02/03/2026
“Se eu saio de casa, ele não se sente seguro. Só f**a bem comigo.”
Como psiquiatra, ouço essa frase quase todos os dias na Clínica. E junto com ela, vem um misto de exaustão, culpa e a sensação de estar perdendo a própria liberdade.
Se você é cuidador(a) de um familiar com Alzheimer ou outra demência, eu preciso te dizer algo importante: você não está fazendo nada de errado, e ele não está fazendo isso para te manipular.
Imagine acordar em um país estrangeiro, onde você não reconhece as ruas, não entende o que as pessoas falam e não lembra como chegou ali. Desesperador, não é? É exatamente assim que o cérebro com demência se sente quando a doença avança. A desorientação espacial e a perda de memória recente transformam a própria casa em um ambiente desconhecido.
Nesse cenário de caos interno, VOCÊ é a única certeza.
Você representa a orientação, a segurança, a confiança e a memória que o cérebro dele não consegue mais acessar. Você é o farol no meio da neblina. Quando você sai do campo de visão, o instinto de sobrevivência dispara, gerando uma ansiedade profunda. Na psiquiatria, chamamos isso de comportamento de shadowing (sombreamento).
Entender que esse apego excessivo é fruto do medo — e não de teimosia — muda a forma como lidamos com a situação. É cansativo? Muito. Mas compreender a raiz do problema nos ajuda a ter mais paciência e a buscar estratégias (como as que deixei no carrossel) para amenizar essa angústia, tanto a dele quanto a sua.
Lembre-se: para cuidar bem do outro, você também precisa de momentos de respiro. Aceite ajuda de outros familiares ou profissionais.
👇 Me conte aqui nos comentários: você já passou por essa situação de não conseguir sair de perto do seu familiar? Como você costuma lidar?
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