27/07/2026
A filosofia holística é tão antiga quanto a própria humanidade. Desde tempos imemoriais sabemos que o
Homem se sentiu parte integrante do ambiente que o rodeava. O respeito pela natureza era importante para
o equilíbrio da comunidade, e o equilíbrio da comunidade era importante para o bem-estar do indivíduo.
Tanto na medicina tradicional chinesa (MTC) como na medicina ayurvédica (indiana) é fácil constatar a
importância dos elementos da natureza nos vários processos de cura. A doença é, nestes dois sistemas de
saúde, vista como provocada pelo desrespeito pela natureza, pelos ritmos naturais do ambiente e,
inevitavelmente, pelo próprio ser humano.
No apogeu da civilização Grega, Hipócrates, considerado o pai da medicina, afirmava que “a força
natural de cura dentro de cada um de nós é a maior força no processo de cura”. O mesmo Hipócrates
afirmava que o medicamento dado ao enfermo tinha como função distrair o mesmo enquanto a natureza se
encarregava da cura. Quando o médico contemporâneo faz o seu juramento hipocrático, no final da
licenciatura, está de facto a preservar uma parte da mitologia Grega: o mito de Higeia e de Asclépio. Estes
dois deuses simbolizavam as duas abordagens opostas na medicina da antiga Grécia.
Para os adoradores de Higeia, a saúde era a ordem natural do ser vivo, um atributo de todo o ser
humano que respeitasse a ordem natural da vida. De acordo com a sua filosofia, a função mais importante
do médico era descobrir e ensinar as leis da natureza, as quais seriam responsáveis por uma mente sã num
corpo são.
Já os adoradores de Asclépio acreditavam que a função primeira do médico era
tratar a doença, restabelecer a saúde, através da administração de remédios e da
cirurgia, que deveriam corrigir as imperfeições do ser humano causadas por
deficiências hereditárias ou acidentais.
Asclépio, pai de Higeia, intervinha na doença, enquanto a sua filha era
venerada por sustentar as forças dos mortais, prevenindo a doença e, dessa forma,
evitar a seu pai o trabalho de intervir continuamente. Higeia personificava de certa
forma o instinto da vida, sugerindo, por exemplo, aos mortais a escolha dos
alimentos necessários à sua existência. A medicina tecnológica optou pela tradição
asclépiana. Por outro lado, os terapeutas apelidados de “alternativos” e
“complementares” optaram pela tradição higeiana.
A tradição higeiana ensina-nos a criar saúde, a tomar as rédeas da nossa vida,
a sermos responsáveis pela nossa cura, a tomar uma atitude activa em todo o
processo. Os seguidores desta tradição, quase sempre desprezados pela medicina
tecnológica, ensinam-nos a utilizar remédios económicos e naturais, como ervas e
frutos, a fazer uso das propriedades curativas da água, a alimentar-nos de forma saudável, através de
alimentos biológicos simples e integrais. Lembram-nos com frequência do poder das nossas atitudes
perante a vida e de como estas a influenciam. Ensinam-nos a importância do exercício físico, do trabalho e
do descanso, da brincadeira. Educam ainda na faculdade da intuição e da arte, e de como ambas são
importantes na nossa vida. São os responsáveis por educar a população, mostrando o que é importante
modificar para que seja possível a harmonia com a natureza, com a comunidade e connosco. Para os
seguidores desta tradição, o nosso corpo possui todos os mecanismos para ser saudável, a doença surge
apenas se o terreno (corpo e alma) for propício ao aparecimento da mesma.
A tradição asclépiana, por outro lado, segue a ideia de que a saúde depende, em grande parte, da
intervenção médica. A tradição asclépiana afirma a politização da saúde pública.
Esta tradição é a
responsável pelos custos cada vez mais elevados dos tratamentos médicos convencionais: exige sempre a
intervenção para restabelecer a saúde, não confia na sapiência da natureza. Utiliza um vocabulário bélico
(“destruir” vírus, “combater” o cancro, “lutar” contra as bactérias). Esta tradição assenta na ideia que são
quase sempre factores externos ao indivíduo os causadores da doença. Procura incessantemente “armas”
para “combater” estes agentes (vírus, bactérias, poluent