05/03/2026
CARTA ABERTA
(Em nome de todas as mulheres)
O Fim do Direito de Posse
Não estamos diante de uma "fatalidade" ou de "crimes de paixão". O que os índices alarmantes de feminicídio nos esfregam no rosto, todos os dias, é o rastro de sangue deixado por uma ideia que já deveria ter sido enterrada, a de que a vida de uma mulher pode pertencer a um homem.
Escrevemos esta carta porque é urgente desmascarar a mentalidade arcaica que sustenta essa violência.
O feminicídio é o ponto final de uma narrativa de controle que começa muito antes do ato fatal. Ele começa no momento em que a masculinidade é confundida com o domínio e o afeto é distorcido em propriedade.
À Justiça e ao Estado, exigimos a escuta que salva.
Não podemos falar de feminicídio sem falar do silêncio ensurdecedor dos tribunais e das delegacias. Quantas vidas foram perdidas com uma medida protetiva de papel na mão? É inadmissível que o pedido de socorro de uma mulher seja subestimado, ridicularizado ou arquivado por falta de "provas físicas", enquanto a ameaça psicológica e o terror doméstico já desenham o próximo crime.
A justiça precisa deixar de ser um balcão burocrático para se tornar um porto seguro. O acolhimento deve ser imediato, humano e eficaz.
Uma denúncia ignorada é uma licença para matar.
O Estado tem o dever de acreditar na palavra da mulher e agir antes que o luto substitua o processo.
Aos homens, dirigimos este chamado à reflexão.
A ideia de que "ela é minha" é o combustível do agressor. Essa sensação de posse ensina o homem a não aceitar o "não" e a punir a autonomia.
Precisamos entender que:
Mulher não é território, o corpo dela e as escolhas dela não são extensões da vontade masculina.
Controle não é cuidado, monitorar passos e amizades é o ensaio da violência.
A masculinidade deve evoluir, a incapacidade de lidar com a rejeição não pode continuar custando vidas.
Enquanto a masculinidade for medida pela capacidade de subjugar o outro, e enquanto as instituições fecharem os olhos para os gritos de ajuda, continuaremos falhando.
Não basta não bater, é preciso desconstruir a cultura que autoriza o golpe.
Que esta carta sirva como um lembrete e uma exigência, a liberdade de uma mulher é absoluta.
O fim de um relacionamento não é um pedido de sentença. Que possamos substituir o verbo possuir pelo verbo respeitar.
Pelo fim da cultura da posse. Pela escuta ativa da justiça. Pela vida de todas as mulheres.
Marli Dias Lemes- CRP-08/30638