27/04/2026
Uma vez ouvi de algum psicanalista que nós andamos porque caímos. Coloca-se um pé na frente do outro, seguindo uma continuidade para não cair, é por medo da queda que nos esforçamos e aprendemos a andar.
O bebê que ensaia seus primeiros passinhos vive o espaço como um descontínuo, um vazio angustiante entre um ponto de apoio e outro, porém, ainda que esse espaço seja angustiante, é graças a ele que nos lançamos para a vida.
Antes de saber andar o bebê se lança, e ao se lançar se depara com o puro vazio, é preciso que algo apareça como um apoio para que não se caia nesse abismo. A mão que se estende para amparar o bebê que inicia seus primeiros passinhos é um ponto de apoio.
Lacan anunciava que entre eu e o Outro há um abismo, é essa distância que há entre o bebê e o Outro o que possibilita os seus primeiros passos, há espaço para o ensaio, mas há também alguém presente para amparar, se necessário.
É preciso possibilitar esse espaço para que o bebê inicie seus primeiros passos no mundo, e, muitas vezes, é nesse espaço que criamos condições para seguirmos caminhando na vida.
A falta desse espaço, por motivos de medo ou superproteção dos cuidadores que zelam em demasia, sufoca o bebê e o impede de inaugurar seus modos de suportar os vazios, os tombos que a vida prega, o tempo de espera que o mundo apresenta e que nos exige um ato criativo para seguir caminhando.
Que possamos estender a mão, mas também saber se afastar quando necessário, para que o outro possa criar seu modo de andar/seguir na vida.