26/07/2026
Ninguém chega inteira aos 52 anos, chega mais verdadeira.
Por muito tempo, tentei ser a mesma pessoa em todos os lugares, mas hoje sei que essa nunca foi uma meta possível, e talvez nem fosse desejável.
O tempo foi cuidando do resto, quase sem eu perceber. Fui ficando mais seletiva com o que escuto, mais generosa com o que siento, mais honesta sobre o que já não me serve. E foi assim, devagar, que a discrição deixou de parecer timidez e virou escolha, que a sensibilidade deixou de parecer fraqueza e virou a lente pela qual eu enxergo o mundo.
Acho que boa parte disso vem da minha história. Cresci filha de professores, aprendi desde cedo que o conhecimento era a única herança que ninguém poderia tirar de mim. Éramos quatro irmãs dividindo sonho e quarto pequeno, no interior de Minas.
Foi carregando um sonho de palco que saí de casa para explorar o mundo. Cantei em coral, dei voz a melodias antes de dar voz a teorias, e por um bom tempo achei que minha vida seria sobre cantar para os outros. Só depois entendi que era sobre escutar, apoiar e desenvolver pessoas. A arte não ficou pelo caminho quando escolhi a psicologia, ela apenas se transformou em outra linguagem. Virou um recurso para apoiar pessoas a se reencontrarem através das mãos, do olhar, do sentir, da cor, do gesto.
E mesmo construindo uma carreira com dedicação, estudo e cuidado, demorei para entender uma coisa simples: cuidar da saúde mental pede a mesma dedicação que qualquer coisa importante na vida pede. Que parar, às vezes, é o gesto mais inteligente que se pode fazer, mesmo quando tudo em volta diz para continuar.
Aprendi também que talvez a gente nunca se sinta inteira porque a vida é isso, um convite constante para experimentar, errar e refazer. E o que vamos deixando pelo caminho não desaparece, ele se transforma no que somos hoje.
Se alguma dessas palavras encontrou eco em você, compartilhe com alguém que está experimentando outras 'composições de si'. - Luciene Rochael
Fotografia: Tarsila Rochael e Fernando Reis