03/05/2026
Tem dores que não fazem muito barulho.
Elas f**am suspensas.
Se não fossem as sílabas do sábado, é um livro bonito, mas que não fala só de luto.
Fala do que nunca ganhou forma dentro da gente.
A morte da mãe não aparece como um ponto final, mas como um deslocamento interno, onde passado e presente se misturam, e as memórias vêm em pedaços.
Porque é assim que o psiquismo trabalha quando algo é difícil demais: não organiza, mas fragmenta.
O mais forte no livro não é o que é dito.
É o que não pôde alcançar a palavra.
Na psicanálise, a gente escuta isso o tempo todo: não é só sobre o que aconteceu, mas sobre o que não pôde virar palavra.
E aí o sujeito f**a preso entre sentir demais e não conseguir nomear.
“As sílabas do sábado” parecem uma tentativa de organizar alguma coisa, mas sempre algo falta.
E é nesse resto que o sofrimento insiste.
Nem toda dor quer solução.
Algumas só querem um lugar onde possam existir.
E sábado é um dia meio suspenso, entre a semana que acabou e o dia seguinte que vem a anunciar uma nova semana que está por vir. E sem as palavras, as sílabas, como poderíamos falar daquilo que nos habita?
Sem linguagem, o sofrimento seria ainda mais caótico, mas ao mesmo tempo, nem tudo consegue ser dito.