09/08/2026
Hoje é Dia dos Pais.
E escrevo essa carta para agradecê-lo.
Meu pai me deu um lugar de igual.
Nem acima, nem abaixo. Igual.
Parece simples, mas talvez essa tenha sido uma das maiores coisas que ele poderia ter me dado.
Ele nunca me ensinou que eu precisava ser menos porque era mulher. Nunca me colocou num lugar de inferioridade. Ao contrário, me permitia discordar, questionar, argumentar, apontar, confrontar. Podíamos ter embates. Podíamos pensar diferente. Eu podia estar diante dele e sustentar aquilo em que acreditava.
E ele continuava me olhando como igual.
Hoje compreendo a dimensão disso.
Ele me ensinou que ocupar um lugar no mundo não significa ocupar um lugar maior do que o outro, mas também não aceitar um lugar menor.
Que todos temos direitos, deveres, limites, desejos e responsabilidades. Que ninguém precisa ser mais para que o outro possa existir. E que ninguém precisa ser menos para que o outro se sinta grande.
Foi assim que meu pai me preparou para a vida.
Ele foi embora cedo demais, mas deixou em mim uma espécie de chão. Um chão que eu não sabia que carregaria por tantos anos.
Talvez seja por isso que, mesmo diante das dificuldades, eu tenha aprendido a me posicionar. A escolher. A sustentar minhas decisões. A enfrentar o mundo sem acreditar que eu precisasse pedir autorização para ocupar o meu lugar.
Construí minha vida a partir desse lugar que ele me deu.
Construí minha casa, minha profissão, minha família, meus três filhos. Construí também minhas quedas, meus recomeços, minhas lutas e tudo aquilo que ainda estou aprendendo a construir.
E, olhando para trás, percebo que há muito dele em tudo isso.
Não porque ele tenha me ensinado a ser forte o tempo inteiro.
Mas porque me ensinou que eu podia ser.
Podia ser quem eu fosse.
Podia pensar.
Podia discordar.
Podia escolher.
Podia ir.
E talvez amar alguém seja também isso: deixar no outro uma liberdade tão profunda que, mesmo depois da partida, ele continue caminhando.
Hoje eu não quero falar apenas da saudade.
Quero falar da gratidão.
Obrigada, pai, por ter me dado esse lugar.
O lugar de igual.
Nem mais.
Nem menos.
Ao lado.
E foi desse lugar que eu aprendi a caminhar pelo mundo.