05/02/2021
Sobre cultura do cancelamento e a’fins’
Uma vez estava conversando com uma paciente que atendi - acho chiquerrimo iniciar citando uma experiência hahaha - e, em determinado momento, em seu relato, lembro que ela descrevia sobre um (des)encontro que teve com um rapaz que havia bloqueado nas redes sociais, em um evento público.
Lembro do relato dela, com um tom enraivecido de quem se deparou com alguém que lhe causava desprazer.
Como de costume, segui ouvindo, até o momento em que a mesma se dá conta de que o bloqueio nas redes sociais se restringia ali, somente nas redes sociais; parece bem óbvio e simplista esta realização, porém foi o que a fez se questionar sobre o porquê ela teria pensado - ou até mesmo desejado - que tal pessoa estaria bloqueada na vida, sem qualquer indício de existência.
Eu achei isso tão engraçado, não precisei dizer nada - somente apontei para ela o que ela já havia constatado, as pessoas não somem só porque as bloqueamos nas redes sociais.
Um silêncio pairou em seguida; um silêncio ensurdecedor para quem estava entrando em contato com diversas questões e elaborando-as internamente.
Terminamos ali, naquele momento, e seguimos o dia com os demais afazeres.
Sempre quando leio sobre a cultura do cancelamento, me lembro, em risada, sobre este atendimento; não uma risada desrespeitosa e que não faz jus à legitimidade do momento vivido pela paciente; mas uma risada boba que demonstra o que sempre sabemos, mas que imaginamos não saber, ou fazemos questão de não querer saber.
É tão natural queremos nos afastar daquilo que nos incomoda, que nos oferece algum tipo de desconforto, e é inclusive muito prudente que se faça este movimento de distanciamento para que possamos evitar possíveis conflitos.
Mas acredito que esteja aí a grande diferença entre o distanciamento e o cancelamento.
Lembro-me bem das aulas de Psicologia do Desenvolvimento, e dos estudos de Piaget, especificamente, neste contexto, sobre o conceito de permanência do objeto, que diz da incapacidade do bebê, durante seus primeiros anos de vida, de reconhecer a permanência de um objeto quando este deixa seu campo de visão.
Resumindo, este conceito é basicamente: “não vejo, não existe!”
Os bebês não tem recursos cognitivos para compreender que um objeto continua a existir para além do seu próprio campo de visão; e é muito natural que assim seja para eles, pois, para o bebê, o mundo é ele, uma visão bem egocentrista e natural da vida de qualquer ser humano.
Porém, ao entrar no estágio sensório-motor, por volta dos 18 a 24 meses, o bebê já consegue adquirir capacidades cognitivas representacionais que o permitem compreender, ainda que minimamente, que o objeto (ou pessoas, no caso, mãe) voltará a seu encontro, permitindo-o esperar por ele, ainda que não o possa ver.
Por que é que estou citando a Psicologia do Desenvolvimento e um caso de climão entre duas pessoas que não desejavam se ver, mas acabaram se encontrando?
Fico me perguntando se, nestes tempos atuais, perdemos a nossa capacidade cognitiva de considerar a permanência dos objetos para além de nós mesmos - pois sempre somos objetos para o outro - o que não é Eu, é objeto; já dizia Freud.
Será que a modernidade e a hiperconveniência estão nos fazendo involuir de tal forma a degenerar tecidos neurais, afetando nossas capacidades cognitivas básicas adquiridas na primeira infância? Espero muito que não!
O que acontece, porém, é uma tentativa infantilizada e até regressiva (de pensamento!) de tentarmos cancelar - levar à impermanência - aquilo que nos desagrada, e aí, com este recurso e força do pensamento (ou do block) tão poderosos, deixamos de lidar com aquilo que nos gera conflito.
A cultura do cancelamento não é uma prática saudável pois não considera o distanciamento enquanto resposta à uma ameaça de conflito; ela é, se não, um empobrecimento de nossas relações, que se deteriora com a ideia de que o que não vemos - ou escolhemos não ver - não existe.
Ainda bem (?) que isto é “só” na nossa imaginação, já pensou se realmente pudéssemos cancelar uns aos outros? Eu sei que metade da minha família já não estaria aqui hoje rs (eu sei que a sua também não estaria haha)
Talvez nem eu, nem você estaríamos aqui hoje; talvez não existiria ninguém, pois o conflito constitui a base das nossas relações.
É somente através do conflito que podemos nos lançar a outros meios, outras respostas, nos desenvolver, e crescer, ampliando nossa capacidade mental, cognitiva, relacional, humana.
Que fique claro, isto não é de maneira alguma uma romantização ou um aval para que se tolere qualquer tipo de conflito, digo aqui do conflito que possibilita mudança e transformação, fundamentais para a experiência humana; afinal foi daí que evoluímos, dos conflitos de milhares de gerações de espécies anteriores a nós, ao menos do ponto de vista científico, e que nos permite estar aqui hoje.
Assim como o block só acontece nas redes sociais, também a nossa crença de que de fato podemos cancelar alguém não se opera na realidade!
Será que perdemos a capacidade de reconhecer o outro enquanto sujeitos, assim como nós, ainda que não o sejamos? Será que esquecemos que aquele a qual tentamos cancelar também vive o sofrimento e a dor de ser deferido com palavras cruéis e boicotes sem fundamentos éticos para tal?
Será que todos viramos definitivamente objetos de descarte e cancelamento? Será que nossa capacidade cognitiva está atrofiando? Será que este é o nosso fim? Sei que este é o meu, ao menos desta reflexão; espero que não seja o nosso enquanto seres de relação; que possamos sustentar nossos conflitos sem cancelar, e nos distanciar do que percebemos nos ferir, sem que precisemos fazer uso de recursos tão primários e que só nos faziam sofrer quando não tínhamos capacidade de compreensão; mas se estamos nos lendo aqui hoje, isto diz de que temos tal capacidade; ou será que não?
diego vieira