27/08/2026
Eu não costumo comentar qualquer absurdo que aparece nas redes sociais. Mas, quando um homem em cuidados paliativos tenta se despedir de sua audiência e alguém que se apresenta como terapeuta transforma essa despedida em deboche diante de centenas de pessoas, f**ar calado também começa a produzir um efeito.
O Lito está enfrentando o avanço de uma doença incurável. Mesmo assim, seu sofrimento foi tratado como incapacidade de “aceitar a vida como ela é”. Como se a morte pudesse ser enfrentada com uma frase pronta. Como se sentir medo, chorar e se despedir fossem sinais de fracasso emocional.
Ferenczi mostra que uma experiência traumática se torna ainda mais destrutiva quando encontra o desmentido: alguém vê o sofrimento, mas o diminui, banaliza ou trata aquela dor como exagero. Nesse sentido, o deboche não comenta apenas uma violência. Ele repete sua estrutura.
Vladimir Safatle aponta, em *A ameaça interna*, que essa perda do ato de se sensibilizar com o sofrimento dos outros é uma característica fascista. Porque, se eu não sinto nada pelo outro, ele vai recorrer a quem quando sofrer uma violência e todo mundo ao redor resolver que aquela dor não é problema seu?
Quando alguém se apresenta como terapeuta, existe uma responsabilidade ética sobre aquilo que faz com a vulnerabilidade humana, inclusive nas redes sociais. Essa posição não pode servir como autorização para humilhar, explorar sofrimento ou transformar crueldade em engajamento.
Ter responsabilidade ética também signif**a saber que uma audiência aprende conosco. Aprende a acolher, mas também pode aprender a debochar. Aprende a reconhecer a dor ou a abandoná-la.
Nem toda insensibilidade dita com convicção é sinal de força. Às vezes, é apenas violência recebendo aplausos.
Referências:
FERENCZI, Sándor. *Análises de crianças com adultos* (1931). In: *Psicanálise IV*. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.
FERENCZI, Sándor. *Confusão de língua entre os adultos e a criança* (1933). In: *Psicanálise IV*. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.
SAFATLE, Vladimir. *A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais*. São Paulo: Ubu Editora, 20