06/03/2026
Tem me intrigado a forma como as pessoas têm se relacionado na modernidade.
A urgência. A busca por garantias. O não comprometimento. Ou ainda um comprometimento breve, que muitas vezes expressa um desejo que não pode ser sustentado por muito tempo.
De um lado, temos os aplicativos de relacionamento que, ao mesmo tempo em que prometem facilitar os encontros, tudo muito prático, “fast”, também parecem produzir um certo cansaço. No consultório e nas conversas informais, é cada vez mais frequente ouvir a mesma queixa: a saudade de conhecer alguém de forma mais espontânea, quase à “moda antiga”. Esbarrando na rua, em um bar, em um curso, na faculdade ou até nas antigas salas de bate-papo do UOL (os entendedores entenderão, rsrs).
Talvez o cansaço venha justamente do excesso. Lacan já apontava: a falta da falta, produz angústia.
Há um excesso de convites à conversa, um excesso de demanda que sufoca o desejo. Quando há tanta oferta, já não sei mais o que quero.
Em contrapartida, há aqueles que sentem que não podem perder nada: saem com muitos, falam com todos e, é claro, falham miseravelmente tentando administrar tanto “contatinho”.
Tanta gente concentrada buscando coisas tão singulares. E, no meio de tanta opção, até sai um encontro… mas logo se p**a para o próximo. Não gostei do que pedi, quero reembolso, rs.
É nesse ponto que a promessa de escolha ilimitada começa a sustentar uma fantasia muito conhecida da clínica: a de que ainda é possível encontrar o ideal.
E aí, meus caros, já estamos em um campo neurótico, no qual a busca se torna incessante, deixando mágoas, lágrimas e marcas em quem atravessa o caminho.
É como se relacionar-se tivesse virado um grande ensaio e, na hora do “vamos ver”, há uma tensão…
“Mas peraí… ainda não.
Deixa eu ver quem está de próximo. 🤔”
Só que a vida não tem ensaio. Ela acontece no aqui e agora. Tanta oferta, e as pessoas estão cada vez mais solitárias e sedentas por algo que nem elas mesmas sabem o que é. CONTINUA NOS COMENTÁRIOS ⬇️