20/05/2026
Ghosting costuma ser tratado de forma muito simplificada, como se toda pessoa que some estivesse dizendo a mesma coisa. Mas, do ponto de vista psicanalítico, vale escutar melhor o que está em jogo quando alguém desaparece.
Em alguns casos, o sujeito some porque o vínculo o afetou mais do que ele consegue sustentar. A intimidade cresce, a vulnerabilidade aparece, e isso convoca angústias profundas: medo de depender, medo de ser invadido, medo de perder o controle, medo de ser abandonado depois. Como não consegue dar palavra ao que sentiu, ele age. Some. O ato entra no lugar da palavra.
Mas há também o ghosting feito de propósito. E aqui a posição subjetiva é outra. O desaparecimento pode funcionar como punição, poder, recusa de responsabilização e desmentido do outro como sujeito. O silêncio vira instrumento.
Isso não significa justificar quem some porque se angustia. Nem simplificar todo ghosting como crueldade calculada. Significa reconhecer que o desaparecimento pode cumprir funções psíquicas diferentes.
Em comum, permanece uma violência:
o outro é deixado diante de um corte sem palavra.
E talvez seja isso que doa tanto.
No ghosting, não falta só presença. Falta sentido.
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