Pílulas Psicanalíticas - Ana Cristina Maia

Pílulas Psicanalíticas - Ana Cristina Maia Psicanalista. Psicanálise, Psicoterapia, Terapia

Se tem uma coisa que quem já ficou um tempo em análise percebe é que mudar não é simples ato de vontade.Mesmo buscando s...
30/07/2026

Se tem uma coisa que quem já ficou um tempo em análise percebe é que mudar não é simples ato de vontade.

Mesmo buscando simplificações e sentidos, com a finalidade de reduzir a multidão que somos e de atribuir alguma previsibilidade à ficção que criamos para existir, somos feitos de complexidades.

E é nelas que esbarramos quando, mesmo desejando outra vida, patinamos em repetições.

Por que você quer mudar? Que benefícios essa mudança lhe traria? O que não suporta em si, você realmente não suporta, ou essa ideia surgiu a partir da vergonha e da coerção social? E, neste caso, há realmente desejo de mudar ou apenas de ser aceito como se é, sem tanta cobrança?

Essas perguntas importam porque é fácil confundir o desejo por mudança com a adaptação à lógica produtivista quando cada traço do sujeito precisa ser transformado em um projeto de melhoria.

Mudar o mindset, alcançar todo o seu potencial e tornar-se sua melhor versão seguindo apenas alguns passos. Essas são ideias que vendem bem. O que não é tão vendável assim, nos adverte o psicanalista Adam Phillips, é que mudar é perder. E não é fácil se despedir de um velho conhecido.

✍️ Ana Cristina Maia

De pronto e talvez a resposta mais comum é: quando sofremos. Mas, para além do sofrimento evidente, podemos iniciar uma ...
23/03/2026

De pronto e talvez a resposta mais comum é: quando sofremos.
Mas, para além do sofrimento evidente, podemos iniciar uma análise quando algo nos tira do automatismo dos dias, nos assombrando com a vida que temos levado.
Quando paramos de normalizar e justificar o mal-estar sentido. (Não, a vida não é assim mesmo!)
Quando junto a sensação de desânimo e tristeza inaugura-se também o questionamento: "Por que me sinto assim?" E isso mobiliza uma busca por saber e por se ouvir.

A busca por análise pode acontecer com a chegada de um diagnóstico psiquiátrico, um luto, uma crise existencial, mas, ela também acontece nesses momentos em que algo sai fora do roteiro e nos recusamos a deixar para lá. Às vezes, identificamos algo que insiste e então, nos damos a oportunidade de pensar qual nosso lugar, por que fazemos o que fazemos e o que esperamos com isso?

Em resumo, seja por curiosidade, necessidade, uma crise ou mal-estar, procura-se a análise porque se acredita que há algo a se saber sobre si, ainda que com poucas pistas a respeito, escolhe não se deixar pra lá.

✍️ Ana Cristina Maia - psicanalista

"Somos pessoas diferentes com interlocutores diferentes porque cada pessoa solicita ativamente, a partir do seu próprio ...
11/03/2026

"Somos pessoas diferentes com interlocutores diferentes porque cada pessoa solicita ativamente, a partir do seu próprio inconsciente, alguns dos modos de ser do nosso repertório psíquico, e não outros. E, dialeticamente, participamos na criação desse outro com o qual nos relacionamos". (Marion Minerbo)

A partir da frase da psicanalista Marion Minerbo, torna-se possível pensar o quanto somos convocados e onde e no que convocamos o outro a partir de um encontro que acontece para além dos nossos desejos e aspirações conscientes.

Muitos dos nossos desencontros e conflitos, (assim como os bons encontros) acontecem no âmbito do inconsciente e em análise percebemos que essa criação acontece em parceria, naquilo que cada um, inconscientemente, vai solicitando de nós e nós deles.

Não é à toa que Freud, em Mal Estar na Civilização, atribui às relações humanas, uma das causas do nosso mal-estar. Que elas são complexas, já sabemos e sentimos. Onde? Por quê? Aí a gente pode ter algumas pistas em análise.
✍️Ana Cristina Maia, psicanalista

Cenários desabarem é coisa que acontece. Acordar, bonde, quatro horas no escritório ou na fábrica, almoço, bonde, quatro...
09/03/2026

Cenários desabarem é coisa que acontece. Acordar, bonde, quatro horas no escritório ou na fábrica, almoço, bonde, quatro horas de trabalho, jantar, sono e segunda terça quarta quinta sexta e sábado no mesmo ritmo, um percurso que transcorre sem problemas a maior parte do tempo. Um belo dia, surge o "por quê" e tudo começa a entrar numa lassidão tingida de assombro. "Começa", isto é o importante. A lassidão está ao final dos atos de uma vida maquinal, mas inaugura ao mesmo tempo um movimento da consciência".

(Camus, o mito de Sísifo)

um jeito poético de descrever como se inicia e caminha uma análise
18/01/2026

um jeito poético de descrever como se inicia e caminha uma análise

Criar intimidade consigo passa pela possibilidade de arranjar um tempo e espaço para se contar. E, logo nos primeiros ca...
08/01/2026

Criar intimidade consigo passa pela possibilidade de arranjar um tempo e espaço para se contar. E, logo nos primeiros capítulos de O Caderno Proibido, acompanhamos, angustiados, a dificuldade de uma mulher trabalhadora, casada e mãe de dois filhos em encontrar tempo e lugar próprios.

Com a individualidade diluída, inclusive com sua ativa e orgulhosa participação, afinal, era o esperado de uma mulher dos anos 50, é através da escrita que ela reconhece essa vida não vivida. Não há somente a ausência de um lugar físico, mas também a perda de seu lugar como mulher, que foi reduzido à manutenção da maternidade e do cuidado. Sem nome próprio, em casa é mamãe, inclusive para o companheiro.

Essas e muitas outras condições (e conflitos) só se apresentam e são possíveis de reconhecer a partir desse gesto inaugural: a apropriação do nome próprio escrito na página de rosto do caderno: Valéria.

A partir de então, a vida tranquila e conformada, que só se sustentava graças às atividades cotidianas que levavam ao esquecimento do mínimo incômodo, começou a ganhar rachaduras com a impertinente exigência de registro trazida pelo diário.

À medida que vão sendo inventariadas as relações com a filha, o marido, a própria feminilidade e, posteriormente, com a nora, Valéria começa a questionar seus papéis sociais e igualmente a se angustiar diante da suspensão de algo dado como fixo e correto.

Quem sou eu agora que tudo o que me organizava mostrou-se frágil?

Não há sinais de que Valéria tenha encontrado a resposta. E colocar rapidamente uma seria justamente retornar ao lugar de onde o caderno a resgatou. E isso ela não conseguiria mais.

✍️Ana Cristina Maia, psicanalista
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A experiência de análise, quando acontece, visa nos tirar da condição de meros sobreviventes, funcionais e autômatos. Se...
31/07/2025

A experiência de análise, quando acontece, visa nos tirar da condição de meros sobreviventes, funcionais e autômatos.

Se a Psicanálise sobrevive aos nossos dias, onde se impera um saber mediado por especialistas que apontam soluções rápidas para questões complexas, a Psicanálise segue o caminho oposto, oferece um espaço para que cada um, em seu próprio tempo, consiga acessar a si mesmo e assim construir um saber sobre si. Oferece um espaço de vida, de viver além da mera adaptação.

Para além da resposta (o que mobiliza uma análise são boas perguntas), do mero fazer, da ação-solução comuns a manutenção da sobrevivência, a análise convida a vida que também é feita de silêncios, faltas e inatividade. É estranho, mas, nem sempre a solução que acreditamos passa pelo fazer, aliás, fazer sem fazer questão é mais um modo de repetição.

A ação, entendida pela Psicanálise, é um gesto inaugural na vida do sujeito.

Acho bonito pensar que uma análise quer nos fazer transcender o modo sobrevivência que quer apenas a solução das questões que afligem sem trabalhar e pensar o que nesta aflição aponta para a própria história e se repete como destino. Começar a viver talvez passe por esse ato inaugural.

✍️Ana Cristina Maia - psicanalista

Ainda bem que há o mal entendido entre aquilo que se pede e a oferta daquilo que o outro interpretou com o pedido.Ainda ...
16/05/2025

Ainda bem que há o mal entendido entre aquilo que se pede e a oferta daquilo que o outro interpretou com o pedido.

Ainda bem que amor e acolhimento, ainda que se confunda, não significam atender demandas e vontades, algo por si, fadado ao fracasso.
"Não, não é isso", quem nunca?

Ainda bem que oferecer escuta é possibilitar esse espaço entre e não sufocá-lo com respostas.

Ainda bem!
Porque só assim nasce o desejo!

✍️Ana Cristina Maia - psicanalista
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Citação: Donald W. Winnicott, uma nova abordagem. Laura Dethiville


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03/04/2025

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