28/05/2026
Nas primeiras sessões, ela escolhia a melhor roupa, usava maquiagem, arrumava o cabelo, estava sempre de unhas feitas.
Saía de casa com antecedência.
Na bolsa, um caderno com anotações (uma lista daquilo que precisa ser alcançado e melhorado),e ainda uma garrafinha de água caso sentisse sede.
Chegava com antecendência.
Às vezes cedo demais.
Com o tempo, alguma coisa se transforma.
Já não precisava da roupa mais bonita, bastava a mais confortável.
Os cabelos podiam ser soltos, sem precisar passar horas arrumando e o alinhando cada fio.
De cara lavada, com suas linhas de expressões, sem esconder nada.
Um sapato qualquer, até mesmo o mais velho do armário.
Às vezes, ainda, é preciso tirar os sapatos e mostrar os furos na meia, até mesmo os pares desiguais.
Em alguns dias, por baixo do moletom largo, um pijama.
E então percebe, sem notar exatamente quando aconteceu, que já não pensa tanto no que vestir para ir à análise.
Porque, pouco a pouco, é justamente ali que ela vai deixando as roupas que mais pesavam.
Ali, diante de alguém, vai se despindo das coisas que precisou vestir por tanto tempo, aprende a suportar aparecer sem usar aquilo que era desconfortável ou que não servia mais.
E sente na própria pele tudo aquilo que, por muito tempo, a roupa protegeu e escondeu.
* Crônica ficcional inspirada em vivências comuns do processo analítico.