Ciro Henrique Sakuyama Psicologia

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Na psicanálise, falar em “cura pelo amor” não significa oferecer ao paciente co***lo, afeto ou respostas prontas. Trata-...
19/08/2026

Na psicanálise, falar em “cura pelo amor” não significa oferecer ao paciente co***lo, afeto ou respostas prontas. Trata-se de algo mais complexo: uma relação na qual a pessoa pode falar, ser escutada e, pouco a pouco, entrar em contato com aquilo que antes não conseguia reconhecer em si.

Freud (A Dinâmica da Transferência, 1912) compreendeu que o vínculo estabelecido entre paciente e analista participa do próprio processo terapêutico. A transferência faz com que desejos, expectativas e conflitos inconscientes sejam atualizados na relação analítica, tornando possível trabalhá-los em vez de simplesmente repeti-los.

Para Winnicott (O Ambiente e os Processos de Maturação, 1965) o desenvolvimento emocional depende de experiências de cuidado suficientemente boas. Na clínica, uma presença confiável pode oferecer condições para que aspectos do self antes submetidos à adaptação encontrem espaço para existir.

Filosoficamente, Martin Buber (Eu e Tu, 1923) compreende o encontro autêntico como uma relação Eu-Tu, na qual o outro não é reduzido a objeto ou instrumento. Talvez seja essa dimensão que aproxime amor e psicanálise: a possibilidade de encontrar alguém que não queira moldar o sujeito, mas acompanhá-lo na descoberta de quem ele é.

O amor, na clínica, não é posse, sedução ou dependência. É uma forma ética de presença. E, às vezes, ser verdadeiramente escutado pode ser o primeiro passo para aprender a escutar a si mesmo.

18/08/2026

Sobre comparação nas redes sociais!

Esquecer um nome, trocar uma palavra, perder um objeto importante ou enviar uma mensagem para a pessoa errada. Costuma-s...
31/07/2026

Esquecer um nome, trocar uma palavra, perder um objeto importante ou enviar uma mensagem para a pessoa errada. Costuma-se chamar esses acontecimentos de “distrações”. Porém, nem sempre são simples acidentes.

Freud (A Psicopatologia da Vida Cotidiana, 1901) denominou esses fenômenos de atos falhos (Fehlleistungen - parapraxias). Ocorrem quando o inconsciente interfere, de maneira involuntária, naquilo que se pretendia dizer ou fazer, revelando conflitos, desejos, lembranças ou afetos que não encontraram outra forma de expressão.

Lacan (Escritos, 1966) afirmou que os atos falhos são formações do inconsciente que emergem por meio da linguagem, dos lapsos e dos equívocos. Para Lacan, não é apenas o sujeito que fala, mas também o inconsciente que se manifesta através daquilo que escapa ao seu controle.

Essa perspectiva aproxima-se do antigo convite filosófico inscrito no Templo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo.” O autoconhecimento, porém, não se limita àquilo que a consciência alcança; mas também escutar o que aparece nos silêncios, nas repetições e até nos próprios enganos.

Heráclito (Fragmento 119 Diels-Kranz) disse “o caráter do homem é o seu destino”. Antes de controlar completamente a própria vida, é preciso conhecer o que orienta a cada um (de maneira única e individual) pensamentos, escolhas e comportamentos.

Nem todo ato falho possui um significado oculto, mas alguns erros podem carregar um significado que vai além do acaso. A consciência não governa integralmente a vida psíquica. Às vezes, aquilo que escapa ao controle da razão pode dizer mais sobre uma pessoa do que aquilo que foi cuidadosamente planejado.

Amar e precisar não são a mesma coisa. A dependência nasce da falta; o amor maduro nasce da liberdade. Quem ama apenas p...
29/07/2026

Amar e precisar não são a mesma coisa. A dependência nasce da falta; o amor maduro nasce da liberdade. Quem ama apenas para preencher um vazio corre o risco de transformar o outro em resposta para aquilo que ainda não conseguiu encontrar em si mesmo.

Para Erich Fromm, amar é uma capacidade que exige cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento. O amor não aprisiona nem busca completar alguém; ele reconhece e favorece o crescimento de duas pessoas que permanecem inteiras em sua individualidade.

Donald Winnicott (O Ambiente e os Processos de Maturação, 1965) mostrou que os primeiros vínculos influenciam a maneira como amamos e que um ambiente suficientemente bom favorece o desenvolvimento, permitindo relações baseadas na confiança e não na dependência. Quando o amor se sustenta apenas pelo medo da perda ou do abandono, o outro deixa de ser um encontro e passa a ser uma necessidade.

Como disse Aristóteles:
“Amar é, antes de tudo, querer o bem de alguém por causa desse alguém”
- Ética a Nicômaco, Livros VIII e IX

Ou seja, quando duas pessoas desejam o bem uma da outra por aquilo que cada uma é, e não pela utilidade que oferecem. Talvez o amor maduro seja justamente isso: escolher permanecer, não porque a solidão assusta, mas porque a presença do outro enriquece a própria existência.

27/07/2026

Sobre o uso de telas!

Referências:
- Sigmund Freud. Formulações sobre os Dois Princípios do Funcionamento Psíquico (1911); O Mal-Estar na Civilização (1930).
- Donald Winnicott. A Capacidade para Estar Só (1958).
- Blaise Pascal. Pensamentos (Pensées, publicação póstuma em 1670).

Embora frequentemente usadas como sinônimos, essas experiências têm significados diferentes e compreendê-las é fundament...
24/07/2026

Embora frequentemente usadas como sinônimos, essas experiências têm significados diferentes e compreendê-las é fundamental para a saúde emocional.

A irritação costuma ser uma resposta a pequenos incômodos ou frustrações acumuladas. Ela reduz a tolerância emocional e torna as reações mais intensas, mas geralmente é passageira.

A raiva é uma emoção humana básica e saudável. Surge perante aquilo que se avalia como uma injustiça, uma ameaça, uma invasão de limites ou uma frustração significativa. A raiva não é um problema em si, mas um afeto que comunica algo importante sobre a experiência subjetiva. Quando reconhecida e simbolizada, pode favorecer mudanças, proteção e estabelecimento de limites.

A agressividade, por sua vez, refere-se à forma como essa energia é expressa. Donald Winnicott (O Ambiente e os Processos de Maturação, 1965) descrevia a agressividade como parte natural do desenvolvimento, relacionada à vitalidade, à exploração do mundo e à afirmação da própria existência. Ela só se torna destrutiva quando não encontra formas saudáveis de elaboração.

Freud (O Mal-Estar na Civilização, 1930) observou que a vida em sociedade exige a constante mediação entre impulsos e convivência. A maturidade emocional não consiste em eliminar a raiva, mas em transformá-la em pensamento, diálogo e ação responsável, em vez de violência ou destruição.

Aristóteles (Ética a Nicômaco) já ensinava que a virtude está no equilíbrio: “Qualquer um pode zangar-se; isso é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na intensidade certa, no momento certo, pelo motivo certo e da maneira certa, isso não é fácil.”

Sentir raiva não torna ninguém uma pessoa agressiva. O que define a maturidade emocional é a maneira como esse sentimento é reconhecido, elaborado e expresso.

O medo do escuro faz parte do desenvolvimento humano. A criança teme aquilo que ainda não conhece. Mas, ao amadurecer, o...
22/07/2026

O medo do escuro faz parte do desenvolvimento humano. A criança teme aquilo que ainda não conhece. Mas, ao amadurecer, outro medo pode surgir: o medo da luz.

Na filosofia de Platão, a luz representa a verdade. Na Alegoria da Caverna, deixar a escuridão não é um ato confortável. Significa abandonar crenças familiares, questionar certezas e suportar o desconforto de enxergar a realidade como ela é. A ignorância, muitas vezes, oferece uma sensação de segurança que a verdade não promete.

Freud (Uma Dificuldade no Caminho da Psicanálise, 1917) mostrou que o ser humano também evita reconhecer os desejos, conflitos e aspectos que desafiam a imagem construída sobre si. Tornar consciente aquilo que permanece inconsciente exige coragem, pois implica abrir mão de ilusões e enfrentar a responsabilidade pela própria história.

Carl Gustav Jung (Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo, 1951) expressou essa ideia ao afirmar que “não se torna iluminado imaginando figuras de luz, mas tornando consciente a escuridão.” A verdadeira luz não elimina a sombra; ela permite compreendê-la. Quanto mais uma pessoa foge de si mesma, mais permanece aprisionada por aquilo que desconhece.

A luz não revela apenas fragilidades; revela também potencialidades, criatividade e autenticidade que permaneceram ocultas sob o peso das adaptações excessivas.

Talvez a maior tragédia não seja viver cercado pela escuridão, mas recusar a oportunidade de conhecer a si mesmo. A luz pode incomodar os olhos acostumados às sombras, mas somente ela permite enxergar novos caminhos.

O autoconhecimento não elimina todas as dificuldades da vida. Entretanto, oferece algo ainda mais valioso: a liberdade de viver de forma mais consciente, autêntica e responsável. A verdadeira liberdade não nasce da ausência de medo, mas da coragem de olhar para si mesmo.

20/07/2026

Sobre Burnout!

Nem todo cansaço é apenas físico. Há um esgotamento que não melhora com sono ou descanso. Aos poucos, tarefas simples to...
17/07/2026

Nem todo cansaço é apenas físico. Há um esgotamento que não melhora com sono ou descanso. Aos poucos, tarefas simples tornam-se pesadas, a motivação diminui, a irritabilidade aumenta e o que antes trazia satisfação perde o sentido. Quando isso se torna persistente, é preciso olhar além do excesso de trabalho.

A Organização Mundial da Saúde (Burn-out an “occupational phenomenon, 2019) reconhece o burnout como síndrome decorrente do estresse crônico no contexto ocupacional. Em “The Burnout Challenge: Managing People’s Relationships with Their Work” (2022), Maslach e Leiter caracterizaram o burnout por exaustão emocional, distanciamento ou cinismo em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional.

Entretanto, o burnout não é apenas consequência da sobrecarga. O sofrimento também surge quando o sujeito se afasta do próprio desejo para atender às expectativas externas. Winnicott (O Ambiente e os Processos de Maturação, 1965) descreveu que, quando a adaptação ao ambiente se torna excessiva, a mente se organiza para corresponder às demandas do outro em detrimento da autenticidade. O esgotamento, nesse sentido, pode expressar o custo emocional de uma vida distante de si mesmo.

Freud (O Mal-Estar na Civilização, 1930) já observava que toda civilização exige renúncias inevitáveis. O sofrimento aparece quando essas renúncias deixam de ser compensadas por satisfação, criatividade, vínculos e reconhecimento. Trabalhar é fundamental, mas quando o desempenho passa a definir o valor da pessoa, o risco de adoecimento aumenta.

Essa reflexão dialoga com Byung-Chul Han (Sociedade do Cansaço, 2015), que descreve a sociedade contemporânea como a sociedade do desempenho, na qual o indivíduo passa a explorar a si mesmo, acreditando precisar produzir continuamente para justificar sua existência.

Cuidar da saúde mental não significa produzir menos por incapacidade, mas reconhecer quando se há a perda da própria identidade. Pedir ajuda não é fraqueza; é um passo em direção ao cuidado, à recuperação e ao reencontro de sentido.

Espera que o medo desapareça para então agir? Imagina que a coragem seja a ausência de insegurança, de dúvidas ou de inc...
15/07/2026

Espera que o medo desapareça para então agir? Imagina que a coragem seja a ausência de insegurança, de dúvidas ou de incertezas? A experiência humana mostra justamente o contrário: a coragem nasce quando decide caminhar apesar delas.

Parte das maiores dificuldades da vida não está apenas no mundo externo, mas nos conflitos internos. O medo do fracasso, da rejeição, da perda ou da mudança leva a repetir padrões conhecidos, mesmo quando eles produzem sofrimento. Como observou Freud (Além do Princípio do Prazer, 1920), o psiquismo tende a preservar aquilo que lhe é familiar, ainda que esse familiar seja doloroso. Muitas vezes, permanecer onde está parece menos ameaçador do que enfrentar o desconhecido.

Donald Winnicott (O Brincar e a Realidade, 1971) dizia que amadurecer não significa tornar-se invulnerável, mas ser capaz de viver de forma espontânea e criativa. Ousar é uma expressão dessa criatividade: é deixar de viver apenas para se proteger e começar a viver para existir plenamente.

Para Sêneca (Cartas a Lucílio, Epístola 104), não é a dificuldade que paralisa o ser humano; é a renúncia antecipada diante do desafio que faz os obstáculos parecerem intransponíveis. Epicteto (Enchirídion) acrescentava que não controlamos tudo o que acontece conosco, mas somos responsáveis pela maneira como respondemos aos acontecimentos. A liberdade começa quando deixamos de ser governados pelo medo.

Ousar não elimina as dificuldades. Mas transforma quem somos diante delas. Cada passo dado com consciência amplia nossa capacidade de enfrentar os desafios seguintes. A coragem não faz o caminho desaparecer; ela nos torna maiores do que o medo que tentava nos impedir de percorrê-lo.

Ousar não é ser impulsivo! Coragem não é ser imprudente! Cautela é diferente de medo!

Talvez a maior prisão não seja o fracasso, mas a vida que nunca foi vivida.

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