19/05/2026
Eu atendo casal há anos e quase todo mundo que chega no consultório dizendo que “esfriou” tem falta de manutenção.
Amor de longo prazo não se sustenta só com sentimento.
Se sustenta com hábitos e atos repetidos por anos.
Meus pais entenderam isso cedo.
O casamento deles é feito de pequenos rituais mantidos por décadas, que ninguém posta em rede social porque parecem bobos demais quando descritos isoladamente.
A viagem anual só os dois é um deles. Mesmo nos anos apertados, mesmo com filho pequeno, mesmo com orçamento curto, eles davam um jeito. Porque sabem que casamento sem tempo a sós vira logística doméstica com afeto residual.
Mas o que mais me marcou é como eles se amam em linguagens diferentes sem transformar isso em queixa.
Meu pai expressa afeto com presentes. Minha mãe expressa com serviço.
Os dois falam idiomas diferentes e em vez de exigirem que o outro ame “do jeito certo”, aprenderam a receber na língua que o outro fala.
Isso é raro. Eu vejo gente todo dia querendo ser amada exatamente como ela ama, se ressentindo porque o outro “não demonstra direito”.
Não é que o outro não demonstre.
É que demonstra em outro idioma, e ninguém se deu ao trabalho de aprender.
E tem o que parece contraditório: eles fazem essas coisas todas juntos, mas não fazem tudo juntos.
Cada um tem sua vida, seus interesses, seus lugares.
É justamente por isso que o jantar deles, depois de tantos anos, ainda tem assunto.
Se eu pudesse resumir o que aprendi observando esses dois, seria isso: o amor que dura não é o que se prova em grandes gestos.
É o que se constrói em rituais pequenos, ditos em idiomas diferentes, repetidos com intenção principalmente quando ninguém está olhando.
E uma das coisas mais difíceis do meu trabalho é convencer casal de que o que eles precisam não é mais romance e sim mais AÇÃO.