02/10/2026
A exposição da intimidade nas redes costuma ser discutida como excesso, vaidade ou narcisismo. Mas talvez exista uma questão anterior: onde termina o sujeito quando parte de sua existência passa a acontecer permanentemente diante de uma audiência?
Didier Anzieu oferece uma imagem interessante para pensar isso. O Eu-pele funciona como um envelope psíquico: contém, delimita e permite diferenciar interior e exterior.
Não se trata, portanto, apenas da pele biológica, mas de uma função de contorno do próprio Eu.
As redes introduzem uma complicação contemporânea nessa fronteira. Fotografias, conflitos, maternidade, separações e sofrimento podem deixar de pertencer exclusivamente à esfera íntima e passar a compor uma espécie de corpo público digital.
Isso não permite diagnosticar alguém como narcisista porque expõe a própria vida. Seria uma simplif**ação. A questão que proponho no vídeo é outra: o que acontece com nossas bordas psíquicas quando reconhecimento, intimidade e presença passam a depender também de likes, comentários e compartilhamentos?
Talvez o problema não seja simplesmente estarmos “expostos demais”. Talvez seja precisarmos pensar que tipo de contorno conseguimos construir entre aquilo que pode ser compartilhado e aquilo que precisa continuar sendo nosso.
Referência citada no vídeo:
ANZIEU, Didier. O Eu-pele. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1989.