21/02/2026
No Brasil, a violência contra mulheres segue em níveis alarmantes.
Em 2025, foram registrados 1.470 feminicídios — uma média de quatro mulheres mortas por dia.
Não são números. São histórias interrompidas dentro de relações marcadas por medo, controle e desigualdade de poder.
A violência não começa no ato extremo.
Ela nasce antes: na ameaça, na intimidação, no silenciamento, na sensação constante de perigo dentro do próprio vínculo.
Na clínica psicológica, é possível observar que muitos homens foram socializados em uma lógica na qual expressar dor, medo ou tristeza é visto como fraqueza.
“Homem não chora” não é apenas uma frase.
É uma interdição emocional que limita a capacidade de elaborar frustrações, perdas e rejeições.
Mas as emoções não desaparecem quando são negadas.
Elas se deslocam.
Se acumulam.
E, quando não encontram palavras, podem encontrar o ato.
Existe, em parte do universo masculino, uma dificuldade maior em lidar com a frustração e com a perda de lugares de poder.
Em alguns casos, a família e o relacionamento tornam-se o único espaço onde esse poder pode ser exercido.
Por isso, nem sempre o controle é amor.
Muitas vezes, é tentativa de preservar uma posição que sustenta a própria identidade.
Quando o término de um relacionamento é vivido como ameaça narcísica, e não como experiência de dor que pode ser elaborada, o risco de respostas desproporcionais aumenta.
A violência surge, então, como tentativa de restaurar o controle sobre aquilo que foi perdido.
Nem toda masculinidade é violenta.
Mas toda masculinidade precisa aprender a lidar com limites, perdas e frustrações.
Fazer terapia não é sinal de fraqueza.
É um ato de responsabilidade.
Responsabilidade pelo próprio sofrimento e pelo impacto que ele pode ter sobre o outro.
Homens que aprendem a reconhecer seus afetos, nomear suas dores e sustentar conflitos sem violência ampliam a possibilidade de relações mais seguras, respeitosas e maduras.
A construção de uma masculinidade emocionalmente responsável é urgente.
Porque cuidar de si é também uma forma de cuidar do outro.
E elaborar a dor é o que impede que ela se transforme em destruição.