixamos de ser reféns das histórias que contamos a nós mesmos para suportar a vida e passamos a suportar a existência com menos ilusões e mais autonomia.

Portanto, se a terapia está incomodando, se o caminho parece tortuoso e se há vontade de fugir, saiba: é exatamente aí que o trabalho começou.

O diálogo do post de hoje toca em uma das nossas feridas mais profundas: o terror diante da vulnerabilidade que o amor e...
05/05/2026

O diálogo do post de hoje toca em uma das nossas feridas mais profundas: o terror diante da vulnerabilidade que o amor exige. Na psicanálise, o medo de se entregar a uma relação não é visto como covardia, mas como um mecanismo de defesa contra a angústia do desamparo.

Freud dizia que nunca estamos tão desamparados quanto quando amamos. Por isso, a escolha pelo isolamento e pela anestesia é uma tentativa de controle. Se eu não sinto, o outro não pode me machucar. O problema é que o preço de não sentir a dor é deixar de sentir a própria vida.

E por que tantas vezes torcemos para o desastre acontecer?

Porque o ser humano tem muita dificuldade em lidar com a incerteza. Quando o não saber se a relação vai dar certo se torna mais agonizante do que a dor do fim, nosso inconsciente prefere precipitar o desastre. Implodir a relação é uma forma distorcida de retomar o controle, trocamos a angústia do suspense pela dor já conhecida do luto.

Como nos lembra Lacan, o amor sempre vai nos expor à nossa própria falta. Amar é suportar que somos incompletos e que não existe encaixe perfeito onde o outro preenche todos os nossos vazios.

Apostar no amor é um salto no escuro. A resposta não está em encontrar um amor sem riscos ou se blindar contra eles, mas em aprender a sustentar a incerteza.

E você? Tem escolhido o risco da aposta ou a segurança da anestesia?

Série: Os Casos de Harry Hole (Netflix)

Na cena, Ângela pede justiça ao advogado na luta pela guarda da filha, que atua como um representante do rigor da lei na...
23/04/2026

Na cena, Ângela pede justiça ao advogado na luta pela guarda da filha, que atua como um representante do rigor da lei na época, um vigilante da moral feminina.

Para que Ângela pudesse ter acesso à filha, a regra era clara, deveria conter a pantera, apelido que recebeu pelo seu jeito de vida indomável.

Ângela vivia em conflito com seu desejo de ser livre e as grades sociais impostas sobre ela, assim como muitas mulheres vivem até hoje. A lógica patriarcal tenta transformar mulheres em apenas funções, mães ou esposas, anulando o sujeito desejante.

Enquanto ao homem é sempre autorizado a ser mais que um pai, há uma luta velada para negar à mulher, o direito de ser mais que um papel social. O “crime” de Ângela, aos olhos da sociedade da época, talvez tenha sido justamente recusar-se a ser uma “pantera domada” para manter vivo o seu próprio desejo.

Em quais áreas da sua vida você sente que precisa se “encolher” para ser aceita ou respeitada?

Série: Ângela Diniz Assassina e Condenada (HBO Max)

16/04/2026

No série “Falando a Real” (Shrinking), vemos um exemplo claro do que não fazer na clínica.

Muitas vezes, a expectativa de quem chega ao consultório é ouvir do profissional a resposta para o que ele deve fazer. No entanto, quando um psicólogo toma as rédeas da vida do paciente, ele está roubando sua autonomia.

Na clínica, o nosso papel não é dar respostas prontas ou ultimatos. É sustentar um espaço onde o paciente possa se escutar, reconhecer seus próprios desejos e, a partir daí, construir suas próprias saídas, por mais difícil (e demorado) que esse processo seja.

Na cena, Harry pede ao amigo uma droga que possa silenciar as vozes da sua cabeça, aquelas que o impedem de descansar. E...
14/04/2026

Na cena, Harry pede ao amigo uma droga que possa silenciar as vozes da sua cabeça, aquelas que o impedem de descansar. Em meio a uma crise de relacionamento, o luto pela morte da colega e a culpa por um acidente do passado, sua mente não consegue relaxar.

O amigo é direto, não existe droga para apagar isso. Ou melhor, até existe, mas o silenciamento químico funciona apenas como uma anestesia para angústia, que inevitavelmente insiste em retornar. Quando o efeito passa, a dor ressurge. E ela se manifesta porque tem algo a dizer.

Hoje, vivemos uma onda de automedicação e busca por soluções rápidas que visam calar os sintomas que nos desacomodam. Existe a ilusão de que eliminar o desconforto é o mesmo que alcançar a cura.

Mas, na psicanálise, entendemos que o que é reprimido, retorna. O inconsciente sempre encontra uma fresta para escapar, muitas vezes de formas ainda mais sintomáticas e dolorosas.

É por isso que o processo de análise é tão fundamental. Em vez de tentar “apagar” o sujeito, o processo analítico oferece a oportunidade de dar contorno à angústia e descobrir o que ela está tentando nos comunicar, podendo então dar a ela outros caminhos, diferentes da repressão ou do amortecimento.

Não se trata de silenciar a mente, mas de aprender a ouvir o que ela está tentando nos contar.

Você também já sentiu que sua mente precisava de um botão de desligar? Envia pra quem precisa ver esse post também!

Série: Os Casos de Harry Hole (Netflix)

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