04/06/2026
A maioria abandona a terapia antes dela começar a funcionar. E ninguém fala sobre isso
“Tentei terapia. Não funcionou pra mim.”
Essa talvez seja uma das frases mais repetidas sobre psicoterapia. E também uma das mais mal compreendidas.
Porque terapia não é um alívio imediato. Não é entrar angustiado e sair “curado” em poucas sessões.
Psicoterapia é um processo profundo de reorganização emocional. É revisitar padrões, dores, defesas e modos de funcionamento que, muitas vezes, foram construídos ao longo de décadas.
E toda mudança real exige tempo suficiente para acontecer.
No início, muitas pessoas sentem um certo alívio. Só que depois vem a parte mais difícil: quando a terapia começa a tocar exatamente aquilo que foi evitado por anos.
A angústia aparece. O desconforto aumenta. As defesas começam a cair.
E é nesse ponto que muita gente interrompe o processo.
Então surge a frase: “Fiz terapia e não funcionou.”
Mas, em muitos casos, o que não funcionou não foi a terapia. Foi a interrupção precoce do processo.
Na medicina, ninguém espera que uma única sessão de quimioterapia seja suficiente para a remissão completa de um câncer. Existe um protocolo, um acompanhamento e um tempo necessário para que o tratamento produza efeitos consistentes.
Na psicoterapia acontece algo semelhante: o sofrimento emocional também envolve processos profundos, complexos e, muitas vezes, antigos. Mudanças psíquicas consistentes não acontecem de forma instantânea. Elas precisam ser elaboradas, compreendidas e integradas ao longo do tempo.
A psicanálise já descrevia algo importante: o ser humano resiste à mudança, mesmo quando sofre. Freud chamou isso de resistência psíquica. Porque enfrentar a própria verdade emocional nem sempre é confortável.
Carl Rogers, na Terapia Centrada na Pessoa, também mostrava que mudanças profundas acontecem dentro de uma relação terapêutica construída com tempo, vínculo e continuidade.
E as pesquisas atuais em psicoterapia apontam algo muito interessante: quando o processo é mantido até a consolidação emocional, os ganhos continuam crescendo mesmo após a alta terapêutica.
Quem abandona cedo demais geralmente interrompe o tratamento antes que os efeitos mais profundos apareçam.
Muitas vezes, a pessoa não desistiu porque “estava bem”. Desistiu justamente quando começou a acessar aquilo que mais precisava ser elaborado.
E existe um detalhe importante: a pressa que faz alguém abandonar a terapia costuma ser o mesmo padrão emocional que levou essa pessoa até ela.
A necessidade de resolver tudo rápido. De não entrar em contato com a dor. De fugir do desconforto interno.
Por isso, em muitos casos, quem diz: “A terapia não funcionou pra mim” talvez esteja dizendo, sem perceber:
“Eu fui embora antes da transformação começar.”
Psicoterapia não é mágica. É processo. E processos emocionais profundos não florescem na velocidade da ansiedade.
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Referencial teórico: Sigmund Freud — resistência psíquica e mecanismos de defesa; Carl Rogers — Terapia Centrada na Pessoa; Irvin Yalom — fatores terapêuticos e vínculo clínico; Jonathan Shedler — eficácia das psicoterapias de orientação psicodinâmica; APA (American Psychological Association) — continuidade terapêutica e consolidação de ganhos em psicoterapia.