17/04/2026
Entre o Jaleco, o Julgamento e a Inveja
Há profissões que passam pela vida social como sombras discretas. Outras, porém, entram em cena como personagens trágicos — e, não raro, caricatos. O médico pertence a esta última categoria: ora elevado à condição de oráculo, ora reduzido à figura de suspeito habitual. É amado com fervor quase religioso e odiado com igual intensidade. Uma dualidade que diz menos sobre o médico e mais sobre a natureza profundamente contraditória de quem o observa.
O médico é, antes de tudo, depositário de expectativas impossíveis. Espera-se dele precisão de máquina, compaixão de santo, disponibilidade de servo e resistência de aço. Deve saber tudo, errar nunca e, de preferência, fazê-lo com um sorriso tranquilo e uma pontualidade quase mítica — ainda que a realidade lhe ofereça corredores lotados, sistemas falhos e um cansaço que não cabe em prontuário.
Quando acerta, cumpriu apenas sua obrigação.
Quando falha, revela-se — aos olhos de muitos — não humano, mas culpado.
Mas há um ingrediente menos confessado nessa equação: a inveja.
Inveja do jaleco que, aos olhos de fora, parece conferir autoridade imediata.
Inveja do suposto status — esse lugar simbólico onde o médico é visto como alguém “que venceu”.
Inveja da ideia (nem sempre real, mas persistentemente imaginada) de uma renda confortável, de uma vida estável, de uma posição social distinta.
E, talvez mais profundamente, inveja do papel de herói — essa fantasia coletiva de poder salvar, decidir, intervir no destino.
É curioso: a mesma sociedade que romantiza o médico como figura quase épica, também o observa com um olhar enviesado, como quem suspeita de privilégios indevidos. Admira-se o brilho, mas questiona-se o preço; reverencia-se o símbolo, mas desconfia-se do homem.
E então, quando algo falha, a inveja encontra terreno fértil para se transformar em julgamento.
O médico, que já carregava o peso das expectativas, passa a carregar também o peso das projeções alheias. Se tem sucesso, “é porque ganha bem”. Se demonstra segurança, “é arrogante”. Se mantém distância emocional, “é frio”. Se se envolve demais, “é pouco profissional”....
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