06/01/2026
Algumas pessoas aprendem a viver. Outras aprendem a sobreviver antes mesmo de saber o que isso signif**a.
Com 5 anos, eu vi minha mãe desistir da própria vida diante de mim.
Não como conceito.
Não como metáfora.
Mas como uma ruptura definitiva do mundo.
A infância acabou ali.
O corpo continuou pequeno,
mas a vida passou a exigir de mim
um tamanho que nenhuma criança deveria ter.
Enquanto outras crianças brincavam,
eu aprendi a sustentar.. em meio ao caos, o preço de ter crescido em um ambiente completamente disfuncional.
Sustentar o silêncio.
Sustentar a dor.
Sustentar decisões grandes demais.
Não apenas por mim.
Mas por outra criança, que da noite pro dia se tornou minha responsabilidade também.
Não havia escolha.
Havia necessidade.
Vieram audiências, conflitos, tensões que não se diziam em voz alta. Famílias emprestadas. Medos e inseguranças constantes. Vieram olhares que esperavam força. Vieram dias em que chorar não era uma opção.
Eu aprendi cedo a não dar trabalho.
A engolir o choro.
A existir em estado de alerta.
Cresci com a ferida do abandono aberta.
Com a rejeição não dita, mas profundamente sentida no corpo.
Com a sensação constante de que, se eu falhasse, tudo desmoronaria.
Houve adoecimento mental severo.
Houve depressão profunda.
Houve períodos de risco à própria vida.
Não conto isso para chocar.
Conto porque esse tipo de dor
não se aprende em livros.
Em algum momento, eu poderia ter f**ado ali. Poderia ter desaparecido junto com tudo aquilo.
Mas algo em mim escolheu f**ar.
Não foi força.
Não foi superação.
Foi sobrevivência.
A travessia não me transformou em alguém “forte”. Me transformou em alguém precisa.
Hoje, quando alguém se senta à minha frente carregando culpa, hiperresponsabilidade, ansiedade, medo de rejeição ou a sensação de que precisa sustentar tudo sozinho…
eu não escuto apenas a história.
Eu reconheço o lugar.
Reconheço porque já estive ali. Reconheço porque atravessei sem romantizar. Reconheço porque fiz da dor uma ponte — não um palco.
Eu não trabalho com processos que conheço só pela teoria.
Eu caminho com pessoas que aprenderam cedo demais a sobreviver e agora precisam, com segurança, aprender a viver.