25/08/2020
Acho graça de um dito do senso-comum: o de que o que interessa à psicanálise é o passado. ⠀
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Parece-me que o interesse da psicanálise é, justamente, por aquilo que não passou e que, aliado a algum ideal associado ao futuro, nos faz padecer - sem perder alguma esperança.⠀
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Sofremos de vestígios vivos de passados que, ao invés de passarem, se entranham silenciosamente em nós, nos arrastando a algum desejo para o futuro.⠀
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Frequentemente, um sintoma é consequência de uma negação do eu em transformar um acontecimento em palavras - na tentativa de tornar o evento, agora, menor. ⠀
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Sem palavras, os passados não passam, eles cravam suas unhas na carne humana e tornam-se palavras inflamadas, palavras que não vieram à tona, que não foram ditas e muitas vezes sequer foram pensadas. Sem palavras, o futuro é a repetição cada vez mais bem sucedida de um passado que não cessa de não passar. ⠀
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Sofremos porque algo do passado-ficado-futuro-ido não cansa de se alojar no presente, invadindo-o.
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Assim, a psicanálise jamais trata do passado - pois não se pode retornar ao ontem, assim como não se pode analisar um sonho, mas apenas o relato de um sonho. Quem conta um conto, o faz no presente.
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À psicanálise interessa que haja um movimento entre o passado e o presente, entre o dentro e o fora, entre a alegria e a dor. Tudo isso considerando um tempo outro: futuro?
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Assistindo Dark, e aviso que estou ainda terminando a primeira temporada e que não gosto de spoilers, encontro com um dito que se repete: não só o passado altera o futuro, mas o futuro altera o passado. Uma análise, então, talvez seja uma forma de inventar um presente, passível de ser modificado a cada instante. Uma análise, talvez, seja um corte nessa nesses ires e vires entre passado e futuro, que diminuem cada vez mais os impactos do presente, em busca de um presente ideal. ⠀
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(Em tempo: este texto é uma reciclagem atualizada de um texto escrito em 2018 , tempo este que eu obviamente não tinha visto Dark. Volto, quem sabe, no futuro, a reescrevê-lo, ou a escrever outra coisa. Me atrevo a escrever sobre Dark, mesmo estando ainda na primeira temporada, para arriscar nesse tempo presente- que-é-o-que-importa).