02/08/2026
O que um tarólogo faz quando não está lendo para ninguém?
Existe um pequeno Tarô que mora dentro de uma latinha de metal e quase sempre está na minha bolsa. Não me lembro exatamente quando ele começou a me acompanhar; apenas percebi, um dia, que já havia atravessado comigo por parques, esperado em salas de consultas médicas, dividido o silêncio de algumas cafeterias e encontrado lugar em muitos domingos. Sem que eu tivesse a intenção de transformá-lo em um ritual, ele acabou se tornando uma espécie de companheiro de caminho.
Durante a semana, minhas cartas se abrem para as histórias de quem me procura. Escuto perguntas, acompanho desafios, observo símbolos que, pouco a pouco, encontram lugar na vida de outras pessoas. É um movimento inteiramente voltado para fora, para esse espaço delicado onde alguém deposita sua confiança e me permite caminhar, ainda que por um breve trecho, ao lado de sua história.
O domingo, porém, muda a direção desse movimento.
Quando encontro uma cafeteria tranquila, escolho uma mesa perto da janela, peço um chá e só então abro a pequena latinha. Há algo nesse gesto que não tem a ver com pressa nem com método. É apenas a forma que encontrei de devolver a mim mesma a mesma escuta que ofereço durante toda a semana.
Todos os domingos tiro uma única carta e é ela quem inaugura a conversa.
Ao longo dos dias que se seguem, volto muitas vezes àquela imagem para perceber como aquele símbolo encontra formas de se manifestar no cotidiano. Às vezes ele aparece numa conversa aparentemente comum. Outras vezes surge numa pergunta que insiste em permanecer aberta. Descobri, com o tempo, que estudar um Arcano é muito menos decorar seus significados do que aprender a conviver com ele até que sua linguagem comece a transformar a nossa maneira de olhar.
A carta que me acompanhará nesta semana é **A Estrela**.
Antes de procurar qualquer interpretação, gostaria de lhes propor um exercício que faço comigo mesma todos os domingos: observem a imagem por alguns instantes, em silêncio, e deixem que ela fale antes dos seus pensamentos.
Tenho curiosidade em saber: o que, na Estrela, chamou primeiro o olhar de vocês?