Intelier Maria Peixoto

Intelier Maria Peixoto Doença Grave & Confronto com a Finitude
Acompanhamento para fazer sentido e encontrar direção nos momentos mais crus.

A J. chegou-me com um luto com mais de 30 anos, vivido em criança e que agora se fez (mais) presente e consciente.Não há...
24/07/2026

A J. chegou-me com um luto com mais de 30 anos, vivido em criança e que agora se fez (mais) presente e consciente.
Não há cedo nem tarde nestas coisas do luto, ele tem o seu tempo próprio.

Havia tristeza e a sensação de ter perdido alguém muito importante, apesar de, racionalmente, saber que era muito pequena quando essa pessoa 'partiu'.

No corpo, esse luto manifestava-se como um nó no estômago. Quando lhe demos forma surgiram duas mãos apertadas com força.

À primeira vista poderia parecer uma dificuldade em deixar a pessoa partir. Mas não. O luto e o nó falavam da ligação forte entre as duas. Falavam dessa ligação que precisava ser (mais) conhecida, honrada. Falavam de um legado que está a ser pedido à J. que assuma e expresse.

Só depois de compreendermos o sentido daquele nó, quando ficou mais claro o que precisava continuar vivo apesar da morte, passou a fazer sentido acompanhar aquela menina pequenina de há 30 anos a despedir-se e a integrar o luto que na altura não teve oportunidade de compreender e fazer.

Nenhum luto deve ser desvalorizado. E também não chega sentir, libertar e seguir. Precisamos compreender o seu signif**ado e integrá-lo na história de quem somos.

(partilhado com consentimento)

Seja porque nos morreu alguém ou porque, por algum motivo, nos deparamos com a nossa própria mortalidade, existem moment...
20/07/2026

Seja porque nos morreu alguém ou porque, por algum motivo, nos deparamos com a nossa própria mortalidade, existem momentos em que a morte precisa ser encarada e desemaranhada.

Falar sobre a morte é normalmente tido como mórbido. É raro encontrarmos lugares e pessoas à nossa volta que sustentem essa conversa com naturalidade e profundidade.

Mas existem momentos em que sabemos que precisamos ir aí. Olhar, falar, desenrolar. Seja um tema antigo, algo a acontecer no presente ou uma possibilidade que antevemos para o futuro.

Aqui aprofundamos estes temas guiados pela curiosidade, pelo sentir e pela (tua) verdade.

Consultas online e presencialmente em Guimarães.

Irvin Yalom é um reconhecido psiquiatra e psicoterapeuta existencial da atualidade. Passou uma vida inteira a ajudar os ...
25/06/2026

Irvin Yalom é um reconhecido psiquiatra e psicoterapeuta existencial da atualidade. Passou uma vida inteira a ajudar os outros a lidar com as grandes questões da existência: a morte, o sofrimento, a solidão e o sentido da vida. Neste livro, é ele quem se vê confrontado com essas mesmas questões.

Escrito a quatro mãos por Yalom e a sua mulher, acompanha o período em que Marilyn é diagnosticada com um cancro terminal. Depois da sua morte, é Irvin quem continua a narrativa, partilhando sobre a difícil tarefa de viver sem a pessoa com quem partilhou uma vida inteira.

Ao longo do processo ambos oscilam entre a lucidez e a fragilidade. A coragem e a dúvida. A aceitação e a revolta.

Mas há uma ideia que permanece, a de escolher em que condições ainda vale a pena viver.

Se há uma frase que descreve a reflexão que mais me impactou neste livro é a de Nietzsche - "Morrer no momento certo".

Depois de um diagnóstico ou prognóstico difícil que nos coloca de frente com a possibilidade ou a proximidade da morte, ...
23/06/2026

Depois de um diagnóstico ou prognóstico difícil que nos coloca de frente com a possibilidade ou a proximidade da morte, é natural f**armos confusos e assoberbados.

Mais cedo ou mais tarde surgem perguntas como: “Porquê isto?”, “Porquê a mim?”, “Porquê agora?”.

É profundamente humano tentar compreender aquilo que de tão disruptivo nos está a acontecer, porque o chão desaba e o sentido que fazíamos do mundo deixa de encaixar na nossa nova realidade.

Na maioria das vezes estas perguntas não expressam apenas a procura de uma causa, mas sim uma necessidade mais profunda de compreensão, signif**ado e orientação.

Uma compreensão que vai além do que acontece ao nível do corpo biológico e genético. Porque esse corpo não é estanque. Está ligado a uma mente, a um sistema emocional, é atravessado por vivências passadas e presentes, pelo contexto em que vivemos e, acredito, integrado numa inteligência maior da vida.

Fazer algum sentido desta vivência ajuda-nos a lidar com consciência e autodeterminação com o que estamos a atravessar.

Não porque controlamos a doença, nem a forma como evolui, mas porque muda a forma como nos relacionamos connosco e com a nossa vida, independentemente do tempo que nos resta.

Não há respostas prontas.
Mas temos possibilidade de explorar, de aprofundar, de ir ganhando clareza. Confiando no nosso sentir, seguindo a nossa experiência e sem delegar o nosso discernimento.

Não vejo a doença apenas como um desafio psicológico a gerir. Também não a vejo como uma lição espiritual com uma explic...
11/06/2026

Não vejo a doença apenas como um desafio psicológico a gerir.

Também não a vejo como uma lição espiritual com uma explicação pronta.

O que sei é que a doença acontece sempre numa pessoa inteira.

É que existem dimensões biológicas, mentais, emocionais, relacionais, existenciais e espirituais que influenciam o aparecimento e o curso da doença.

É que o corpo, a psique, a nossa história pessoal, o que acreditamos e a forma como vivemos estão profundamente ligados.

Nem sempre percebo como se articulam.
Mas vale sempre a pena explorá-los, aprofundá-los a partir do sentir e da vontade da pessoa.

Porque daí emerge informação, signif**ado, sentido.

Um sentido que não é imposto por alguém nem é fruto de uma análise lógica. Mas é descoberto, revelado, reconhecido numa escuta mais profunda de quem somos.

E isso muda a forma como nos relacionamos com a doença, muda a forma como nos relacionamos com a vida.

Quando o diagnóstico ou o prognóstico chegam, a maioria das pessoas que nos rodeiam preocupam-se como reagimos às notíci...
06/06/2026

Quando o diagnóstico ou o prognóstico chegam, a maioria das pessoas que nos rodeiam preocupam-se como reagimos às notícias, como lidamos com o que acontece.

Isso importa, claro. Mas f**a aquém daquilo que é a experiência interior de quem passa por estes momentos.

A doença e o confronto com a nossa mortalidade não trazem apenas desafios de ajustamento psicológico, não impactam apenas o nosso estado emocional e mental.

O entendimento que tínhamos sobre a nossa vida f**a abalado, desadequado à nova realidade.

Surgem questões acerca de como a doença nos chega ou de que direcção nos está a pedir.

A nossa identidade f**a difusa, partes de nós inevitavelmente não continuam iguais e vão ruindo.

Temos uma sensação difícil de explicar, de que há algo mais profundo a entender sobre o que nos está a acontecer.

E é por isso que se torna necessário um espaço onde possamos explorar, elaborar, onde as respostas comecem a surgir e o sentido comece a emergir.

É esse o trabalho que faço nas minhas sessões individuais, criando um lugar onde a verdade da pessoa e da sua experiência se vai revelando, sem a encaixar em caixas pré.concebidas.

Online e presencialmente em Guimarães.

Um diagnóstico confronta-nos com questões existenciais, sobre a vida e a morte. Frequente e felizmente ainda com tempo d...
04/06/2026

Um diagnóstico confronta-nos com questões existenciais, sobre a vida e a morte. Frequente e felizmente ainda com tempo de fazer algo em relação a isso..

O que é que ainda não cumpri?
O que é ou passa a ser prioridade?
Que assuntos preciso resolver?
Que legado quero deixar?

A doença é muitas vezes um abanão para vivermos com mais consciência e intencionalidade.

E eu não sou excepção.

No meu caso, foi um episódio de uma complicação pós cirurgica que me trouxe esse confronto real com a minha morte e, consequentemente, com a minha vida.

Passei a questionar com mais frequência se estou a viver a vida o melhor que sei.

Se a estou a aproveitar no meio das limitações.

Se, chegada a uma nova doença grave ou ao fim de vida, vou olhar com arrependimento para a forma como estou a lidar com o meu presente.

E de repente vejo-me com mais coragem e determinação para fazer aquilo que realmente me importa fazer.

Aqueles clichés irritantes que percebes que acertam mesmo no ponto.

Nem sempre o esforço conduz aos resultados.Coisas más acontecem a pessoas boas.O cuidado nem sempre nos protege. Digo is...
29/05/2026

Nem sempre o esforço conduz aos resultados.
Coisas más acontecem a pessoas boas.
O cuidado nem sempre nos protege.

Digo isto sem revolta ou ressentimento.
Porque a vida não é essa coisa linear, de causa e efeito.
Há muito que não controlamos, não conhecemos e não compreendemos.

Olho para essa injustiça como parte da incerteza e do mistério da vida.

Porque acredito que o que vivemos faz parte de algo maior, de um sentido maior, uma inteligência maior. Que nem sempre compreendemos e nem sempre se coaduna com a noção de justiça.

A doença, a fragilidade, a morte, não são excepção.

Estas experiências transformam-nos, reorganizam-nos e aproximam-nos de partes mais profundas de nós.

E a forma como as atravessamos também transforma os outros e deixa impacto no todo maior de que fazemos parte.

Por isso, às vezes, procurar sentido quando sentimos que não há uma lógica de justiça implica fazer um 'zoom out'.
Alargar a perspetiva e olhar com mais amplitude para os impactos que estes acontecimentos têm em nós, nos outros e no cômputo geral das coisas, da vida.

Porque o que nos acontece, mesmo não sendo justo, pode ainda ter sentido.

Há 15 anos, noutra vida, acabada de sair da universidade, trabalhei com idosos. Uma coisa que sempre me ficou foi como a...
26/05/2026

Há 15 anos, noutra vida, acabada de sair da universidade, trabalhei com idosos.

Uma coisa que sempre me ficou foi como a ligação que tinham à religião, a Deus, os ajudava a lidar com as dificuldades que tinham e as provações por que passavam.

Lembro-me perfeitamente de pensar como seria quando eu e a minha geração, muitos de nós desligados de crencas e práticas espirituais, chegássemos àquela idade e àquela fase desprovidos desse suporte.

Continuo sem me identif**ar com uma religião, com um credo.

Mas aprofundei a minha relação com o mistério da vida, com algo maior que acredito que existe, ainda que não saiba exatamente o que lhe chamar nem como o explicar.

E sempre que me entrego, que me predisponho a acreditar, sinto apoio, suporte, orientação.

Mais do que ter explicações ou certezas, chega-me o sentir e a experiência de uma e outra vez ser suportada pela vida.

Sim, mesmo quando me troca as voltas, me atira ao tapete e nada corre como eu gostaria...

Porque confio num sentido maior e isso ajuda-me a fazer a parte que me cabe a cada momento.

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