Dra Fernanda Luz - Neuropediatra

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“Ele só tem 4 anos. Não é cedo demais para falar em TDAH?”Essa é uma dúvida frequente — e faz sentido. Crianças pré-esco...
13/08/2026

“Ele só tem 4 anos. Não é cedo demais para falar em TDAH?”

Essa é uma dúvida frequente — e faz sentido. Crianças pré-escolares são naturalmente mais ativas, impulsivas e têm períodos de atenção mais curtos. Por isso, nessa idade, diagnosticar exige conhecer muito bem o desenvolvimento infantil.

TDAH pode ser diagnosticado a partir dos 4 anos. Mas não basta uma criança ser “muito agitada”, nem uma escala positiva fecha o diagnóstico.

É preciso avaliar se os sintomas são persistentes, desproporcionais ao esperado para a idade, aparecem em diferentes contextos e, principalmente, se causam prejuízo funcional significativo.

E o cuidado não termina no diagnóstico.

Entre 4 e 5 anos, as intervenções comportamentais são a primeira linha de tratamento. O trabalho com psicólogo, o treinamento parental e as estratégias aplicadas também no ambiente escolar têm papel central.

E medicação?

Pode ser indicada em situações selecionadas, especialmente quando as intervenções comportamentais não foram suficientes e permanece prejuízo moderado a grave.

O PATS (Preschool ADHD Treatment Study) mostrou que o metilfenidato pode reduzir os sintomas de TDAH em pré-escolares, mas também trouxe um dado importante: a resposta nessa faixa etária tende a ser menor do que em crianças em idade escolar, além de exigir atenção à tolerabilidade.

Por isso, aos 4 anos, a pergunta não deveria ser apenas:
“Essa criança tem TDAH?”

Precisamos também perguntar:
“Esse comportamento está além do esperado para o desenvolvimento? Qual prejuízo ele está causando? E qual intervenção essa criança realmente precisa agora?”

Diagnóstico criterioso. Intervenção comportamental. Medicação quando indicada.

O objetivo não é simplesmente deixar uma criança menos agitada. É reduzir prejuízos e favorecer seu desenvolvimento.

Na segunda-feira, 3 de agosto de 2026, o Supremo Tribunal Federal reafirmou um princípio importante: o nível de suporte,...
05/08/2026

Na segunda-feira, 3 de agosto de 2026, o Supremo Tribunal Federal reafirmou um princípio importante: o nível de suporte, isoladamente, não pode ser utilizado para restringir direitos de pessoas autistas.

O julgamento tratava da isenção de impostos na aquisição de veículos, mas a discussão ultrapassa esse benefício específico. A decisão reforça que o autismo é uma condição heterogênea e que nenhuma pessoa pode ser avaliada apenas por um número.

Na prática clínica, o nível de suporte tem uma função importante. Ele ajuda a descrever a intensidade do apoio necessário em determinado momento da vida e orienta o planejamento terapêutico.

Mas o nível de suporte não mede o sofrimento, não traduz sozinho o prejuízo funcional, não contempla todas as barreiras enfrentadas nos diferentes contextos e não representa integralmente a sobrecarga vivida pelas famílias.

Durante o julgamento, o ministro Flávio Dino relembrou uma frase ouvida de uma mãe:

“Eu não tenho o direito de morrer.”

A frase traduz a angústia de muitas famílias diante da falta de suporte e da insegurança sobre quem cuidará de seus filhos no futuro.

O nível de suporte é uma ferramenta clínica. Não é uma escala de sofrimento. Por isso, direitos precisam considerar a realidade, as necessidades e os prejuízos de cada indivíduo.

Seu filho consegue fazer sozinho? Então permita que ele tente.É natural querer ajudar. Muitas vezes, fazemos pela crianç...
03/08/2026

Seu filho consegue fazer sozinho? Então permita que ele tente.

É natural querer ajudar. Muitas vezes, fazemos pela criança porque estamos com pressa, porque queremos evitar a frustração ou simplesmente porque acreditamos que será mais fácil.

Mas, quando fazemos repetidamente aquilo que ela já é capaz de fazer, também reduzimos oportunidades importantes de aprendizagem.

Vestir a roupa, escovar os dentes, guardar os brinquedos, organizar a mochila ou comer sozinho não são apenas tarefas do dia a dia. Cada uma delas exige planejamento, atenção, memória de trabalho, controle inibitório, persistência e resolução de problemas — habilidades conhecidas como funções executivas, fundamentais para a aprendizagem e para a vida adulta.

Nas crianças com TEA, TDAH e outros transtornos do neurodesenvolvimento, o caminho pode exigir mais tempo, ensino estruturado, suporte visual e adaptações. A terapia tem um papel essencial nesse processo, mas o aprendizado precisa ser generalizado para a rotina. É em casa, na escola e na comunidade que essas habilidades se tornam funcionais.

O objetivo nunca é que a criança dependa cada vez mais do adulto.

O objetivo é ampliar sua autonomia e sua independência, respeitando seu ritmo e oferecendo apenas o suporte necessário — retirando-o gradualmente à medida que novas habilidades são adquiridas.

Nem sempre ficará perfeito.

Vai demorar mais.
Vai sujar.
Vai precisar repetir muitas vezes.

E tudo bem.

O cérebro infantil aprende fazendo.

Permitir que a criança participe das atividades do cotidiano é uma das formas mais naturais de promover o neurodesenvolvimento.

Qual tarefa você poderia deixar seu filho fazer sozinho a partir de hoje?

Do story para o feed. Nem toda mãe respondeu a minha enquete da mesma forma.Algumas falaram de bullying.Outras, da reada...
30/07/2026

Do story para o feed. Nem toda mãe respondeu a minha enquete da mesma forma.

Algumas falaram de bullying.

Outras, da readaptação à rotina.

Algumas têm medo porque seus filhos ainda não conseguem contar o que aconteceu na escola.

Outras se preocupam com a falta de informação sobre o autismo.

E uma resposta me chamou atenção.

Uma mãe disse que estava tranquila.

Não porque o filho deixou de ser autista.
Não porque as dificuldades desapareceram.
Nem porque ela não conhecia os desafios da inclusão.

Ela estava tranquila porque confiava na escola.

Porque sabia que havia um Plano de Desenvolvimento Individual (PDI) construído para seu filho. Porque percebia que existia planejamento, comunicação e um cuidado que ia além do discurso.

Isso me fez pensar.

O que tranquiliza uma família não é a promessa de uma escola perfeita.

É saber que seu filho será visto como indivíduo.

Que suas dificuldades serão compreendidas.

Que suas potencialidades também serão reconhecidas.

Um PDI bem elaborado não é um documento para cumprir uma exigência burocrática. Ele organiza objetivos, adaptações, estratégias e formas de acompanhamento. Quando construído em parceria entre escola, família e equipe de saúde, ele transforma a experiência escolar.

E talvez seja justamente isso que tantas famílias estejam procurando: não uma escola sem desafios, mas uma escola que esteja preparada para enfrentá-los junto com elas.

Porque, no fim das contas, inclusão não começa na matrícula.

Ela começa no planejamento. Quando a escola entende a criança, o coração da família também encontra um pouco de descanso 💙

A Neuropediatria é a especialidade que escolhi para aprofundar minha atuação. Mas foi a Pediatria que construiu a base d...
27/07/2026

A Neuropediatria é a especialidade que escolhi para aprofundar minha atuação. Mas foi a Pediatria que construiu a base de tudo.

Foi durante a residência em Pediatria que aprendi que cada consulta é uma oportunidade de acompanhar não apenas uma doença, mas uma criança em desenvolvimento e uma família que precisa de orientação, acolhimento e segurança.

Esse olhar continua presente em cada atendimento que realizo hoje.

Neste Dia do Pediatra, meu reconhecimento a todos os colegas que dedicam seu conhecimento e seu tempo ao cuidado da infância.

Feliz Dia do Pediatra!

Volta às aulas não é apenas uma mudança de calendário.Para muitas crianças autistas, esse período representa uma transiç...
24/07/2026

Volta às aulas não é apenas uma mudança de calendário.

Para muitas crianças autistas, esse período representa uma transição que envolve alterações simultâneas de rotina, sono, alimentação, demandas cognitivas, interação social, estímulos sensoriais e expectativas do ambiente.

Nas férias, é natural que alguns hábitos mudem. O problema não está nas férias em si, mas em uma mudança muito abrupta entre um contexto de baixa previsibilidade e outro repleto de exigências.

A rigidez cognitiva, as diferenças no processamento sensorial e a necessidade de previsibilidade tornam essa adaptação mais trabalhosa para muitas crianças.

Por isso, alguns dias antes do retorno às aulas, vale a pena começar a reorganizar a rotina de forma gradual:

• ajustar o horário de dormir e acordar;
• reduzir progressivamente o tempo de telas;
• retomar horários das refeições;
• reintroduzir atividades que exijam atenção e leitura;
• organizar uniforme, mochila e materiais;
• conversar sobre a volta à escola e antecipar o que irá acontecer.

Esses pequenos ajustes não eliminam os desafios, mas reduzem o contraste entre as férias e a rotina escolar, diminuindo a carga de adaptação e favorecendo uma transição mais tranquila.

Cada criança terá um ritmo diferente. O objetivo não é fazer tudo perfeitamente, mas oferecer previsibilidade, segurança e suporte durante esse processo.

💬 Como costuma ser a volta às aulas na sua casa?

Quem me acompanha por aqui sabe que minha rotina vai muito além do consultório. Ela também é feita de maternidade, ensin...
17/07/2026

Quem me acompanha por aqui sabe que minha rotina vai muito além do consultório. Ela também é feita de maternidade, ensino, estudo e muitos desafios diários.

Agora é hora de desacelerar por alguns dias.

Entre 17 e 27 de julho, estaremos em recesso coletivo para descansar e renovar as energias.

Volto em breve, pronta para continuar cuidando das crianças e adolescentes que acompanho com o mesmo compromisso de sempre.

Obrigada pela confiança e pela compreensão.

Quando pensamos em TDAH, geralmente enxergamos apenas a ponta do iceberg.Desatenção, hiperatividade e impulsividade são ...
13/07/2026

Quando pensamos em TDAH, geralmente enxergamos apenas a ponta do iceberg.

Desatenção, hiperatividade e impulsividade são as características que mais chamam atenção. Mas, para muitas crianças, essa não é toda a história.

Ansiedade, Transtorno Opositivo Desafiante (TOD), transtornos específicos da aprendizagem, distúrbios do sono, transtornos de tiques e Transtorno do Espectro Autista (TEA) estão entre as comorbidades mais frequentes e podem modificar significativamente a apresentação clínica.

Essas condições podem ampliar o impacto funcional, interferir no desempenho escolar, nas relações familiares, na regulação emocional e até na resposta ao tratamento. Por isso, identificar as comorbidades não significa “dar mais diagnósticos”, mas compreender melhor a criança e oferecer intervenções mais direcionadas.

É justamente por isso que uma avaliação neuropediátrica não se limita a confirmar ou descartar TDAH. O objetivo é entender quais dificuldades pertencem ao transtorno e quais podem indicar condições associadas que também precisam de atenção.

O TDAH é a ponta do iceberg, não porque seja menos importante, mas porque seus sintomas costumam ser os primeiros a chamar atenção. Abaixo da superfície, podem existir outras condições que influenciam o desenvolvimento, o comportamento e o tratamento.

Olhar apenas para a ponta pode aliviar alguns sintomas. Olhar para todo o iceberg pode mudar o diagnóstico, o prognóstico e, principalmente, a qualidade de vida da criança e de sua família.

Quando a escola diz que uma atividade está “adaptada”, a pergunta principal precisa ser: adaptada para qual barreira?Ada...
06/07/2026

Quando a escola diz que uma atividade está “adaptada”, a pergunta principal precisa ser: adaptada para qual barreira?

Adaptação escolar não deve ser uma mudança genérica na folha. Reduzir questões, aumentar a fonte, colocar figuras, simplificar enunciados ou trocar a forma de resposta pode ajudar em alguns casos. Em outros, pode não tocar na dificuldade central do aluno.

Para adaptar com critério, é preciso compreender o perfil funcional da criança: linguagem, leitura, escrita, compreensão, atenção, funções executivas, processamento sensorial, autorregulação, repertório acadêmico, comunicação e autonomia.

A adaptação precisa ter motivo, objetivo e acompanhamento.

Motivo: qual barreira está impedindo o acesso?
Objetivo: qual habilidade a escola quer ensinar ou avaliar?
Acompanhamento: a estratégia realmente aumentou participação, compreensão e aprendizagem?

Uma atividade pode parecer adaptada e ainda assim continuar inacessível.

Se o aluno tem dificuldade de compreensão, apenas reduzir o número de questões pode não resolver.
Se tem dificuldade de escrita, copiar menos pode ajudar, mas talvez ele precise de resposta oral, apoio visual, teclado ou mediação.
Se tem dificuldade de planejamento, uma atividade menor ainda pode ser impossível sem instruções em etapas.

Adaptação bem feita não é “facilitar por facilitar”. É remover a barreira certa para que o aluno consiga acessar o objetivo pedagógico.

Inclusão exige avaliação individualizada. Sem isso, a adaptação vira aparência de acesso — e o aluno continua do lado de fora da aprendizagem.

Endereço

Avenida Francisco Sales, 1017 Sala 1001
Belo Horizonte, MG
30150223

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