04/06/2026
Há publicações que escrevemos com "a mente", mas esta vem mesmo de lá do fundo do coração.
Algumas pessoas perguntam-me porque insisto tanto na educação sexual como ferramenta de prevenção do abuso sexual infantil?
Porque acredito profundamente que proteger uma criança antes da violência acontecer é um dos maiores actos de amor que podemos oferecer.
Quando olhamos para as estatísticas, é fácil ver apenas números. Mas eu não consigo ver só números. Eu vejo crianças, sonhos interrompidos, infâncias roubadas vejo futuros que deveriam ser brilhantes, mas que f**am marcados por experiências que nenhuma criança deveria viver.
Por isso, falar de prevenção não é um capricho, uma moda, muito menos algo que tenha surgido do dia para a noite na minha cabeça. É ciência.
A prevenção acontece em diferentes momentos e todas as suas formas são fundamentais. Existe a prevenção primária, que ocorre antes de qualquer situação de abuso acontecer.
A prevenção secundária, que actua quando o problema já está a ocorrer, procurando identificá-lo e interrompê-lo o mais cedo possível.
E a prevenção terciária, que visa reduzir os danos e promover a recuperação das vítimas. Estas três formas de prevenção do Abuso sexual infantil são essenciais e precisam de caminhar juntas.
Eu escolhi dedicar grande parte do meu trabalho à prevenção primária, especialmente junto das crianças e dos jovens. E quando falamos de prevenção primária, falamos também de educação sexual.
Sei que o termo assusta muitos pais e educadores, mas, com crianças ensinamos que o corpo merece respeito, falamos de privacidade, falamos da diferença entre segredos bons e segredos maus, falamos de toques adequados e inadequados, falamos de adultos de confiança, falamos de emoções, sentimentos e limites, falamos, acima de tudo, de dar às crianças ferramentas para compreenderem o seu corpo, reconhecerem situações de risco e pedirem ajuda quando necessário.
Quando uma criança aprende os nomes correctos das partes do seu corpo, não está apenas a adquirir vocabulário. Uma criança que conhece o seu corpo consegue descrever situações com maior clareza quando algo a incomoda, a assusta ou a faz sentir insegura.
Sabias que muitas situações de abuso permanecem ocultas não apenas pelo medo, mas também pela dificuldade que a criança tem em explicar aquilo que aconteceu?
Eu sei que este é um caminho desafiante. Sei que, num país com tradições e valores culturais profundamente enraizados, estas conversas nem sempre são fáceis. Mas também sei que o silêncio nunca protegeu uma criança.
Como diz o provérbio: "Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura." Por isso continuarei a falar, a sensibilizar e a acreditar que cada conversa conta.
Porque o nosso propósito é proteger as nossas crianças antes que o abuso aconteça.
Já já no final do meu texto, deixo algumas questões para reflexão
Se nós não falarmos, quem falará?
Se não formos nós a ensinar, onde irão as crianças aprender?
E será essa fonte realmente a mais segura?
Pais, famílias, escolas, profissionais e sociedade em geral, esta responsabilidade é de todos nós, porque cada criança protegida é uma infância preservada.