24/08/2026
Voltar a morar no Brasil depois de alguns anos em Portugal tem me provocado alguns choques culturais inesperados. Um deles diz respeito ao corpo feminino.
Tenho me surpreendido com a presença muito mais intensa de procedimentos estéticos, preenchimentos, cirurgias, tratamentos para emagrecimento, estratégias para ganho de massa muscular, tatuagens e até relatos do uso excessivo de testosterona com finalidades estéticas ou de performance.
Não significa que mulheres europeias não façam procedimentos. Fazem. Mas existem diferenças culturais importantes na maneira como o corpo é apresentado, valorizado e, sobretudo, cobrado.
E o que me inquieta não é o procedimento em si. Eu também gosto e faço com moderação.
A questão é outra: quanto de escolha ainda existe quando sentimos que há sempre alguma coisa em nós que precisa ser corrigida?
As rugas precisam desaparecer. O rosto deve permanecer jovem. O corpo precisa ser magro, mas musculoso. Pouca gordura, barriga chapada, braços firmes, glúteos definidos, pele perfeita, cabelo impecável.
A régua parece subir o tempo inteiro.
Naomi Wolf chamou atenção para o “mito da beleza”: o corpo feminino transformado em território permanente de vigilância, disciplina e inadequação.
Sabemos que nossos desejos não são produzidos fora da cultura. Por isso, não se trata de condenar a estética, a musculação ou o desejo de cuidar da aparência, mas de perguntar onde termina o cuidado e começa a submissão a um ideal impossível.
Nesse contexto, preocupa também a banalização do uso de testosterona por mulheres para fins estéticos ou de performance. Seu uso requer indicação e acompanhamento médico.
Talvez o que mais esteja me impactando seja perceber o quanto o corpo feminino permanece convocado ao aperfeiçoamento contínuo: mais jovem, mais magro,
mais firme, mais definido, mais desejável.
E quase nunca simplesmente suficiente.
Então deixo uma pergunta: quanto do que fazemos com nosso corpo nasce verdadeiramente do nosso desejo e quanto nasce do medo de deixar de corresponder ao olhar do outro? Vamos pensar juntas sobre isso?
Envelhe