Psicanálise em Prosa e Verso

Psicanálise em Prosa e Verso DANIELLA SALGADO, psicanalista. "Felicidade como algo individual". Daniella Salgado, psicanalista, professora e enfermeira.

A necropolítica começa quando algumas vidas passam a valer menos do que outras. No Brasil, essa lógica remonta à escravi...
03/07/2026

A necropolítica começa quando algumas vidas passam a valer menos do que outras. No Brasil, essa lógica remonta à escravidão, que reduziu pessoas negras à condição de mercadoria e cujos efeitos ainda persistem no racismo estrutural e nas profundas desigualdades sociais. A história mostra que projetos autoritários se sustentam pela desumanização. O nazismo levou essa lógica ao genocídio. A ditadura militar brasileira recorreu à tortura, aos assassinatos e aos desaparecimentos para eliminar opositores. São contextos distintos, mas que revelam o perigo de um poder que escolhe quem merece proteção e quem pode ser descartado. É por isso que considero trágica a possibilidade de um novo governo alinhado ao bolsonarismo. A idelogia defendida por Bolsonaro sobre quilombolas, pessoas negras, mulheres e minorias não foram apenas polêmicas; contribuíram, para naturalizar a discriminação e a violência como linguagem política. Bolsonaro filho representa a continuidade desse projeto, sua eleição seria desastroso para o Brasil. Um país que ainda carrega as marcas da escravidão e da ditadura precisa fortalecer a democracia, ampliar direitos e reafirmar que nenhuma vida vale menos do que outra. E mesmo que você ache tudo isso “mimimi“ ou odeie o Lula, saiba, que esse Flávio é um traidor da pátria e pode "quebrar" sua empresa, tá? Ele já enviou "cartinha" pro "padrinho americano" pedindo adiamento das taxas pra daqui 6 meses. Ah! E para a turminha "pobre-de-direita": sem empresa, não tem emprego também não, tá? E viva meu direito ao voto, independente do meu marido!!! 🙌🏻

Junho: Lalíngua, corpo e a "coisinha tão bonitinha do pai"Junho foi um mês em que a teoria encontrou a vida. Entre a lei...
30/06/2026

Junho: Lalíngua, corpo e a "coisinha tão bonitinha do pai"

Junho foi um mês em que a teoria encontrou a vida. Entre a leitura de A Terceira e as discussões dos cartéis: Lalíngua e O Corpo, algumas formulações de Lacan deixaram de ser apenas conceitos para se tornarem experiência. Algo, para além da imagem, ganhou espessura, encontrando ressonâncias muito além das páginas do livro.
No meio desse percurso, tiveram as aulas no Pluralidades (amo!), o fim do semestre do Núcleo da criança do IPSMMG (conheci pessoas incríveis!) as leituras, os ensaios de escritas, a montagem de uma aula para ministrar (tá saindo!) e o trabalho cotidiano na educação pública — tentando diálogo com a rede, com resiliência, desejo e esperança. Teve Lalíngua reaparecendo onde sempre esteve: na memória. A visita ao meu pai fez retornar algo que nenhuma teoria poderia produzir sozinha. Na voz de Beth Carvalho, na lembrança da música "Coisinha do Pai", emergiu uma lalíngua singular — aquela feita de afeto, ritmo, voz e infância. Não apenas uma canção, mas um modo de habitar a linguagem antes mesmo de compreendê-la. Meu pai, sua voz, a música e eu: uma lembrança em que o saber cedeu lugar ao vivido.
Entre um compromisso e outro, um abraço numa colega que brilha e os lindos encontros com esse companheiro que se faz presente mesmo estando sempre presente. Há também o convívio com esse filho maravilhoso e a festa junina... Que delícia!
Ah! A vida e esse estado de
paixão pelo viver e a angústia diante do que ainda escapa. A insegurança que ainda insiste, mas que caminha junto com o desejo de seguir seguindo... Teve começo da Copa, expectativa, medo, torcida, esperança, lembrança de como é bom ser brasileiro e não decistir nunca! Teve: ir para as oitavas de final, uhuuuu!
Junho termina então, como um mês de travessia. Entre livros e encontros, entre o trabalho e o estudo, entre a teoria e a memória, o amor e a festa, fui encontrando um pouco mais desse corpo atravessado pela linguagem. Ainda sem todas as respostas. Ainda insegura. Mas sustentada por algo que insiste: o desejo de continuar.

O lançamento de "A voz que não sai" foi mais do que a apresentação de um livro: constituiu-se como um momento de transmi...
21/06/2026

O lançamento de "A voz que não sai" foi mais do que a apresentação de um livro: constituiu-se como um momento de transmissão. Ao narrar a trajetória que inspirou sua escrita — marcada por uma vida simples, por provações, silêncios, inibições e também por valores que a sustentaram — a autora transformou a palavra em testemunho.
Sua fala emocionou porque não se limitou a contar uma história; ela fez existir algo da ordem da elaboração. O que antes poderia permanecer como silêncio encontrou um destino na escrita e na partilha. Havia, na palestra, algo que lembrava um 'passe': não no sentido institucional, mas como passagem subjetiva, em que uma experiência singular se converte em saber transmissível, capaz de tocar os outros.
Ao final, ficou a impressão de que o livro não fala apenas da voz que não sai, mas também da voz que, depois de um longo percurso, encontra seu lugar. E talvez seja justamente isso que torna esse lançamento tão peculiar: a celebração de uma conquista que é, ao mesmo tempo, literária, ética e profundamente humana. ❤️

História, escola e pertencimentoA escola não é apenas um lugar de transmissão de conhecimentos; ela também é um espaço o...
15/06/2026

História, escola e pertencimento

A escola não é apenas um lugar de transmissão de conhecimentos; ela também é um espaço onde cada sujeito escreve parte de sua história. É no encontro com os outros — colegas, professores, funcionários e saberes — que a criança e o adolescente podem encontrar marcas simbólicas que os ajudam a construir um lugar para si no mundo.
Estar aqui hoje como profissional da rede foi muito emocionante - escola da minha vida! Muitas reminiscências. ❤️

E veio maio — mês de renascimento.Maio chegou como um tempo de travessia: trazendo algo do alívio, de cura e dessa possi...
31/05/2026

E veio maio — mês de renascimento.

Maio chegou como um tempo de travessia: trazendo algo do alívio, de cura e dessa possibilidade sempre incompleta de reinventar a própria existência. Como toda boa nova, veio atravessado de planos, projetos e desejos que insistem em nascer, mesmo em meio a tanta pirraça — que persiste!
Houve sonhos de asa — desses que nos fazem ensaiar voos mais altos — medos clichês que retornam como sintomas antigos e encontros inenarráveis! Teve família, amigos, projetos, brincadeiras com IA e também a inserção do "dolce far niente" como parte da vida. Em meio a dietas e exercícios, teve trabalho e estudos nas minhas muitas escolas — por que se o "não" eu já tenho, o momento é de tentar algo diferente: pedir, por exemplo — e ando colecionando "sins"!
Enfim, maio veio como quem recoloca em circulação aquilo que parecia adormecido: aqueles desejos de outrora, outros laços e uma esperança possível. Entre faltas, restos e reinvenções, foi um mês de renascimento, atos, dias, minutos... E o aproveitar a vida em seus detalhes mais simples e significativos.

O Filho de Mil Homens não conta apenas a história de sujeitos solitários; ele escancara o modo como o laço social produz...
30/05/2026

O Filho de Mil Homens não conta apenas a história de sujeitos solitários; ele escancara o modo como o laço social produz restos. Restos humanos. Corpos que não se encaixam no ideal normativo da comunidade e que, exatamente por isso, passam a existir como excesso, vergonha ou ameaça. Em uma leitura psicanalítica, talvez a grande questão do filme seja: o que uma sociedade faz com aqueles que não sustentam a fantasia de normalidade? A vila, aparentemente simples e cotidiana, funciona como um grande Outro regulador: vigia os corpos, determina os modos legítimos de amar, de desejar, de maternar, de existir. A mulher é constantemente atravessada pelo julgamento moral; seu corpo não lhe pertence completamente, mas ao olhar coletivo que a mede, acusa e reduz. A feminilidade aparece marcada pela culpa e pela submissão simbólica, como se o desejo feminino precisasse sempre ser domesticado para caber no discurso social. Ao mesmo tempo, a homossexualidade surge não apenas como diferença, mas como signo de exclusão. O sujeito homossexual é colocado à margem porque encarna aquilo que desmonta a lógica fálica normativa da comunidade. O amor, então, deixa de ser experiência afetiva e passa a ser território político: quem pode amar sem punição? Quem pode desejar sem ser transformado em abjeto? É impossível não pensar, com Jacques Lacan, na violência produzida pelo significante. Os personagens não sofrem apenas pelos acontecimentos traumáticos, mas pelo nome que recebem do Outro: “anormal”, “pecadora”, “desviada”, “sozinha”, “sem valor”. O trauma não é somente o evento; é também a inscrição simbólica que fixa o sujeito em um lugar de falta degradada. A comunidade produz feridas porque transforma diferenças em condenações identitárias. Mas há algo profundamente subversivo no filme: os personagens marginalizados começam a construir uma espécie de família pela via da falta compartilhada. Não se unem pela completude, mas pelo desamparo. E talvez seja justamente aí que a obra toque algo radical da psicanálise: não há sujeito inteiro. Toda tentativa social de fabricar normalidades produz violência, segregação e sofrimento. O humano nasce rachado, faltante, desejante. (cont.)

O Corpo, IA e o discurso capitalistaNa contemporaneidade, o corpo deixou de ser apenas lugar da experiência para tornar-...
29/05/2026

O Corpo, IA e o discurso capitalista

Na contemporaneidade, o corpo deixou de ser apenas lugar da experiência para tornar-se também superfície de gestão, exposição e consumo. Em Jacques Lacan, o corpo não se reduz ao organismo biológico: ele é atravessado pela linguagem, marcado pelo desejo e pelos significantes do Outro. O sujeito não “tem” simplesmente um corpo; ele precisa constantemente fazer algo com esse corpo, sustentá-lo imaginariamente, simbolizá-lo e, muitas vezes, remendá-lo diante do real que insiste.
Nesse cenário, a ascensão da Inteligência Artificial, das redes sociais e das tecnologias de imagem radicaliza a relação narcísica com a própria aparência. O corpo contemporâneo é convocado à performance, à otimização e à visibilidade permanente. Filtros, algoritmos e métricas produzem novos ideais estéticos, frequentemente inatingíveis, alimentando uma lógica de comparação contínua e de insatisfação estrutural. O olhar do Outro, antes localizado em espaços específicos, torna-se ubíquo e automatizado.
Para Lacan, o discurso capitalista opera justamente promovendo uma promessa de completude: haveria sempre um objeto capaz de preencher a falta — um procedimento, uma dieta, uma imagem perfeita, um corpo sem marcas. Entretanto, quanto mais o sujeito consome tais objetos, mais a falta retorna. O corpo transforma-se, então, em mercadoria e vitrine, capturado entre o gozo e a exigência de produtividade. Reconhecer isso já é meio caminho andado...

Abril Tudo começou sereno e doce feito-caramelo, meio normal, assim, como-quem-não-quer-nada, bem ao estilo "Clarice": c...
30/04/2026

Abril
Tudo começou sereno e doce feito-caramelo, meio normal, assim, como-quem-não-quer-nada, bem ao estilo "Clarice": cheios de "Instantes-já" e "Apesar-de", teve angústias, prazos, trabalhos, tarefas e, parafraseando Tânia Mara: "muita pirraça"; mas também houve festas, dança, encontros, psicanálise, cursos e amor, muito amor! De repente, o Real irrompe sem aviso e diante dele, não há saber que dê conta por inteiro, nem palavra que o esgote. É justamente aí que o laço se revela surpreendente e essencial: ele não elimina o impossível, mas o contorna, o sustenta e o torna habitável.
Abril foi, para mim, um tempo em que esse entrelaçamento se fez evidente. Um mês de aberturas e viradas de chave, como se algo tivesse sido deslocado no modo de estar no mundo. E talvez seja isso: quando a mortalidade e a vulnerabilidade se impõe com toda a sua força contigencial, é no laço que encontramos um porto seguro — Ah o laço! Esse fio invisível que não apaga o Real, mas nos impede de cair sozinhos diante dele. ..
À todos, o meu muito obrigada, sem vocês eu nem sei, eu nem sou.

Uma vida em um mêsMarço chegou empolgado! De manhã: Mineiridades! À tarde: Dengos e cafunés! Fins de semana em família, ...
01/04/2026

Uma vida em um mês

Março chegou empolgado! De manhã: Mineiridades! À tarde: Dengos e cafunés! Fins de semana em família, ademais, cheio de estreias, cursos, planejamentos, inscrição feita: "vamos fazer barulho!" A agenda tava cheia e ainda tinha a expectativa se nosso molho iria voltar de Oscar na mão ou não. Teve até festinha, fezinha, mas, não levamos. De toda forma, me emocionei onde eu nem esperava: Harry & Sally, ownmm!... Então veio uma notícia ruim e dê repente o mês ficou sério, impossível e Real. Coração apertado, entre uma rotina e outra, apreensão, entre um atendimento e outro, uma memória, entre uma fala e uma escuta, a vida foi sendo vida também na parte mais dura, lembrando sobre sua finitute e de como doi essa impotência, esse perder, esse ir... As palavras somem. (Só se escuta o respiro ao redor). Entre um fôlego e outro, teve: encontros, painéis bonitos , um lanche, um projeto, uma acolhida, uma mensagem, um livro, um abraço, muitos sonhos, o luto e o último dia marcado pelo encontro, pela inclusão, acolhimento onde falei sobre os "barulhos da língua", ironicamente terminando o mês com a mesma temática do início.

Chegando no lugar preferido do meu filho! ❤️  🌻
12/03/2026

Chegando no lugar preferido do meu filho! ❤️ 🌻

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