23/06/2025
Cansaço não é identidade. É sintoma. É sinal de um sistema que nos adoece.
Até quando a gente vai fingir que não vê?
Até quando vão dizer que exaustão é normal?
Que dor é detalhe?
Que mal-estar é frescura?
Que mãe cansada é só uma boa mãe.
Que mulher sobrecarregada é só uma mulher forte.
Eu sou psicóloga. Eu sou mãe.
E, mesmo com toda consciência, mesmo com todo conhecimento, eu também fui engolida.
Porque não é sobre não saber. É sobre ser mulher em uma sociedade que romantiza o nosso esgotamento.
Ignorei quando o corpo gritou — e gritou alto.
Fiz o que ensinaram pra gente fazer: anestesiar.
Massageei, tomei remédio, apertei os dentes e segui.
Cuidando dos filhos, da casa, do trabalho, das demandas invisíveis — aquelas que ninguém vê, mas que a gente sente pesar todos os dias nas costas e na pele.
Até que o corpo parou por mim.
Coçou tanto… que eu precisei parar.
Fui pro hospital.
Suspeita de sarna. Depois alergia.
E então veio o laudo dos exames:
“Você teve dengue. Está na fase final do vírus.”
Sete dias com dengue.
Sete dias achando que era “só cansaço”.
Sete dias ignorando meu corpo, meus sinais, minha existência.
E aí ficou impossível não olhar:
O que parecia “só uma dengue” virou um espelho cruel de uma estrutura que ensina mulheres — principalmente mães — a se ignorarem. A se anularem. A se colocarem sempre por último.
Porque é isso que fazem com a gente:
Nos convencem de que dar conta de tudo é sinônimo de amor.
De que se escolhermos parar, descansar, priorizar, somos egoístas, frágeis ou incapazes.
Mas eu não sou.
Você não é.
Nenhuma de nós é.
O cansaço não é fracasso individual. É sintoma coletivo de uma lógica que adoece mulheres, que adoece mães, que adoece quem cuida.
Até quando a gente vai normalizar se ignorar?
Até quando vamos aceitar que ser mulher seja sinônimo de se sobrecarregar até adoecer?