01/07/2026
Nunca foi tão difícil escolher… não porque faltam opções, mas porque elas parecem infinitas. Seja escolher uma profissão, uma pessoa para se relacionar, uma cidade para morar, uma forma de trabalho, uma série para assistir, um objeto para comprar... Pois para cada escolha, existem milhares de outras possibilidades que precisam ser deixadas para trás, isto é, implica em suportar perder alguma coisa. Infelizmente o mundo de hoje tolera cada vez menos a perda. Estamos na época dos métodos, dos especialistas, dos tutoriais, dos "passos certos". Isso acaba vendendo uma ilusão de que existe uma escolha ideal, um caminho perfeito ou uma trajetória sem erros e equívocos. E aí se torna ainda mais difícil escolher, porque muitas vezes as pessoas querem a GARANTIA de que aquela é a escolha "certa".
Mas não existe um caminho sem pedras. Já dizia Carlos Drummond de Andrade: tinha uma pedra no meio do caminho e no meio do caminho tinha uma pedra. Toda escolha, por menor que seja, encontrará momentos de dúvida, de frustração, de desencontro, de falta, de perda. O que não significa que foi a escolha “errada"... mas significa que na vida existem atravessamentos da realidade. Muitas pessoas não suportam bem isso e, ao encontrarem a primeira pedra, já querem mudar de caminho. Já antecipam que escolheram o caminho errado e que precisam buscar esse outro caminho onde não haverá nenhuma pedra, fixados nessa fantasia ilusória de plenitude e de completude.
A psicanálise acrescenta ainda uma outra dimensão nessa questão: nem todas as pedras que encontramos são obras do acaso. Muitas delas têm relação com nossa própria forma singular de funcionar, de desejar, de g***r, de nos defender… produzindo padrões de repetição. E muitas vezes acham que estão mudando de caminho, mas encontram os mesmos tipos de pedras nele. Ou seja, muda de trabalho, de parceiro(a), de projeto e acaba encontrando obstáculos muito familiares. O cenário muda, mas a repetição permanece.
A questão não é encontrar o caminho sem pedras… mas aprender a suportar que elas vão existir e são inevitáveis e, numa outra direção, reconhecer essas pedras que poderiam não existir mas que você mesmo coloca lá sem perceber.