18/03/2026
Ontem foi dia de estreia.
Minha chegada à Sociedade Brasileira de Médicos Escritores teve o sabor raro das experiências que parecem, ao mesmo tempo, novidade e reencontro. Reunião com os pares. Gente da palavra, de escuta, do repertório, da profundidade. Assuntos densos, inteligentes, humanos. Lá na pineal, uma sensação muito nítida: pertencimento.
Como se uma nova conexão social tivesse sido destravada dentro de mim.
Como se, de algum modo, eu tivesse encontrado uma sala onde a ciência não precisasse pedir licença à arte — nem a arte se envergonhar de curar.
Cada membro leu um texto de sua autoria.
Todos extraordinários.
Mas um deles tinha qualquer coisa de singular.
Desses que não apenas se escutam — atravessam.
Corta para hoje à tarde.
Visita médica domiciliar. Casa de uma paciente de 94 anos. Medicina praticada sem pressa.
Privilégio ter certos pacientes que já não cabem apenas no nome e endereço. Pessoas que se tornam biblioteca, testemunho, espelho, aula. Conversamos sobre tudo: política, religião, artes, vida. Com a liberdade que só existe quando a cognição segue plena e a experiência já vivenciou muito.
Foi então que o celular apitou.
Mensagem nova.
Eu, recém-admitido no grupo dos meus pares, recebia a cópia daquele texto ímpar.
Pedi licença.
Perguntei se poderia lê-lo ali, em voz alta.
Ela permitiu.
Eu li.
Li para uma mulher de 94 anos, absurdamente preservada em sua cognição, clara, viva, hipertrofiada de existência. Li como quem oferece não apenas palavras, mas presença. Não só na entonação, mas principalmente nas mãos dadas.
Enquanto lia, tive a confirmação silenciosa de algo que a prática médica nos revela nos cantos mais bonitos do cotidiano:
A arte associada ao médico potencializa a terapêutica de ambos!
Há momentos em que a medicina e a arte deixam de andar lado a lado e passam a ser, por alguns instantes, a mesma coisa.
Corrijo.
Há momentos em que a coexistência é notória a todos.
Para os de Apolo, é rotina.
Carlos Sperandio
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