Psicanálise na Prática

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02/10/2026

A exposição da intimidade nas redes costuma ser discutida como excesso, vaidade ou narcisismo. Mas talvez exista uma questão anterior: onde termina o sujeito quando parte de sua existência passa a acontecer permanentemente diante de uma audiência?

Didier Anzieu oferece uma imagem interessante para pensar isso. O Eu-pele funciona como um envelope psíquico: contém, delimita e permite diferenciar interior e exterior.

Não se trata, portanto, apenas da pele biológica, mas de uma função de contorno do próprio Eu.

As redes introduzem uma complicação contemporânea nessa fronteira. Fotografias, conflitos, maternidade, separações e sofrimento podem deixar de pertencer exclusivamente à esfera íntima e passar a compor uma espécie de corpo público digital.

Isso não permite diagnosticar alguém como narcisista porque expõe a própria vida. Seria uma simplif**ação. A questão que proponho no vídeo é outra: o que acontece com nossas bordas psíquicas quando reconhecimento, intimidade e presença passam a depender também de likes, comentários e compartilhamentos?

Talvez o problema não seja simplesmente estarmos “expostos demais”. Talvez seja precisarmos pensar que tipo de contorno conseguimos construir entre aquilo que pode ser compartilhado e aquilo que precisa continuar sendo nosso.

Referência citada no vídeo:

ANZIEU, Didier. O Eu-pele. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1989.

01/10/2026

O caso Amílcar Lobo não é apenas um episódio sombrio da história da psicanálise brasileira. Ele coloca uma questão que continua atual: o que acontece quando uma instituição preocupada em preservar a própria imagem passa a perseguir quem denuncia aquilo que ela deveria investigar?

Em 1973, a psicanalista Helena Besserman Vianna denunciou a participação de Amílcar Lobo, então candidato em formação na Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro, no aparato repressivo da ditadura. A história posterior mostrou que a denúncia não era um detalhe periférico: documentos oficiais registram o próprio depoimento de Lobo sobre o atendimento a Rubens Paiva, já gravemente ferido, poucas horas antes de sua morte sob custódia militar. Serviços e Informações do Brasil.

Mas há uma dimensão particularmente importante para a psicanálise: durante anos, a denunciante também se tornou objeto de investigação e constrangimento institucional. O episódio acabaria se transformando em uma discussão internacional sobre ética, silêncio institucional e as relações entre psicanálise e poder. PePSIC.

Talvez seja possível aproximar essa história daquilo que Ferenczi chamou de desmentido: não apenas a violência sofrida, mas a experiência de encontrar um outro que, diante dela, nega, desacredita ou se recusa a reconhecê-la.

Por isso, recuperar o caso Amílcar Lobo não é apenas falar sobre o passado. É perguntar o que fazemos, como psicanalistas e como instituições, quando reconhecer uma violência ameaça nossas próprias identif**ações, pertencimentos e interesses.

Para aprofundar:

VIANNA, Helena Besserman. Não conte a ninguém...: contribuição à história das sociedades psicanalíticas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Imago, 1994. É provavelmente a referência mais diretamente ligada ao episódio e à denúncia de Helena. AUPPF.

COIMBRA, Cecília Maria Bouças. Guardiões da ordem: uma viagem pelas práticas psi no Brasil do “milagre”. Rio de Janeiro: Oficina do Autor, 1995. AUPPF.

KATZ, Chaim Samuel. Ética e psicanálise. Rio de Janeiro: Graal, 1984.

30/09/2026

Lélia Gonzalez nos obriga a pensar uma questão incômoda para a clínica: é possível escutar um sujeito ignorando as estruturas sociais que também participam da constituição do seu sofrimento?

Quando Lélia formula conceitos como “pretuguês”, “amefricanidade” e “neurose cultural brasileira”, ela não está apenas descrevendo o racismo como preconceito entre indivíduos. Está interrogando aquilo que a própria cultura brasileira reconhece e, simultaneamente, tenta negar sobre sua constituição negra e indígena.

Isso interessa diretamente à psicanálise.

Uma escuta que toma a experiência europeia como medida universal do sujeito corre o risco de transformar diferenças históricas, culturais e raciais em questões exclusivamente individuais. E, nesse movimento, aquilo que deveria ser escutado pode acabar sendo novamente silenciado.

Por isso, conhecer Lélia Gonzalez não signif**a simplesmente acrescentar uma autora brasileira à bibliografia. Signif**a perguntar de que Brasil estamos falando quando praticamos psicanálise no Brasil.

Para continuar a leitura

GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, ANPOCS, 1984.

GONZALEZ, Lélia. A categoria político-cultural de amefricanidade. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, n. 92/93, 1988.

GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

29/09/2026

A ideia de que alguém precisa “aprender a se amar” costuma transformar em tarefa individual algo que foi construído nas relações.

A maneira como nos tratamos, aquilo que acreditamos merecer e até a violência com que reagimos às próprias falhas carregam marcas dos encontros que nos constituíram.

Winnicott oferece uma pista importante: até a capacidade de estar só é construída na presença de um outro confiável.

Talvez, então, aprender a se amar não seja repetir diante do espelho que você é incrível. Pode ser conseguir não se abandonar quando falha, não precisar ser perfeito para preservar um vínculo e descobrir que frustração não signif**a necessariamente rejeição.

É também por isso que a relação analítica importa. O setting não apenas revela uma história: ele permite que certas formas de se relacionar sejam experimentadas, reconhecidas e elaboradas.

Referência bibliográf**a
WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

25/09/2026

IA é muito mais perigosa quanto você pensa ao ser usada como agente terapêutico.

Um estudo publicado na revista Science, por Myra Cheng e colaboradores, investigou como a concordância excessiva da inteligência artificial pode influenciar nossos julgamentos.

Em três experimentos com 2.405 participantes, interagir com uma IA excessivamente concordante aumentou a convicção de estar certo e reduziu a disposição para assumir responsabilidade e reparar conflitos interpessoais.

O resultado ajuda a pensar um risco do uso de chatbots para aconselhamento pessoal: receber validação pode fortalecer nossa versão dos acontecimentos e diminuir a abertura para reconsiderá-la.

A pesquisa avaliou julgamentos e intenções nas situações estudadas. Não demonstrou que o uso de IA provoque narcisismo ou mudanças permanentes na personalidade.

Referência: Cheng, M. et al. Sycophantic AI decreases prosocial intentions and promotes dependence. Science, 2026.

25/09/2026

Onde podemos chamar de casa?

Essa pergunta parece simples, mas talvez diga muito sobre a qualidade dos afetos que construímos ao longo da vida.

Em The Walking Dead, Daryl passou boa parte da própria história se deslocando. Ele corre, luta, protege, resolve. E, justamente quando cria vínculos fortes, aparece novamente a necessidade de partir. Em determinado momento, ele próprio percebe: passou a vida tentando voltar para casa, mas toda vez que chega a algum lugar sente que precisa ir embora.

Talvez esteja aí uma questão interessante: pertencer não é simplesmente permanecer em algum lugar.

Podemos morar durante anos numa casa e continuar nos sentindo estrangeiros dentro dela. Podemos estar cercados por pessoas que nos acolheram e, ainda assim, experimentar a sensação de que aquele lugar que chamaram de “nosso” nunca chegou propriamente a nos pertencer.

E o contrário também acontece.

Às vezes, encontramos em alguém uma experiência que se parece muito mais com casa do que qualquer endereço.

Na leitura que proponho no vídeo, Daryl aprendeu muito cedo a sobreviver pelo movimento. Ferenczi nos ajuda a pensar como determinadas adaptações construídas diante do perigo podem permanecer mesmo quando aquilo que originalmente as tornou necessárias já não está presente. Sobreviver pode exigir aprender a fugir. O problema é quando fugir continua sendo a única maneira conhecida de se sentir seguro.

Por isso, talvez Daryl não esteja apenas procurando onde f**a sua casa. Talvez esteja tentando descobrir se é possível ter uma casa sem precisar fugir dela.

Pertencimento pode ser justamente essa experiência: encontrar um vínculo no qual permanecer não signifique f**ar aprisionado, no qual a proximidade não exija defesa permanente e no qual alguém conheça algo da nossa história e, ainda assim, continue ali.

Talvez a pergunta, então, não seja apenas “onde é a minha casa?”

Mas: “onde, e com quem, eu consigo permanecer sem sentir que preciso fugir?”

21/09/2026

A fantasia do analista neutro exige uma cena impossível: duas pessoas se encontram, mas apenas uma delas participa emocionalmente da relação.
A noção clássica de contratransferência ainda carrega algo dessa psicologia da mente isolada.

O paciente transfere; o analista observa. Quando algum afeto aparece no analista, ele seria apenas uma reação ao paciente ou um ruído capaz de comprometer sua neutralidade.

Donna Orange, importantíssima psicanalista da escola americana de psicanálise, propõe a cotransferência para romper com essa lógica. A subjetividade do analista já participa do encontro antes mesmo que ele perceba. Sua história emocional, suas teorias e seus modos inconscientes de organizar a experiência interferem naquilo que poderá ser escutado, compreendido e interpretado.

Essa participação é pré-reflexiva e inevitável. O analista não observa primeiro para depois entrar no campo clínico. Ele participa de sua constituição desde o início.

Isso não transforma tudo o que o analista sente em uma verdade sobre o paciente. Orange preserva o termo contratransferência para momentos mais específicos, nos quais conflitos e defesas do próprio analista bloqueiam sua disponibilidade emocional.

A cotransferência é a participação contínua; a contratransferência, o bloqueio que precisa ser reconhecido e elaborado.

Análise pessoal e supervisão não eliminam a subjetividade do analista. Ajudam a impedir que ele a utilize de maneira cega.

O analista nunca está fora da cena. A responsabilidade clínica começa quando ele reconhece que também participa de sua construção.

Você já havia pensado nessa diferença?

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Referência:
ORANGE, Donna M. Emotional Understanding: Studies in Psychoanalytic Epistemology. New York: Guilford Press, 1995.

18/09/2026

Uma pessoa pode estudar durante anos o que é uma interpretação. Mas há algo que ela só descobre quando precisa dizer, na própria análise, aquilo que passou a vida inteira tentando não dizer.

O silêncio do analista, então, deixa de ser um conceito. Pode abrir espaço, produzir angústia ou ser vivido como abandono. Uma intervenção aparentemente simples pode continuar trabalhando muito depois da sessão. E o futuro psicanalista aprende algo fundamental: **a técnica nunca chega ao paciente separada da relação em que acontece.**

Os percursos de Wilfred Bion, Melanie Klein, Sándor Ferenczi, Karl Abraham, Donald Winnicott, John Bowlby e Joan Riviere ajudam a pensar essa transmissão. Nenhum deles recebeu uma técnica pronta do próprio analista. Cada um também teve de elaborar, criticar e encontrar uma posição clínica própria a partir do que viveu.

Freud é preciso em *Análise terminável e interminável* (1937): a análise pessoal oferece ao futuro analista uma **primeira amostra da técnica**. Uma amostra não basta para concluir a formação. Ela inaugura um trabalho que continua no estudo, na supervisão e, sobretudo, no modo como o analista responde quando um paciente o afeta, o contraria ou lhe mostra um erro.

Por isso me incomoda a formação anunciada como soma de horas. O número pode registrar a frequência de uma experiência. Não consegue dizer se alguém pôde se implicar nela.

O que você aprendeu sobre escuta ao ocupar o lugar de analisante?

**Referência citada:** FREUD, Sigmund. *Análise terminável e interminável* (1937), seção VII. [Consulte o texto em inglês](https://winnicottisrael.com/wp-content/uploads/2024/03/Sigmund-Freud_-1937-Analysis-Terminable-and-Interminable.pdf).

13/09/2026

Mais um vídeo postado inicialmente em 2025 na outra rede social ao qual tenho uma trajetória maior de postagens. Esse vídeo mostra como lidar com a transferência erótica de forma técnica sem repetir traumas de rejeição.

Importante falar disso porque como estamos vivendo tempos esquisitos, vale a pena abordar o assunto até para quem não tem letramento sobre as posições éticas a serem sustentadas no setting.

O psicanalista não pode demonstrar fragilidade porque a própria transferência erótica é um caminho técnico para o manejo. Portanto, compartilho esse vídeo para que você possa produzir seus insights.

Comente aqui. Salve esse vídeo, reposte, compartilhe e me ajude a ocupar os espaços que hoje são ocupados pela desinformação e pela antipsicanálise. E segue aqui que vai dar bom.

11/09/2026

Em “Não Olhe para Cima”, o cometa está no céu. A realidade pode ser verif**ada. Mesmo assim, há quem invista dinheiro, autoridade e energia para convencer as pessoas de que olhar é o verdadeiro problema.

Essa talvez seja uma das formas mais perigosas de alienação do nosso tempo. Não é simplesmente desconhecer a verdade. É reconhecer que ela está ali e, ainda assim, escolher uma mentira mais confortável.

Quando fatos e provas ameaçam os interesses de quem tem poder, o alvo deixa de ser a informação. Passa a ser quem aponta para ela. Essa pessoa é desacreditada, perseguida e, se possível, impedida de falar. Só que impedir alguém de falar não modif**a os fatos sobre os quais essa pessoa falaria.

Estou vivendo uma situação estranha diante disso. Existem coisas sobre as quais, neste momento, estou impedido de falar. Respeitarei esse impedimento e apresentarei minha defesa no espaço adequado. Mas silêncio não altera a realidade. Proibir alguém de apontar para o céu não dissolve o cometa que está vindo em direção à Terra.

A realidade vem e massacra a fantasia.

Quando existe tanto interesse para que você não olhe para cima, o que se torna tão perigoso quando você finalmente olha?

Salve, compartilhe e reposte este vídeo para fortalecer esta discussão. Aproveite também para conhecer e seguir o trabalho do Bruno em Bruno Beraldo | Psicólogo de Relacionamentos.

Referências:

ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

FREUD, Sigmund. A negação (1925). In: Obras completas, volume 16: O eu e o id, “Autobiografia” e outros textos. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

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Curitiba, PR

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