21/08/2026
𝗣𝗼𝗿𝘁𝘂𝗴𝗮𝗹 𝗰𝗼𝗻𝘁𝗶𝗻𝘂𝗮 𝗺𝘂𝗶𝘁𝗼 𝗮𝘁𝗿𝗮́𝘀 𝗱𝗼𝘀 𝗺𝗼𝗱𝗲𝗹𝗼𝘀 𝗶𝗻𝘁𝗲𝗿𝗻𝗮𝗰𝗶𝗼𝗻𝗮𝗶𝘀 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝗱𝗲𝘀𝗲𝗻𝘃𝗼𝗹𝘃𝗶𝗱𝗼𝘀 𝗻𝗮 𝗳𝗼𝗿𝗺𝗮 𝗰𝗼𝗺𝗼 𝗺𝗲𝗱𝗲 𝗲 𝗮𝘃𝗮𝗹𝗶𝗮 𝗮 𝗲𝗺𝗲𝗿𝗴𝗲̂𝗻𝗰𝗶𝗮 𝗽𝗿𝗲́-𝗵𝗼𝘀𝗽𝗶𝘁𝗮𝗹𝗮𝗿. A diferença não está apenas na quantidade de dados publicados, mas sobretudo naquilo que se pretende medir. Enquanto os sistemas EMS mais maduros tratam a emergência pré-hospitalar como um sistema clínico que deve ser continuamente avaliado, o "modelo" português continua excessivamente centrado na apresentação de indicadores de atividade institucional.
Num sistema EMS moderno, não basta saber quantas chamadas foram recebidas, quantas ocorrências foram processadas, quantos meios estiveram disponíveis ou quantos pacientes foram transportados. É necessário saber quem era o paciente, qual era a sua gravidade, que recurso era clinicamente indicado, que recurso foi efetivamente enviado, qual era a competência clínica da equipa, quanto tempo demorou a chegar, que procedimentos foram realizados, qual foi o destino e, sempre, qual foi o resultado clínico.
Esta diferença é fundamental. Contar atividade não é medir desempenho. Uma organização pode aumentar o número de ocorrências processadas e, simultaneamente, diminuir a qualidade da resposta prestada.
Os sistemas EMS mais avançados permitem cruzar gravidade clínica, tipo de recurso, nível de competência profissional, tempos de resposta, intervenções, transporte, destino e indicadores de desempenho. Permitem ainda comparar regiões, identificar desigualdades, estabelecer benchmarks e avaliar se os recursos existentes correspondem efetivamente às necessidades da população.
É precisamente aqui que o modelo português revela uma fragilidade estrutural.
O relatório do INEM apresenta uma quantidade significativa de informação sobre a atividade realizada, mas não oferece publicamente, com a mesma profundidade, uma verdadeira análise integrada de necessidade clínica versus capacidade de resposta versus resultado.
E esta lacuna torna-se particularmente grave perante os mais de 26.000 pacientes classificados pelo CODU com prioridade máxima que não receberam o nível de resposta diferenciada/SAV esperado.
Esse número não pode ser tratado como uma simples estatística administrativa.
Ele exige respostas objetivas:
Quantos destes pacientes necessitavam efetivamente de SAV? Que recurso era clinicamente indicado? Que recurso foi enviado? Quanto tempo demorou? Existia recurso disponível? Se existia, porque não foi mobilizado? Se não existia, porquê? Que intervenção foi realizada? Para onde foi transportado o paciente? E qual foi o resultado?
Sem estas respostas, existem várias hipóteses que têm obrigatoriamente de ser investigadas: triagem inadequada, insuficiência de recursos, indisponibilidade operacional, má distribuição territorial, falhas no despacho ou inadequação do próprio modelo de resposta.
E não é aceitável escolher antecipadamente uma dessas explicações sem disponibilizar os dados que permitam comprová-la.
Os sistemas EMS mais avançados também reconhecem as suas próprias limitações: definem standards nacionais de dados, estabelecem critérios de qualidade, identificam problemas de completude e permitem auditoria e investigação independente. Ou seja, não pedem confiança cega nos números apresentados pela própria organização; permitem que os dados sejam analisados e escrutinados.
É precisamente essa cultura que falta em Portugal.
O país precisa de deixar de confundir relatório de atividade com relatório de desempenho do sistema.
Um verdadeiro relatório de performance do sistema deveria permitir responder, de forma transparente e auditável:
Quantos pacientes críticos existiram?
Quantos necessitavam de SAV?
Quantos receberam SAV?
Quantos não receberam?
Porquê?
Quanto tempo demorou a resposta?
Que competência profissional estava presente?
Que intervenções foram realizadas?
Qual foi o destino?
E qual foi o resultado?
Isto é avaliação de desempenho.
O resto é, essencialmente, contabilidade de atividade.
E perante 26.000 pacientes de prioridade máxima sem o nível de resposta diferenciada esperado, a questão já não é meramente operacional. É uma questão de qualidade, segurança do paciente, eficiência do sistema e responsabilidade na gestão dos recursos públicos.
Portugal não precisa de mais relatórios para demonstrar que o INEM trabalha. Precisa de dados que demonstrem, de forma científica e independente, se o sistema está efetivamente a responder aos pacientes certos, com os meios certos, no tempo certo e com a competência clínica adequada.
Sem essa informação, afirmar que o sistema funciona adequadamente é uma conclusão sem demonstração objetiva.