16/05/2026
Eu poderia dizer: ontem eu “chorei como criança”, mas a verdade é que chorei como adulta que se conhece e permite sentir a profundidade das emoções. Foi um choro de gratidão, de alívio, de cura.
Ontem eu sentei nessa cadeira e brinquei com meu filho enquanto aguardávamos exames de rotina. A risada dele ecoava pelo corredor de um jeito que fazia todas as pessoas da espera notarem. E, sinceramente, eu não fiquei constrangida. Posso até dizer que me senti exibida.
Nessa mesma cadeira, há aproximadamente oito meses, eu estava aos prantos, com uma barriga enorme e tomada pelo medo. Medo de perder. Medo do que seria de mim. Medo de não ter forças para suportar o processo, fosse ele qual fosse. Naquele dia, meu choro era silencioso, mas também era percebido por todas as pessoas ao redor.
Ontem também abracei algumas das profissionais que cuidaram do meu filho, agradeci profundamente o fato de que, graças à maneira como elas exercem a profissão, meu momento de maior dor foi carregado de afeto e conexão… senti que parte de mim se reorganizou.
Infelizmente não existe atalho para processar um trauma. Sentir dói, mas anestesiar as emoções — embora alivie momentaneamente — faz com que elas encontrem outras formas de aparecer. E tratar os sintomas de uma dor acumulada costuma ser muito mais desafiador do que atravessá-la.
E talvez seja isso que mais me emocione hoje: poder ocupar o mesmo espaço que um dia testemunhou tanto medo e dor…e agora vê meu filho gargalhando pelos corredores. Que sorte, que benção. Que dor pensar que outras mães não têm esse mesmo desfecho.
Ressignificar não é apagar o trauma, romantizar a dor ou fingir que ela não deixou marcas. Ressignificar é conseguir olhar para tudo o que foi vivido e perceber que, mesmo no período mais doloroso da minha vida existiu amor. Existiu encontro e conexão. Existiu vida pulsando.
A gente não tem escolha sobre viver ou não traumas, mas tem sempre sobre quem vai ser diante deles, quem vai se tornar depois.
Eu gosto de quem eu fui. Gosto mais ainda de quem estou me tornando.