14/10/2026
Quando saio de casa, vejo, bem longe, as torres de Nova Lima. Se me viro, mais longe, vejo as montanhas que formarão Itatiaiuçu. Nova Lima e Itatiauçu são desafios.
A primeira, ao sul, é tratamento, foi cirurgia na cabeça, foi quimioterapia de mais de um ano, e exaustão da radioterapia. Acho que não havia conhecido o cansaço. Radioterapia é um bagaço, de verdade, que derruba e desconstrói. Quimioterapia foi continuidade, mais de dois anos, uma epopeia existencialista.
A segunda, a serra para minha casa, é redenção, é objetivo. Pedalar até Oliveira. Mas me coço, me meço, assumirei esse desafio de novo. Se pedalava cem quilômetros fácil, deixei de fazê-lo. Agora, pedalo quarenta quilômetros, e nada quase três, na água fria de casa. Corro, caminho, uns cinco. Em silêncio e sozinho, penso, medito, reflito.
O câncer mexe tudo. E te questiona ser, viver. Não engulo qualquer coisa que topava, rejeito a maioria. Esbaldo em frutas, na comida árabe de meu pai, quase todas as sementes de minha mãe, e todas as delícias que Flávia faz para gente. Tenho medo do frio, e o encaro. Tenho nojo da comida fast food, do chef de direita. Prefiro água, prefiro o delicioso sorvete de manga de meu estimado Alysson, na pracinha da Prefeitura.
Venho de um suporte, social e familiar, único e verdadeiro. Mãe, pai, irmã. Cresci em uma periferia com padrinho, madrinha, tocando música, as que escuto até hoje. Vivi numa casa de japoneses, senhor Luís e Celina, com quem aprendi, religião, amizade, sobre a vida que permanece. Na casa de uma família de portugueses, Bela e senhor Manoel, gente cultíssima, descobria o português europeu e a verdadeira matemática, a amizade com Ivan. De meus irmãos, Paulo e Evaldo, na UFMG, parti pro mundo.
Na memória dessas pessoas, nos sorrisos, nos desencontros, nas músicas, busco sentido de vida. Não fico lá, no passado. Das montanhas, de casa, do futuro, pros meus filhotes, meus sobrinhos, meus pais, minha irmã, meu cunhado e minha minha mulher amada, nascem projetos, trilhos verdadeiros para um futuro.
E escuto, quem me conta suas tristezas, seus desarranjos. E te convido para um rearranjo com o encontro de uma razão, de vida, existência.