22/07/2026
A maternidade não nos apresenta apenas um filho. Ela também nos reapresenta a nós mesmas. Cada encontro profundo com um bebê desperta experiências emocionais que viveram silenciosas dentro de nós. O choro que nos atravessa, a culpa que nos visita, a ternura inesperada, a exaustão e até a irritação não falam apenas do presente. Muitas vezes, são ecos da nossa própria história.
Ao cuidar de uma criança tão dependente, inevitavelmente encontramos a criança que um dia fomos. Aquela que precisou ser vista, acolhida, protegida, compreendida. Às vezes encontramos uma criança que recebeu isso. Outras vezes, encontramos justamente a ausência. E esse encontro pode ser doloroso, porque percebemos que nem sempre conseguimos oferecer ao nosso filho aquilo que também nunca recebemos.
Mas a boa notícia é que não precisamos ser mães perfeitas. Precisamos ser suficientemente presentes, capazes de reparar, de reconhecer nossos limites e de continuar voltando para a relação.
A terapia nos lembra que a transformação acontece dentro de experiências emocionais seguras. Quando uma mãe encontra espaço para sentir, nomear e acolher suas próprias emoções com compaixão, algo profundo acontece: ela deixa de reagir apenas às feridas do passado e passa a responder a partir da presença do presente.
Curar a própria criança interior não signif**a apagar a dor da história. Signif**a não deixá-la conduzir, sozinha, a forma como amamos hoje. Talvez um dos maiores presentes da maternidade seja esse: descobrir que, enquanto ajudamos um filho a construir um apego seguro, também podemos reconstruir o nosso. Porque, muitas vezes, o colo que oferecemos ao nosso filho acaba se tornando, aos poucos, o colo que a nossa própria criança sempre esperou encontrar.
A maternidade não é apenas o nascimento de um filho. É, muitas vezes, o nascimento de uma nova relação consigo mesma.
Psicóloga Andressa Trentin