Psicanálise na Prática

Psicanálise na Prática Sou psicanalista e professor. Acesse meu Grupo de Formação e Estudos em Psicanálise.

31/08/2026

Com a participação da psicodafer - o corte desta live, realizada no dia 25 de agosto (disponível na i terra no YouTube), mostra como é importante receber pacientes que já trazem diagnósticos consolidados e que podem nao estar de acordo.

No entanto, com cautela e manejo, o psicanalista pode oferecer acolhimento e convidar o sujeito a compreender sua subjetividade para além de qualquer selo ou "caixinha". Comente aqui o que você compreendeu ou insights que possam ter gerado a partir desta experiência.

27/08/2026

Eu não costumo comentar qualquer absurdo que aparece nas redes sociais. Mas, quando um homem em cuidados paliativos tenta se despedir de sua audiência e alguém que se apresenta como terapeuta transforma essa despedida em deboche diante de centenas de pessoas, f**ar calado também começa a produzir um efeito.

O Lito está enfrentando o avanço de uma doença incurável. Mesmo assim, seu sofrimento foi tratado como incapacidade de “aceitar a vida como ela é”. Como se a morte pudesse ser enfrentada com uma frase pronta. Como se sentir medo, chorar e se despedir fossem sinais de fracasso emocional.

Ferenczi mostra que uma experiência traumática se torna ainda mais destrutiva quando encontra o desmentido: alguém vê o sofrimento, mas o diminui, banaliza ou trata aquela dor como exagero. Nesse sentido, o deboche não comenta apenas uma violência. Ele repete sua estrutura.

Vladimir Safatle aponta, em *A ameaça interna*, que essa perda do ato de se sensibilizar com o sofrimento dos outros é uma característica fascista. Porque, se eu não sinto nada pelo outro, ele vai recorrer a quem quando sofrer uma violência e todo mundo ao redor resolver que aquela dor não é problema seu?

Quando alguém se apresenta como terapeuta, existe uma responsabilidade ética sobre aquilo que faz com a vulnerabilidade humana, inclusive nas redes sociais. Essa posição não pode servir como autorização para humilhar, explorar sofrimento ou transformar crueldade em engajamento.

Ter responsabilidade ética também signif**a saber que uma audiência aprende conosco. Aprende a acolher, mas também pode aprender a debochar. Aprende a reconhecer a dor ou a abandoná-la.

Nem toda insensibilidade dita com convicção é sinal de força. Às vezes, é apenas violência recebendo aplausos.

Referências:

FERENCZI, Sándor. *Análises de crianças com adultos* (1931). In: *Psicanálise IV*. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

FERENCZI, Sándor. *Confusão de língua entre os adultos e a criança* (1933). In: *Psicanálise IV*. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

SAFATLE, Vladimir. *A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais*. São Paulo: Ubu Editora, 20

26/08/2026

É possível amar e conviver com alguém em funcionamento borderline?

Sim. Mas essa resposta exige muito mais responsabilidade do que os protocolos rasos que circulam pela internet: “faça isso”, “nunca diga aquilo”, “fuja imediatamente”. Como se todas as pessoas borderline fossem o mesmo personagem, uma espécie de vilão da Disney com diagnóstico.

Não são.

Estamos falando de sujeitos atravessados por histórias, traumas, inseguranças, afetos, classe, gênero, raça e maneiras singulares de organizar a própria existência. Borderline não é sinônimo de monstruosidade, assim como sofrimento psíquico não transforma automaticamente ninguém em vítima inocente de tudo o que faz.

Uma pessoa em funcionamento borderline pode amar, desejar e construir vínculos. Também pode apresentar comportamentos tóxicos ou abusivos. Uma coisa não apaga a outra.

Para o cônjuge, essa relação frequentemente produz uma implicação intensa. Ele deixa de ocupar apenas o lugar de parceiro e passa a funcionar como porto, referência emocional e garantia de permanência diante do medo desesperador da falta. A relação pode se tornar desbalanceada, exigindo do outro uma presença que nenhuma pessoa consegue sustentar indefinidamente sem algum custo psíquico.

Conviver é possível. Demonizar não ajuda. Romantizar também não.

É preciso acompanhamento terapêutico contínuo, responsabilidade pelos próprios atos e disposição de ambos para compreender os limites desse vínculo. Empatia não signif**a aceitar violência. Amar alguém não exige o desaparecimento da própria subjetividade.

Este vídeo é apenas um corte. A aula completa já está disponível no meu canal do YouTube: uma aula extensa e bastante profunda sobre a convivência com alguém em funcionamento borderline, os efeitos dessa dinâmica sobre o cônjuge e os cuidados necessários para não transformar sofrimento psíquico em demonização ou desculpa para o abuso.

Assista à aula completa no meu canal do YouTube.

Você já viveu uma relação atravessada por essa dinâmica?

Relacionamentos Depe

25/08/2026

Esse é um vídeo que postei, originalmente, no meu perfil do Tiktok no dia 8 de abril. Vale a pena relembrar uma vez que agora vivemos boas ondas ocupando espaços por aqui. E se esse povo da adora circo, essa edição é a picardia circense.

Ainda brinco com um vídeo de postagem anterior à data citada do queridíssimo lucasnapoli reagindo ao mesmo corte. Acabei me entregando para a brincadeira, espero que não tenha exagerado na pegada com o Lucas.

Diante de tanta desinformação, vale a pena registrar o quanto nós profissionais de saúde mental precisamos nos posicionar de forma explícita em combate à fake News, à relativização da ética em benefício do explorador, cooptando tanta gente que têm genuíno interesse em aprender sobre psicanálise.

Nem tudo que reluz na escuridão é farol. Por isso, f**a a dica para você que insiste em dar palco pra esse tipo de fakenalista. Quando essa bolha estourar, quero ver se os aliados dessa antipsicanálise, termo maravilhoso cunhado pelo Maciel Antonio – estejam dispostos a assumir a responsabilidade desse trelelê aí.

Por mais terapeutas fazendo ajustes e combatendo a pirataria da psicanálise.

22/08/2026

A rejeição tem algo de brutal porque não fomos constituídos no isolamento.

Desde o início da vida, nossa existência depende da presença de alguém que nos reconheça, responda às nossas necessidades e confirme que há um lugar possível para nós no vínculo. Crescemos, amadurecemos, conquistamos alguma autonomia, mas essa dependência da resposta do outro não desaparece completamente.

Por isso a rejeição pode surgir em diferentes relações: no amor, na família, na amizade, no trabalho ou diante de alguém que ocupa uma posição de autoridade. Mesmo quando sabemos que aquele vínculo era ruim, mesmo quando o afastamento foi necessário e racionalmente compreendido, ainda pode restar um gosto amargo.

Ter consciência não produz anestesia.

Às vezes, passamos a temer tanto determinadas angústias que começamos a organizar a vida inteira para evitar qualquer possibilidade de rejeição. Recuamos antes de tentar, aceitamos relações precárias ou permanecemos onde já não existe cuidado, apenas para não experimentar novamente a retirada do outro.

Mas a tristeza não precisa ser imediatamente eliminada. Ela vem, atravessa, incomoda e, com o tempo, pode encontrar outro destino.

Amadurecer não signif**a deixar de sofrer diante da rejeição. Signif**a não permitir que a rejeição de alguém se transforme numa condenação permanente da própria existência.

SofrimentoPsíquico MaturidadeEmocional

21/08/2026

Para terror dos "haters", 🤣🤣🤣 esse é um registro bacana que representa muita gente que apoia os ajustes que faço diante tanta desinformação.

Fazer um react não é apertar o botão de gravar, sentir raiva e sair distribuindo frases de efeito. Às vezes, passo dias elaborando um roteiro. Procuro a origem da informação, confiro o estudo citado, comparo versões e penso até onde posso esticar a corda sem transformar uma crítica fundamentada em ataque pessoal. É uma linha muito fina, principalmente quando o conteúdo confronta profissionais conhecidos e discursos já aceitos como verdade.

Quem vê o vídeo pronto encontra alguns minutos de fala. Não vê as horas de pesquisa, as dúvidas, as escolhas descartadas e o esforço para que a contundência não ultrapasse a responsabilidade. Meu trabalho é produzido de forma bastante solitária. Por isso, saber que algumas reflexões chegam a outros profissionais, entram em consultórios e ajudam a qualif**ar o cuidado clínico tem um valor particular.

E há algo simples, mas fundamental, no relato da Ane: ideias circulam, mas autoria precisa ser reconhecida. Aprender com alguém não autoriza ninguém a recolher o pensamento alheio, retirar os créditos e reapresentá-lo como descoberta pessoal.

Crítica exige coragem. Pesquisa exige tempo. E honestidade intelectual exige reconhecer de onde veio aquilo que estamos repetindo.

ProduçãoDeConteúdo Psicologia PensamentoCrítico

19/08/2026

O analisando precisa confiar que existe alguma coisa a ser encontrada naquele encontro. Sem essa aposta, dificilmente entregará ao psicanalista aquilo que guarda de mais íntimo. É nesse sentido que Lacan fala do sujeito suposto saber: não porque o analista saiba tudo, mas porque a transferência o coloca provisoriamente nesse lugar.

Recusar essa posição não nos torna mais humildes. Às vezes, apenas nos torna incapazes de sustentar o próprio setting terapêutico.

O risco aparece quando o analista acredita ser realmente proprietário desse saber e passa a operar pelo discurso do mestre: orienta, determina, oferece respostas e ensina ao analisando o que ele deve pensar. A autoridade necessária ao trabalho clínico se transforma em poder sobre o outro.

A relação analítica não é horizontal. Existe uma mutualidade, mas ela permanece assimétrica. Com o avanço do processo, essa assimetria pode se tornar menos opressiva e mais compartilhada, à medida que o paciente conquista recursos para sustentar a própria experiência.

Ricardo Salztrager chama atenção para a tradução do título do texto freudiano de 1914. Em vez de compreendê-lo apenas como uma “Introdução ao narcisismo”, podemos lê-lo como “Para introduzir o narcisismo”. A mudança parece pequena, mas desloca o narcisismo de um objeto estático a ser explicado para algo que participa da própria constituição e do fortalecimento do eu.

Contardo Calligaris dizia que o trabalho do terapeuta deve ajudar o paciente a alcançar a autonomia possível. Isso inclui aceitar que, um belo dia, ele talvez já não precise de nós.

É uma bela ferida narcísica para o analista: perceber que o êxito de seu trabalho pode aparecer justamente quando o paciente consegue abandoná-lo.

Referências:

CALLIGARIS, Contardo. *O sentido da vida*. São Paulo: Paidós, 2023.

FREUD, Sigmund. *Introdução ao narcisismo* (1914). In: *Obras completas*, v. 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

LACAN, Jacques. *O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise*. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.

LACAN, Jacques. *O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise*. Rio de Janeiro:

17/08/2026

A história de que “psicopata não boceja” nasceu de uma pesquisa ruim, mas existente. Porém, torna-se objeto de desinformação, principalmente, quando explorada de forma distorcida para gerar alarmismo e autoridade.

A reflexão deste react é percebermos como f**a fácil gerar desinformação diante de um contexto subjetivo, abstrato, sem qualquer constrangimento sobre a responsabilidade de sustentar uma posição ética. Por isso, a existência deste ajuste.

Meias verdades podem produzir mentiras inteiras. Nesse caso, formuladas para gerar uma espécie de retórica em benefício de uma autoridade fantasiosa, manipulatória, irresponsável pelo registro que ainda se sustenta. Só uma pessoa que não se constrange em atuar nesse campo como uma “salvadora” poderia produzir esse tipo de fakenálise.

Quando associações pequenas viram leis universais, a psicopatologia deixa de ajudar a compreender alguém e passa a fabricar personagens: o psicopata que não boceja, não sente, deseja apenas poder e inevitavelmente destruirá alguma parte de você.

Isso tem aparência de ciência, mas é só abilolice produzida por quem nem sabe o que está falando. Para ser psicanalista é preciso ter experiência como analisando. Assim, você tem a dimensão do ato de psicanalisar. Mas quem é protagonista deste react não tem a menor ideia disso.

Quero aproveitar essa postagem para também agradecer à Iara Amaral que tem acompanhado este trabalho com muito comprometimento e confiado nos ajustes que venho fazendo periodicamente nas minhas publicações. Essa confiança também participa da construção de um conteúdo mais rigoroso, responsável e coerente. Isso é se comprometer com sua amplitude nas redes sociais. Iara Amaral é show.

Quer estender também esse agradecimento a Ana Regina Barroso que compartilha também meus conteúdos e demonstrando a preocupação que devemos ter no campo da saúde mental.

16/08/2026

Desejar o bem do paciente não compromete a escuta psicanalítica. O que compromete a escuta é o analista transformar esse desejo numa exigência: precisar que o paciente melhore para confirmar sua competência, agradecer seu cuidado ou corresponder àquilo que ele considera uma vida melhor.

Daniel Shaw chama de “amor analítico” uma forma particular de investimento afetivo sustentada pelo respeito, pela segurança e pelo interesse no desenvolvimento do paciente. Para ele, acompanhar a confiança, a cura e o crescimento conquistados pelo paciente pode produzir no analista sentimentos de alegria, orgulho e propósito. Essa mutualidade é vitalizante para o analista e terapêutica para o paciente, sem eliminar a assimetria de responsabilidades da relação clínica.

Lewis Aron ajuda a compreender essa diferença: paciente e analista se afetam mutuamente, mas não ocupam posições equivalentes. O paciente não existe para cuidar da autoestima, da insegurança ou das necessidades afetivas do analista.

Isso se torna ainda mais importante na clínica do abuso. Quem passou anos antecipando o humor do outro, evitando conflitos e reduzindo a própria existência para preservar vínculos não pode encontrar no consultório mais alguém a quem precise agradar.

Donna Orange acrescenta a disponibilidade emocional, a compaixão e o acompanhamento dos sujeitos traumatizados pela violência, pela negligência e pela injustiça. Escutar exige reconhecer a alteridade do paciente e suportar ser afetado por ela.

A conquista pertence ao paciente. Mas contemplar alguém recuperando sua dignidade, seu desejo e alguma liberdade para viver também produz algo no psicanalista.

Negar isso não nos torna mais técnicos. Talvez apenas menos honestos.

REFERÊNCIAS

ARON, Lewis. A Meeting of Minds: Mutuality in Psychoanalysis. Analytic Press, 1996.

FERENCZI, Sándor. Diário clínico. 1932.

ORANGE, Donna M. Emotional Understanding. Guilford Press, 1995.

SHAW, Daniel. On the Therapeutic Action of Analytic Love. Contemporary Psychoanalysis, v. 39, n. 2, 2003.

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Curitiba, PR

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