Ato analítico

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Oliver Schmidt - CRP-08/21646
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14/11/2024

Mercado do Saber
Para entender a metáfora do mercado do saber, pense em uma grande feira onde ideias e conhecimentos são como produtos que as pessoas querem comprar. Na psicanálise, esse "saber" é o desejo de compreender a si mesmo, de ter respostas sobre o inconsciente, de entender o próprio sofrimento. O sujeito chega à análise como um comprador, esperando encontrar algo valioso que explique seus sintomas. Ele quer "comprar" o saber do analista, acreditando que este detém as respostas.

No entanto, Lacan subverte essa expectativa. O saber na psicanálise não funciona como uma mercadoria comum que você pode simplesmente adquirir. Ao contrário, o saber é algo que se constrói na própria experiência analítica, e não pode ser entregue como um produto pronto. É como se o analista dissesse ao paciente: "Aqui não vendemos respostas, mas ajudamos você a construir suas próprias perguntas."

Greve da Verdade
Agora vem a parte mais complexa: a "greve da verdade". Lacan nos leva a pensar que, assim como em um mercado, pode haver uma greve de trabalhadores, também pode haver uma "greve da verdade". Imagine que a verdade, nesse contexto, é como um trabalhador essencial que decide parar de trabalhar. O que acontece quando a verdade se recusa a aparecer? No ato analítico, isso signif**a que a verdade não pode ser encontrada nas palavras prontas, nas interpretações fáceis ou nas explicações rápidas. É como se a verdade se escondesse e se recusasse a ser revelada, criando uma espécie de vazio ou silêncio.

Esse vazio não é um problema; na verdade, é uma parte essencial do processo. Quando a verdade faz "greve", ela força o sujeito a confrontar a falta, a inconsistência no próprio saber. Em vez de obter respostas claras e confortáveis, o sujeito se vê diante do que Lacan chama de "furo" no saber. É como ir a uma feira em busca de um produto e descobrir que ele não está à venda porque não existe — e essa ausência é, em si, uma revelação.

O Paradoxo do Ato Psicanalítico
A "greve da verdade" também nos mostra o paradoxo do ato psicanalítico: o analista não está lá para "dizer a verdade" ao paciente, mas para criar as condições em que o próprio paciente possa confrontar suas lacunas e contradições. Imagine o analista como um diretor de teatro que não dá as falas aos atores, mas os deixa improvisar para que descubram suas próprias palavras. A verdade surge não como algo transmitido pelo analista, mas como algo que emerge das brechas, dos silêncios e dos tropeços do sujeito ao falar.

A Inversão do Saber
Em última análise, Lacan nos mostra que o saber não está do lado do analista, mas do lado do próprio inconsciente do paciente. É o inconsciente que sabe, mas esse saber é fragmentado, dividido e muitas vezes enigmático. Quando Lacan fala de "mercado do saber", ele ironiza a ideia de que o saber poderia ser consumido ou vendido como um produto de fácil acesso. E a "greve da verdade" subverte a expectativa de que a análise vá fornecer respostas diretas — ao invés disso, ela revela o lugar da falta, onde o saber se mostra inconsistente.

Em resumo, esse ponto é uma crítica à busca de saber imediato e ao desejo de respostas fáceis. Lacan nos lembra que o ato analítico não entrega a verdade de bandeja; ele a faz "entrar em greve", criando espaço para que o sujeito possa confrontar o vazio e, a partir disso, encontrar sua própria verdade.

13/11/2024

Pedi para o chat GPT explicar de forma detalhada sobre um capítulo de minha dissertação, mas de uma maneira que parecesse uma conversa de bar com um amigo. A quem quiser, se divirta:

Cara, então, o Seminário 10 de Lacan é sobre a angústia e o tal do objeto a, que é tipo a joia rara e intangível da psicanálise. É aquele negócio que todo mundo quer, mas nunca ninguém realmente pega, sabe? Como se fosse aquele crush impossível ou o pote de ouro no final do arco-íris – quanto mais você corre atrás, mais ele parece se afastar.

Só que Lacan faz uma sacada que é mais ou menos assim: ao contrário do que a gente pensa, a angústia não vem quando o que a gente quer não está lá. Não é aquela dorzinha de "ah, queria tanto e não consegui". Na verdade, a angústia bate é quando o que a gente quer aparece, e aparece demais! Sabe aquele frio na barriga quando você tem uma oportunidade muito grande ou quando vê o crush chegando de surpresa? A coisa tá ali, de frente pra você, mas é tão esmagadora que você até se sente sufocado. É quase como se o objeto do desejo estivesse invadindo seu espaço pessoal.

A angústia é tipo aquele "calafrio na espinha"
Imagina, por exemplo, que você tá na praia relaxando e, de repente, alguém coloca um holofote gigante em você. Você não pediu pra ser o centro das atenções, e aí bate aquela sensação de desconforto, porque é como se o olhar das pessoas te engolisse. Esse "holofote" é um jeito de entender o objeto a – ele é uma presença incômoda, algo que deveria f**ar só no campo do desejo, na imaginação, mas que, quando chega muito perto, mexe com você de um jeito bizarro. Você não consegue ignorar, e é isso que gera a tal da angústia.

Lacan diz que a angústia é um sentimento que "não engana". Diferente de outros sentimentos que você consegue distorcer ou interpretar de várias formas, a angústia é o sinal mais claro de que tem alguma coisa no ar, uma verdade crua que não dá pra escapar. É aquela sensação no estômago que aparece do nada, que não te deixa disfarçar. E sabe o que provoca essa sensação? A presença do tal "objeto a" – que é uma espécie de "espelho do desejo" que você nunca vê por completo, mas que, quando aparece, te desestabiliza total.

A angústia é o "presente demais" – tipo uma festa surpresa que você não queria
Vou te dar outro exemplo: imagina que você entra em casa depois de um dia exaustivo, só querendo relaxar, e pá, seus amigos armaram uma festa surpresa. Beleza, o pessoal que você gosta tá lá, tudo o que você precisa pra se divertir tá ali, mas a sensação imediata não é alegria, é uma mistura de choque e desconforto. Você pensa: "Eu não estava pronto pra isso." E essa é a pegada da angústia em Lacan. O "objeto a" (o que causa o desejo) tá ali, na sua cara, mas de um jeito que te sufoca, porque ele chega sem pedir licença, do nada, te atropelando.

Aí que entra o ponto: o objeto a é aquela parte do desejo que, no fundo, a gente quer manter um pouco distante, sabe? É quase como o jogo da caça: você quer ver a presa, mas de longe. O problema é quando ela chega tão perto que você perde o controle da situação. É aí que o desejo vira angústia.

Lacan diz que a angústia não é falta, é excesso
Freud achava que a angústia vinha da falta de algo – tipo você se sentir "castrado", sem o que precisa para se satisfazer. Mas Lacan vem e fala: "Na-na-ni-na-não! A angústia é o contrário, é o excesso." É como se o desejo, que deveria ser uma faísca lá longe, estivesse em cima de você como um incêndio de proporções gigantescas. E essa chama te queima, porque ela é real demais.

Imagina que você tem um palco na sua cabeça e que seu desejo normalmente vive lá no fundo, meio na penumbra, sem realmente brilhar. Quando o "objeto a" chega com força total, é como se uma luz estourasse no palco, revelando o que você queria, mas não queria tanto assim que estivesse na sua cara. Esse desejo ali na sua frente é o que provoca angústia.

O gozo é quando o desejo vira uma loucura insuportável
Outra coisa que Lacan puxa nesse seminário é o conceito de gozo. Esse "gozo" não é o prazer do tipo "curti pra caramba, que massa", é um prazer que tá no limite entre o bom e o insuportável. É quando a coisa que você deseja f**a tão presente, tão intensa, que ultrapassa o limite do que você pode suportar – tipo comer uma picanha maravilhosa, mas acabar tão cheio que você quase passa mal. O gozo é aquele "prazer que dói", entende?

O "objeto a" é o que provoca esse tipo de gozo. Ele é o que te faz querer mais e mais, mas ao mesmo tempo te lembra que esse "mais" vai te custar caro. Por isso, o desejo é algo que sempre precisa de uma barreira, algo que o mantenha um pouco à distância. Se o objeto vem demais, o gozo vira angústia, porque ultrapassa o seu limite de prazer e vira quase uma dor psíquica.

Castração e a "falta" no Outro
Lacan também fala da famosa castração. Mas ele não tá falando literalmente, né? Castração, aqui, é perceber que nem você, nem o Outro (a sociedade, a linguagem, as normas) são completos. É como perceber que o "Outro" (tudo que você projeta fora de si, como se fosse algo maior, como as normas, a cultura, os pais) também tem suas falhas, suas ausências. Essa descoberta traz angústia porque te faz perceber que não há uma "ordem absoluta" que te protege. Nem o Outro é completo, então, quem dirá você!

Isso é o que ele chama de S(Ⱥ) – o Outro barrado. O Outro não pode te dar todas as respostas nem te preencher completamente. E quando você percebe isso, sente a angústia de não ter uma "rede de segurança" infalível para seus desejos.

Angústia e Desejo – o truque está na distância
O mais interessante é que Lacan mostra que a angústia e o desejo têm uma relação esquisita. A gente acha que sentir angústia é estar distante do que quer, mas na verdade ela aparece quando o que a gente quer chega perto demais, quando o objeto do desejo vira quase uma presença sufocante. É por isso que o desejo só se mantém vivo se houver sempre um pouco de distância, uma dança entre se aproximar e se afastar do que a gente quer.

Quando a fantasia do que desejamos f**a distante, o desejo se mantém vivo e interessante. Mas, quando essa fantasia é invadida pelo objeto real, a ilusão se quebra, e é como se estivéssemos diante de um monstro, o “objeto a”, que provoca essa angústia genuína e inevitável.

Então, resumindo essa conversa de bar: a angústia lacaniana não é a ausência do que queremos, mas a presença demais. O "objeto a" é esse ponto-chave que a gente nunca consegue pegar completamente, mas que não nos deixa em paz. E a castração é perceber que nem o Outro, nem ninguém pode preencher essa falta que nos faz desejar. É essa estrutura que move o desejo humano – uma busca eterna que nunca se resolve e que, no fundo, mantém a gente vivo e em movimento.

06/11/2022

Afinal, pra quê serve uma análise? Dou uma resposta curta e direta: para desconstituir o sujeito suposto saber. É esta a finalidade de uma análise, todo o seu percurso se encaminha para isso. Mas o que é o sujeito suposto saber? É possível pensá-lo de várias formas, e em diversos campos, mas para tentar dar uma imagem dele, para que possamos reconhecê-lo, vamos tentar associar com algumas palavras: trata-se do lugar da Verdade (toda, absoluta), trata-se do lugar da certeza, ou do lugar do Deus onipotente, ou de um sujeito que escape à castração, ou que comporte o brilho que aponta para algo além daquilo que se apresenta na realidade. Quando nos fazemos sujeitos, renunciamos a algo essencial para entrar na realidade, perdemos, como se diz, uma libra de carne que jamais poderemos reecuperar. Porém tudo que vivíamos como algo 'fantástico', místico, sobrenatural, paranormal, tudo que aponte para o sublime, para o mistério, para a perfeição, tudo isso se reduz a determinados pontos, que fazem parte da realidade mas que apontam para um além dela, para um além disto que vivemos no aqui e agora, que nos trazem um pedacinho daquele ser completo e grandioso que acreditamos ter tido contato antes de subjetivarmos esta perda. Trata-se do 'objeto a'. Todo o problema do neurótico é acreditar que o objeto a, na verdade, nós não temos, mas este sujeito suposto saber tem, ou sabe como consegui-lo. Aí está o engano. E por quê uma análise se encaminha para a destituição do sujeito suposto saber? Porque todo o sofrimento neurótico gira em torno desta figura. Desconstitui-lo é saber que não há um saber total em algum lugar. Pense no saber científico: é um saber chato, desencantado, sem graça, não se trata de um saber que nos preenche enquanto sujeitos, é um saber que se faz dentro de um método, que se faz em determinadas condições, que é incompleto, parcial, que está aberto ao diálogo, que se faz dentro de uma comunidade científ**a, que é posto em debate com os pares, é um saber destituído de uma "Revelação", de uma mística, de algo sobrenatural ou fantástico, não revela nenhuma moral, não nos orienta em nada na vida, é um saber 'bruto'. Da mesma forma, no campo político, a democracia é sem graça também, nos queixamos o tempo todo de que ela não funciona como queríamos, temos sempre de renunciar a algo e nunca é da forma como queríamos que fosse, não conseguimos fazer a coisa funcionar 'na marra', não há esse lugar do Poder Soberano, cada um cede de algo; digamos que, quando a democracia funciona bem, todos perdem algo no final. O que seria a figura do suposto saber na ciência ou na democracia? Na primeira, seria o saber religioso, seriam as teorias conspiratórias, seriam as crenças, as certezas que não entram em dialética com o outro, que não são permeáveis, que não dialogam, que são fixas, que excluem o debate com os pares, apontam para o inefável, o indizível, aquilo que apenas 'se sente', aquilo que apenas 'se sabe', que não necessita de demonstração, que não necessita de se dar provas. Ou seja, ao invés de saber, trata-se do lugar da certeza. Na democracia, seria o autoritarismo, o totalitarismo, a volta do Poder Soberano, aquele que se mistura com o lugar do Pai, que se mistura com paixões, como o amor, a vingança, o ódio; o lugar daquele que se idolatra, que se fantasia, que ocupa este lugar de exceção, o ser não castrado, aquele que não cede, que não necessita se curvar aos demais, que não necessita renunciar a nada. Da mesma forma, a desconstituição do sujeito suposto saber dentro do campo da psicanálise também traz a marca não exatamente da insatisfação, mas do desencantamento. Trata-se do sujeito que já perdeu aquela fantasia de que, se não pular 5 vezes, algo terrível lhe irá acontecer, e que sempre lhe dava um gostinho de que há algo a mais na realidade e que lhe angustia; ou daquele sujeito que já não espera demais de seu parceiro amoroso, que não necessita mais da romantização própria ao campo do amor, já não vive nem tão ciumento, nem tão loucamente apaixonado; ou do sujeito que já não vive deprimido por não ter alcançado o ideal de ser humano que esperava ter sido, e que se contenta com o que está aí, com o que se fez e com o que ainda poderá fazer; ou do sujeito que já não se angustia ao ter de se apresentar, ou se expor diante dos outros, porque já não espera mais tanto do que irá dizer, nem se importa tanto com o que, do que disse, os outros ouviram, isto é, sabe que na melhor das hipóteses não haverá reciprocidade. Trata-se de um sujeito que não necessita que a conta se feche, que a chave entre na fechadura, que as coisas entrem em equilíbrio, que haja harmonia, que os conflitos deixem de existir; ou que não acredita mais numa suposta maturidade ou ideal que deveria alcançar, que consegue questionar os discursos que sustentam os pontos supergoicos, de 'como as coisas deveriam andar', de 'como as coisas deveriam ser feitas', de 'como eu deveria ser', isto é, discursos que sustentam a figura do sujeito suposto saber. É um sujeito que consegue sustentar um vazio neste lugar onde parecia que deveria haver, afinal, alguma coisa 'a mais', aquele brilho que, ainda que trouxesse angústia e medo, lhe dava a esperança de viver algo que está fora de toda realidade possível. É um sujeito que está advertido de suas romantizações, que consegue vivenciá-las, mas que não se engana com elas.

Oliver Schmidt

11/07/2022

É possível teoricamente pensar que o psicótico chega a se encontrar com a castração do Outro. A princípio isto não faria sentido, na medida em que ele não passa pelo complexo de castração, tal como o neurótico. Entretanto, podemos pensar que o psicótico se encontra com esta castração, se encontra com a incompletude do Outro, mas não avança para a etapa de construir o fantasma. Justamente por isso, estes encontros são os momentos fecundos para o desencadeamento da psicose. O psicótico se encontra com a incompletude do Outro, mas não tem recursos simbólicos para se sustentar enquanto sujeito, tal como o neurótico se utiliza do fantasma. O neurótico consegue reduzir o abismo da incompletude do Outro, este infinito que se abre, a um 'objeto a' que lhe falta. Podemos tomar como um recurso didático o quebra-cabeça: é como se faltassem algumas peças no quebra-cabeça, e o psicótico, por conta disso, desorganizaria completamente a imagem pois não conta com uma referência para ordenar as peças: a peça faltante faz com que as outras possam se movimentar entre elas e se ordenar de uma forma completamente diferente. Já o neurótico consegue montar uma imagem unif**ante, deixando vazio o lugar onde ele acredita estar faltando peças, quer dizer, ele conta com a ideia da totalidade da imagem para, a partir dela, localizar onde estão as peças 'faltantes'. Um dos poucos recursos de que o psicótico pode se utilizar para manter coerente o imaginário do quebra-cabeça é o que chamamos de suplências imaginárias, isto é, é possível que o encontro com a incompletude do Outro não o desorganize completamente, mas ele não mantém seu imaginário a partir de uma referência simbólica da totalidade da imagem, mas simplesmente porque copiou peça por peça de algum lugar, ou colocou elas daquela forma porque alguém lhe disse para colocar ali.

Oliver Schmidt

galera, tá liberado marcar bar cos colega psicanalista e f**ar pirando em Lacan, faz parte da formação. Grande abraço!
13/12/2021

galera, tá liberado marcar bar cos colega psicanalista e f**ar pirando em Lacan, faz parte da formação. Grande abraço!

cada um sabe o TAMANHO DA MANDIOCA com que tá lidando, chega dessa baboseira cósmica, leve sua saúde mental a sério, não...
05/12/2021

cada um sabe o TAMANHO DA MANDIOCA com que tá lidando, chega dessa baboseira cósmica, leve sua saúde mental a sério, não se contente com frases baratas de autoajuda.

29/11/2021
GATOS SÃO CACHORROS ANALISADOS?Oliver: Hoje eu estava pensando que minha gata parece mais adulta do que eu. Eu nunca pen...
22/11/2021

GATOS SÃO CACHORROS ANALISADOS?

Oliver: Hoje eu estava pensando que minha gata parece mais adulta do que eu. Eu nunca pensei isso dos meus cachorros. Ela é tão segura de si. Ela não acha que existe O objeto de desejo dela, ela sabe que o Outro não vai atender à demanda dela. Então ela sai por aí pelas ruas, transa com o gato branco que anda por aí, eles saem pra uns lugares, fazem coisas aí que ninguém sabe, e que ela não conta pra ninguém porque não precisa do reconhecimento dos outros.

Tiago: Claro que ela sabe. Acho que cachorro não tem mais objeto de desejo, mas gato deve funcionar no registro do imaginário ainda. Ela não tem conflito e não é infantil porque é selvagem, tão somente. O objeto dela existe, já os cachorros são estabanados porque são humanizados.

O: Mas veja, se um cachorro fizer uma cagada, ele já f**a todo arrependido, f**a se culpando, tem um superego tenso, cachorro é neurótico, gato não.

T: Sim, humano. Gato não tem simbólico, esse é o problema. Você vê emoção em um gato? O olhar é sempre o mesmo, estático, é igual o olhar de todos os predadores, ursos e leões.

O: É verdade, é mais difícil ver emoções neles do que nos cachorros. Mas isso é porque eles não mudam a emoção de acordo com o que a gente espera, eles não querem agradar ninguém!

T: Cachorro ri, chora, f**a com as duas patinhas em pé quando a gente chega em casa, f**a dando pulos.

O: Sim, super bobos, dependentes. Não que eu não goste, acho legal, mas gato tem algo de interessante. Minha gata f**a colocando a patinha em mim pra pedir carinho, mas depois ela pode ir embora, ele não acha que carinho é signo de amor, ela só curte o carinho e pronto! Se eu não der, ela não vai se sentir abandonada ou rejeitada, não vai f**ar chorando pelos cantos achando que ninguém a ama.

T: O gato não conhece o amor.

O: Eu acho que conhece, mas deve ser um amor ateu! O gato sabe que não existe relação sexual!

T: Cara, aí é que tá, pro gato existe relação sexual.

O: Por quê?

T: Porque ela se dá através do imaginário. O gato não passou pela castração, no gato o amor objetal e o amor narcísico são o mesmo porque o rapport sexual se dá através do imaginário, da dança, do rabo erguido e tal, então a libido do eu e a libido sexual são a mesma coisa.

O: Isso tudo é cinismo de fim de análise! O gato só f**a com rabo erguido e essas coisas apenas pra conseguir o que ele quer, ele sabe que é tudo um jogo, que tudo não passa de imagens, ele só faz isso pra poder entrar na fantasia da gata, sabe que é tudo fake, mas já que a gata precisa disso pra poder se interessar por ele, ele faz.

T: Já o cachorro já foi um pouco castrado. Gato é todo narcísico por quê? Porque não passou pela castração, está inteiramente no imaginário. Imaginário = narcisismo. É claro que ele vai parecer maduro, ele não tem sintoma.

O: Ou pode ser que ele justamente tenha abandonado o narcisismo, e por isso mesmo não precise f**ar querendo ser o falo do Outro, já renunciou a isso! Por isso a gente pensa que ele é narcisista, que não está nem aí pra ninguém. Mas na verdade é porque faz com que a gente mesmo sinta que ele é não-todo nosso! Ele inverte a relação, nós é que queremos ser amados pelo gato!

T: Amar um gato e querer ser retribuído é como amar uma árvore e achar que a natureza nos ama, coisa de hippie, coisa de estudante de ciências sociais ingênuo.

O: Sim, então, ele mostra pra gente que é tudo nossa projeção, atesta nossa própria neurose, está numa posição feminina, que é a mesma que a posição do analista! Ele faz semblante de objeto a, não conseguimos sacar qual que é a do gato, ele é como um ponto de real, um pouco inapreensível, inassimilável...

Enfim, caros leitores, acho que estamos num impasse: o gato é um animal que terminou a análise, ou é um animal que nem chegou a se neurotizar?

ES OTROA neuroseO neurótico, especialmente o obsessivo, mas não apenas ele, está convicto de não ser nada por nunca ter ...
08/11/2021

ES OTRO

A neurose

O neurótico, especialmente o obsessivo, mas não apenas ele, está convicto de não ser nada por nunca ter conseguido ser o que deveria. Se enxugarmos as lamúrias de todos os consultórios ao seu comum denominador, diremos que o neurótico sofre porque ainda não é; porque sempre não é ou não é suficientemente; porque já era; porque foi e quer ser novamente; enfim, porque o ser lhe falta.
O obsessivo cuida de manter-se culpado, em falta. Ou então, quem manda é o Outro, e se trata de histeria. Duas estratégias para encontrar uma razão da falha inexplicável na ordem das coisas, que somos, e que nos revela sem propósito. A sem-razão está na entrada de qualquer consulta ao analista: deixei minha família por aquela ordinária; sacrifiquei minha poupança em vão; padeço por nada. Se tudo correr bem, descobrirá que sua vida é um acidente (mesmo, e sobretudo, tendo sido uma criança bem planejada pelos pais). Estar aqui porque sim, por nada em especial, é nisso que consiste a falha no ser do sujeito, ela própria injustificável. A única e inalienável particularidade que possui é sua pena. Mais nada. Sua esquisitice é sua diferença específ**a e seu único patrimônio. O modo como falha em "ser" é tudo que tem para justif**ar uma existência, de qualquer ponto de vista, insensata. Quem sabe a melhor definição para a famigerada assunção da castração seja esta: abrir mão do defeito como brasão, suportar-se injustificável. Refugiar-se no determinismo inconsciente pode ser o último álibi para não ter que responder pela esquisitice e encontrar uma razão de ser. Nenhum determinismo fará dele um inocente, porém.

Ricardo Goldenberg - No círculo cínico

Nós temos um problema quando tentamos fazer psicanálise na saúde mental pública do Brasil. Digo isso porque, no curso de...
04/09/2021

Nós temos um problema quando tentamos fazer psicanálise na saúde mental pública do Brasil. Digo isso porque, no curso de psicologia, geralmente estudamos autores de outros países, com outras condições sociais, e quando atendemos uma população brasileira mais vulnerável socioeconomicamente, acaba sendo uma espécie de ‘insight’ ou de ‘descoberta’ perceber o quanto as questões subjetivas aqui no Brasil passam pelas questões sociais, o quão relevantes elas são para compreender o dinamismo subjetivo de nossos pacientes. Então, de certa forma, para quem trabalha com a saúde mental pública, um dos primeiros passos é dar condições ao paciente se subjetivar considerando e reconhecendo as condições sociais nas quais ele vive, isto é, nomeando-as, inserindo-as em um contexto maior, político e econômico, e as situar neste panorama. É claro que, para além disso, há muito mais o que se fazer. Mas é como se aqui no Brasil, o inconsciente destes sujeitos fosse externo, é preciso esta leitura das condições sociais nas quais elas vivem, e ‘levantar o recalque’ é, de certa forma, fazê-las perceber o sofrimento que suportam ao se subjetivar de forma neoliberal, isto é, individualista, em que se vêem impotentes por culpa própria, em que são vítimas de violência por motivos contingentes e não estruturais, e assim por diante. Penso que não há como existir psicanálise para aqueles que são realmente oprimidos pelo sistema. Como você vai trabalhar com o inconsciente de um sujeito enquanto ele vive ameaçado concretamente dizendo que a polícia arrombou sua casa de madrugada à procura de traf**antes, que viu familiares e amigos morrendo do seu lado de forma violenta, que acha que seu problema com as dr**as é falta de vergonha na cara, mas passou a vida sendo abusado, explorado, violentado, silenciado? É preciso ser muito cego para dizer que as queixas na favela são as mesmas que de qualquer outro paciente no consultório, que formalmente há uma equivalência entre elas, que o sujeito de que se trata é o mesmo. Há um trabalho a priori a ser feito, poderíamos dizer que devem existir as questões preliminares a todo tratamento possível destes sujeitos - que eu não pretendo rotular. Não se trata de dizer que é preciso destruir o capitalismo para acabar com a neurose, mas é preciso sustentar um discurso que vá na contramão da subjetivação fornecida pelos discursos neoliberais. É assim que entendo o discurso do analista: a produção de um discurso novo, que se diferencie do discurso do inconsciente e que, justamente por isso, o permita lê-lo. Não tem a ver com se responsabilizar, não tem a ver com ‘mudar’ ou ‘tomar uma atitude’, não tem a ver com deixar o lugar de vítima do destino. Às vezes é justamente reconhecer o lugar de vítima que é preciso alcançar, às vezes é preciso estimular a revolta contra os outros concretos ao invés de apontar para uma suposta projeção, às vezes é preciso lembrar que se está diante de um caso não de ‘recalque’, mas de repressão propriamente dita.

Oliver Schmidt

22/07/2021

Conversando sobre a cientificidade da psicanálise...

T: (...) O problema é que a psicanálise, majoritariamente, pediu lugar de exceção entre as disciplinas universitárias, declarou-se uma não psicologia e não se pensa como uma ciência, isso é o mesmo que dizer que não faz parte desse mundo. Aí quando alguém desde um ponto de vista científico diz que a psicanálise tá ultrapassada, não tem muito do que reclamar, né? O projeto epistemológico freudiano virou ficção científ**a mesmo. Mas tudo bem também né. Lembro de um vídeo do Juan em que ele diz que um padeiro não é cientista nem aprende a fazer pão na universidade, o que não impede que existam ótimos padeiros.

O: o quê define um ótimo padeiro? Ou um ótimo pão? Será que varia de pessoa pra pessoa? Ou tem um certo espectro no qual as pessoas em geral consideram bom e em geral consideram ruim? Seria a gastronomia uma pura arte?

T: Haha, vamos enlouquecer essa metáfora pra f**ar mais dilmês: dizem que pão e s**o, até quando é ruim, é bom. Por isso não existe pão bom, ou pão ruim, ou pão bom e pão ruim, todo pão é bom a depender da fome, por isso que em uma análise não se pode dizer que há analista bom, ou analista ruim, ou paciente bom ou paciente ruim... porque a análise é como uma vida... e às vezes dura o tempo de uma vida (e o contrário também acontece: da vida ter o tempo de uma análise) e a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro, como já dizia o poeta... Em resumo, fazer análise é como fazer pão, é a arte do encontro, e do desencontro também, porque, vocês sabem, às vezes a gente perde o fermento. sdds dilma

O: pareceu um lacaniano genuíno!

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Curitiba, PR

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