25/01/2026
Fui ao cinema duas vezes esta semana, com a sensação de ter vivido duas ou mais vidas.
Assisti Valor Sentimental e Hamnet.
Cada um com sua beleza estética, à sua maneira, com roteiros distintos e atuações de tirar o fôlego.
E, entre tantas camadas, algo em comum me atravessou:
há dores que chegam como puro real
brutais, hostis, estranhas.
Não são elementos a serem “superados”,
mas urgem por elaboração lenta, com seus restos e fissuras.
Talvez a arte exista justamente aí.
Não para curar, nem negar ou compreender intelectualmente como defesa
mas para atribuir forma, ritmo, linguagem
ao que, em si, é insuportável.
Como escreve o psicanalista Nasio:
“atribuir um valor simbólico a uma dor que é em si puro real é o único gesto terapêutico que a torna suportável”.
Hamnet e Valor Sentimental não oferecem co***lo fácil.
Não por acaso, um filme se encerra no palco de um teatro e o outro no setting de uma filmagem.
A arte é esse espaço onde a dor pode circular sem precisar ser explicada,
mas pode ser transformada em experiência emocional compartilhada
(tão bioniano isso!).
Por isso a arte é tão necessária.
E é também nisso que aposta a psicanálise:
não nos salvar da dor,
mas nos permitir habitá-la juntos.
Sobre o pulso compartilhado no escuro do cinema:
ouvi choros, soluços e o meu próprio coração batendo.
Mas o que mais me impactou foram os momentos
em que a sala ficou completamente muda.
Shakespeare tem razão:
“O resto é silêncio.”