04/09/2026
Quando até o descanso precisa ser produtivo
Vivemos em uma época marcada pelo excesso. Excesso de informações, estímulos, tarefas, notificações, escolhas e, sobretudo, pela exigência de estarmos sempre fazendo alguma coisa.
Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, chama atenção para essa lógica contemporânea em que o sujeito já não precisa de alguém dizendo “você deve”. Ele próprio passa a se cobrar: “eu posso”, “eu consigo”, “preciso fazer mais”, “preciso melhorar”.
A produtividade, que inicialmente parece liberdade, pode se transformar em uma forma silenciosa de cobrança.
E então descansar começa a produzir culpa.
Parar parece desperdício.
Não responder imediatamente parece inadequado.
Ficar em silêncio parece estranho.
E até o tempo livre precisa ter alguma finalidade.
Vivemos conectados a tantas coisas que, muitas vezes, já não conseguimos permanecer inteiros em nenhuma delas. A atenção se fragmenta, a multitarefa vira virtude e o sujeito passa a viver em permanente estado de disponibilidade.
Mas talvez exista uma pergunta importante por trás desse cansaço:
O que acontece quando eu paro?
Porque talvez não seja apenas o excesso de trabalho que nos canse. Talvez também nos canse a impossibilidade de simplesmente não produzir, não responder, não performar e não precisar ser alguma coisa o tempo todo.
Na clínica, pensar sobre isso é também questionar: quanto do nosso sofrimento é vivido como uma falha individual quando, na verdade, estamos tentando existir dentro de uma lógica que exige cada vez mais de nós?
Talvez recuperar a capacidade de parar seja também recuperar a capacidade de estar consigo.
Nem todo tempo precisa ser útil.
Nem todo silêncio precisa ser preenchido.
Nem todo descanso precisa preparar você para produzir novamente.
Às vezes, descansar é simplesmente… descansar.
— Reflexões a partir de Byung-Chul Han, Sociedade do Cansaço.