22/08/2026
Night City não assusta só por ser violenta ou tecnológica demais, mas porque quase tudo ali parece ter virado alguma forma de produto. O corpo pode ser modificado, a memória pode ser acessada, a identidade pode ser montada, o prazer pode ser comprado e até aquilo que deveria ser íntimo passa por algum tipo de interface.
É um exagero distópico, claro, mas não parece tão absurdo quando pensamos no quanto a nossa própria vida já passa por sistemas que tentam antecipar o que queremos antes mesmo da gente perceber. O algoritmo aprende o que prende nossa atenção, entrega algo parecido, remove parte do atrito e cria a sensação de que o mundo pode ser cada vez mais ajustado ao nosso gosto.
Talvez o problema comece quando levamos essa expectativa para as relações. Porque uma pessoa real não funciona como um feed. Ela não aparece sempre do jeito mais interessante, não responde sempre no tempo ideal, não confirma tudo que imaginamos e não existe apenas para encaixar na nossa vontade.
Byung-Chul Han fala em seu livro, A Agonia de Eros, sobre a dificuldade de encontrar o outro como outro, e acho que isso conversa muito com esse tema. O outro real tem diferença, limite, contradição e história própria (assim como todos nós). Só que, quando a gente se acostuma com um mundo onde quase tudo pode ser pulado, trocado ou substituído rapidamente, qualquer desconforto começa a parecer sinal de que talvez exista uma opção melhor em outro lugar.
E talvez seja por isso que o amor em tempos de catálogo pareça tão cansativo. Não porque as pessoas deixaram de querer vínculo, mas porque permanecer tempo suficiente diante de alguém real exige uma tolerância que a lógica digital não treina muito bem. Exige lidar com frustração, silêncio, insegurança, diferença e momentos que não entregam estímulo imediato.
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