Psicóloga Mariana Faturi

Psicóloga Mariana Faturi Pós-graduada em Psicologia Clínica e Saúde Mental
Pós-graduada em Problemas do Desenvolvimento

Tem dores que não fazem muito barulho.Elas f**am suspensas.Se não fossem as sílabas do sábado, é um livro bonito, mas qu...
03/05/2026

Tem dores que não fazem muito barulho.
Elas f**am suspensas.

Se não fossem as sílabas do sábado, é um livro bonito, mas que não fala só de luto.
Fala do que nunca ganhou forma dentro da gente.

A morte da mãe não aparece como um ponto final, mas como um deslocamento interno, onde passado e presente se misturam, e as memórias vêm em pedaços.

Porque é assim que o psiquismo trabalha quando algo é difícil demais: não organiza, mas fragmenta.

O mais forte no livro não é o que é dito.
É o que não pôde alcançar a palavra.

Na psicanálise, a gente escuta isso o tempo todo: não é só sobre o que aconteceu, mas sobre o que não pôde virar palavra.

E aí o sujeito f**a preso entre sentir demais e não conseguir nomear.

“As sílabas do sábado” parecem uma tentativa de organizar alguma coisa, mas sempre algo falta.

E é nesse resto que o sofrimento insiste.

Nem toda dor quer solução.
Algumas só querem um lugar onde possam existir.

E sábado é um dia meio suspenso, entre a semana que acabou e o dia seguinte que vem a anunciar uma nova semana que está por vir. E sem as palavras, as sílabas, como poderíamos falar daquilo que nos habita?

Sem linguagem, o sofrimento seria ainda mais caótico, mas ao mesmo tempo, nem tudo consegue ser dito.

Nessa faixa etária, algo começa a se reorganizar de forma importante. Já não estamos diante de crianças pequenas, mas ta...
21/04/2026

Nessa faixa etária, algo começa a se reorganizar de forma importante. Já não estamos diante de crianças pequenas, mas também ainda não são plenamente adolescentes.
É um tempo de transição, e isso não aparece despercebido na clínica.

Muitos meninos chegam com queixas indiretas: ▪️irritabilidade
▪️dificuldades escolares
▪️isolamento
▪️excesso de jogos
▪️desinteresse ou até um “não sei” constante.

Nem sempre falam do que sentem, muitas vezes atuam.
(E tudo bem se não falarem com palavras, eles fala de outras formas)

Na escuta psicanalítica, é comum encontrarmos:
▪️conflitos com figuras de autoridade
▪️questões em torno da masculinidade
▪️angústias que ainda não ganharam palavras e que podem aparecer de formas defensivas através do humor, do silêncio ou da oposição.

O brincar pode já não ocupar o mesmo lugar, mas ainda aparece. Às vezes misturado com conversas fragmentadas, te**es de limite ou tentativas de controlar o espaço da sessão (que chamamos de setting)

É também um momento em que o sintoma pode funcionar como resposta a algo do laço familiar que não pôde ser simbolizado/escutado.

Sustentar a escuta, sem pressa de interpretar ou “corrigir”, permite que algo desse pequeno sujeito se construa ali, entre o que ele mostra e o que ainda não consegue dizer.

Nem toda agitação é apenas uma fase.
Nem todo silêncio é falta de demanda para trabalhar ou indica que a criança não está em sofrimento.
Às vezes, é justamente aí que a possibilidade de uma análise começa.

Repetir, repetir e repetir, até recordar e elaborar.
16/04/2026

Repetir, repetir e repetir, até recordar e elaborar.

Não sei quantas vezes já ouvi que “viver é diferente de estar vivo”E tem uma verdade nisso.Estar vivo é biológico, nasce...
11/01/2026

Não sei quantas vezes já ouvi que “viver é diferente de estar vivo”

E tem uma verdade nisso.

Estar vivo é biológico, nascemos independente de uma escolha.
Viver é outra coisa, é um ato que envolve implicação, laço, desejo, sentido.

Podemos estar vivos funcionando, respirando, cumprindo tarefas e, ainda assim, não viver: quando nos vemos em uma repetição constante, mas vazia de sentido; quando o desejo adormece e o tempo passa sem ser de fato habitado.

Viver exige presença. Exige se afetar, mesmo correndo riscos. Exige que haja desejo e que se faça algo com ele.

Talvez viver seja isso:
não apenas existir no tempo,
mas se deixar atravessar por ele.

E isso não é nenhuma carta de amor romântico sobre viver a vida.
Se deixar atravessar pelo tempo é sentir a rotina com suas nuances.
É chegar em casa depois de um dia de trabalho e conseguir relaxar.
É f**ar feliz de encontrar um amigo e ir para um barzinho com ele.
É ganhar um colinho de quem se ama.
É amar e ser amado.
É beijar.
É se relacionar.
É ler um livro.
É ver o mar (ou um rio).
É juntar uma graninha pra comprar algo novo pra casa.
É ter medo de falar algo e finalmente conseguir (e ver que nem era tão difícil assim)

Acho que é isso, e muito mais de felicidades ordinárias!

O arrependimento não signif**a, necessariamente, que a escolha foi errada. Muitas vezes ele aparece porque a escolha foi...
07/01/2026

O arrependimento não signif**a, necessariamente, que a escolha foi errada.
Muitas vezes ele aparece porque a escolha foi real, e implicou perdas que só se tornam visíveis depois.

Arrepender-se é perceber o que ficou para trás, não uma prova de fracasso ou de uma má escolha.

Nenhuma escolha nos livra do arrependimento.
O máximo que podemos fazer é decidir o que fazer com essa sensação.
Você pode transformá-lo em uma culpa que paralisa ou em reflexão e reposicionamento perante a própria vida.

Há escolhas que não podem ser desfeitas, mas quase sempre podem ser reinterpretadas.

Sustentar uma escolha não signif**a f**ar preso a ela para sempre. Signif**a, por um tempo, responder por aquilo que se fez, até que outra escolha se imponha.

Arrepender-se também pode ser parte de viver: um sinal de que você pensou, sentiu, se implicou. Eu acredito que o contrário do arrependimento não é a certeza, mas a indiferença.

Afinal, será que conseguimos ter certezas tão absolutas nessa vida?

O sentido da vida não está em um grande propósito para o futuro. Não está necessariamente em grandes conquistas de traba...
05/01/2026

O sentido da vida não está em um grande propósito para o futuro. Não está necessariamente em grandes conquistas de trabalho, amorosas, materiais…

Está na vida concreta, no que se vive no momento presente, inclusive no fim, porque morrer também faz parte.
Até mesmo porque, a vida realmente pode ter um sentido justamente porque um dia vamos morrer.

Viver é sustentar o que nos acontece.

Já que estamos vivos, só nos resta viver!

O ano muda, mas seguimos no tempo daquilo que é possível.Que o novo chegue com mais escuta, menos pressa e algum sentido...
04/01/2026

O ano muda, mas seguimos no tempo daquilo que é possível.
Que o novo chegue com mais escuta, menos pressa e algum sentido.

Esse é o título de um dos livros do psicanalista Jorge Forbes.Ao longo das páginas ele discute algo que aparece muito na...
03/12/2025

Esse é o título de um dos livros do psicanalista Jorge Forbes.
Ao longo das páginas ele discute algo que aparece muito na vida e na clínica: a distância entre o que a pessoa acha que deseja e aquilo que ela realmente está disposta a assumir.

Para Forbes, vivemos numa época em que quase tudo parece possível: mudar de carreira, de cidade, de relacionamento, de estilo de vida. Mas essa liberdade não vem sem custo.

Com tantas escolhas, aumenta também a dúvida, a ansiedade e o medo de errar.

É aí que entra a pergunta do livro:
Você realmente quer o que diz desejar?
Ou está repetindo expectativas de outras pessoas, tentando evitar frustrações ou buscando garantias que nunca chegam?

Na prática clínica, isso aparece quando alguém diz querer algo, mas não consegue sustentar o movimento que aquilo exige.
Não porque seja “preguiça” ou “falta de força de vontade”, mas porque assumir um desejo implica riscos, perdas e mudanças reais.

Forbes mostra que desejar não é só “ter vontade”:
é se responsabilizar pelas escolhas, inclusive pelas consequências que elas trazem.
É deixar de viver no “quando tudo estiver perfeito” e começar a se colocar como autor da própria vida.

O livro nos convida a reconhecer que ninguém pode desejar por nós.
E que, muitas vezes, crescer emocionalmente signif**a parar de seguir roteiros prontos e começar a decidir o que faz sentido para a nossa própria história.

No campo dos relacionamentos, por exemplo, você realmente quer o tipo de relacionamento que diz desejar?
Ou deseja um ideal que não existe no mundo real?

E no campo do trabalho, o que você supõe querer?

O conflito não é entre querer ou não querer. Mas é entre desejo e medo.
Desejar crescer profissionalmente e, ao mesmo tempo, temer as exigências desse crescimento: exposição, responsabilidade, mudança de posição e perda de garantias.

Forbes mostra que desejar não é só “ter vontade”:
é se responsabilizar pelas escolhas, inclusive pelas consequências que elas trazem.
É deixar de viver no “quando tudo estiver perfeito” e começar a se colocar como autor da própria vida.

Psicóloga Mariana Faturi

Para responder a essa interrogação, é preciso, antes, situar a lógica que organiza o laço social contemporâneo: a aversã...
22/10/2025

Para responder a essa interrogação, é preciso, antes, situar a lógica que organiza o laço social contemporâneo: a aversão à solidão.

Ficar só, em nosso tempo, equivale a perder tempo e, em última instância, a perder o outro (sentir que estou de fora), essa referência que sustenta o eu imaginário.
A solidão se torna, assim, ameaça à consistência do sujeito, pois coloca em risco a imagem que se tem de si mesmo.

Vivemos, portanto, colados à narrativa que construímos sobre quem somos. Essa narrativa funciona como uma defesa, isto é, como uma forma de estabilizar o eu frente à falta estrutural que nos constitui.
Distanciar-se dela é vivenciar um certo desamparo, motivo pelo qual muitos entram em conflito consigo mesmos na tentativa de sustentar a própria imagem. Um trabalho incessante, exaustivo e, talvez, sem real retorno.

Os chamados “bem adaptados” são, muitas vezes, os sujeitos que melhor dominam a arte de estar em todos os espaços possíveis, mas não sabem escutar ou aprofundar. São aquelas que se mostram disponíveis ao outro, mas impermeáveis à experiência de interioridade. São aqueles que não toleram a solidão, pois esta os coloca diante do que há de mais inquietante: o próprio inconsciente (e o medo de saber os fantasmas que habitam

Contudo, estar só não signif**a estar vazio, mas é estar diante de si e, inevitavelmente, das instâncias que nos habitam: id, ego e superego.

Por que, então, tanto medo de estar só?

Porque na solidão emerge aquilo que escapa ao controle do eu.
Medo do que se revela quando o olhar do outro não está presente para sustentar a ficção que tenho de mim mesmo.
Medo de não pertencer, de ser excluído do discurso dos outros.

Talvez, portanto, ser “bem adaptado” não seja sinônimo de saúde mental.
A verdadeira possibilidade de subjetivação começa quando o sujeito se autoriza a se escutar: desempacotar afetos e acolher aquilo que o habita e o atravessa.

E é nesse ponto que a psicanálise se torna um espaço privilegiado: um lugar onde se aprende a sustentar o encontro com o próprio inconsciente, sem precisar fugir dele.

Psicóloga Mariana Faturi
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