29/08/2025
Me deparei com essa frase de Guimarães Rosa — tão simples e tão profunda — pela primeira vez numa sala com 200 alunos, quando eu tinha 18 anos.
Naquela época, o conhecimento me encantava, e as dores da vida, embora presentes, ainda eram vistas com certa inocência, ingenuidade… talvez esperança.
De tempos em tempos, revisito essas frases que me marcaram.
Foi já na faculdade de Psicologia que olhei novamente para a dureza contida nela.
Refleti o quanto a dor é parte inevitável da existência humana — e o quanto, diante do sofrimento, somos chamados a nos reinventar… ou seguir apesar dele.
Hoje, com um pouco mais de maturidade (ou talvez só menos ingenuidade), entendo essa frase de outro lugar: da vivência, da escuta e dos estudos que integrei ao longo do tempo.
Hoje sei que a dor faz parte da vida — o sofrimento, não necessariamente.
A dor é inevitável.
O sofrimento nasce, muitas vezes, do apego ao que fomos ou de tentativas desesperadas de evitar certas experiências.
E são essas fugas que nos prendem.
Você pode pensar:
“Mas que perspectiva dura da vida…”
E eu te digo: não é negativa.
É humana.
Estar disposto a “rasgar-se e remendar-se”, vez após vez, é um gesto de coragem.
É o que nos move.
É o que nos transforma.
Quando me perguntam como é o processo de cura na psicoterapia, eu gostaria de imprimir essa frase em cada canto do consultório.
Porque sim, terapia é isso: um rasgar-se e remendar-se constante.
É se abrir para o incômodo.
Não aceitar no sentido de tolerar ou se resignar, mas no sentido de encarar.
De estar presente.
De acolher.
E sim, esse processo dói.
Envolve desconstruir pensamentos, crenças, padrões que um dia nos sustentaram… mas que agora não nos levam mais adiante.
Exige coragem.
Exige flexibilidade.
Mas também, como já diria outro clichê verdadeiro:
“Somente quem sustenta o caminho aproveita a vista.”
Porque mesmo com os altos e baixos, com dúvidas, idas e voltas — é esse movimento que permite que a gente se aproxime, de verdade, de quem somos.
Que tenhamos paciência, coragem e presença para viver esse eterno rasgar-se e remendar-se.