Cristini Barreto

Tenho pensado sobre paternidade a partir de três lugares que também me constituem: o de filha, o de mãe e o de psicóloga...
10/08/2026

Tenho pensado sobre paternidade a partir de três lugares que também me constituem: o de filha, o de mãe e o de psicóloga. E uma percepção tem ficado cada vez mais clara: ser pai também é ensinar, pelo modo de viver, como se está em relação. Principalmente quando existem conflitos. É nesses momentos que uma criança observa o que os adultos fazem com aquilo que sentem: se um limite pode ser colocado sem humilhar, se uma discordância precisa virar uma guerra, se é possível estar irritado e ainda assim continuar tratando alguém com respeito, e se depois de uma palavra que feriu existe espaço para reconhecer, pedir desculpas e reparar.

Uma criança aprende sobre amor não apenas quando recebe carinho. Aprende também observando como as pessoas que ama se tratam quando o carinho não vem tão facilmente. Por isso, ser pai não é apenas ensinar com palavras o que é certo ou errado. É oferecer, no cotidiano, maneiras de lidar com frustrações, demonstrar afeto, reconhecer os próprios limites e continuar enxergando o outro mesmo quando existe diferença. E não é a perfeição que constrói esse repertório. Também é poder errar diante de um filho e mostrar a ele o que fazemos depois do erro.

No consultório, acompanho muitos homens e gosto muito desse trabalho. Gosto de vê-los olhando para a própria história, questionando maneiras de se relacionar que aprenderam e construindo outras formas de ser homens, companheiros e pais. Tenho um carinho especial pelos que permanecem envolvidos. Pelos que percebem que algumas dores também aparecem na forma como se relacionam e decidem olhar para elas. Pelos que procuram ajuda, aprendem outras maneiras de conversar, lidar com a raiva, colocar limites, demonstrar afeto e reparar aquilo que machucaram.

Ser pai não é chegar pronto à vida de um filho. É também permitir que a experiência de amar alguém nos transforme. Há algo muito bonito em um adulto que decide não entregar aos filhos, sem questionar, tudo aquilo que um dia recebeu. Durante muitos anos, os adultos emprestam às crianças maneiras de estar no mundo. E parte da paternidade acontece justamente aí: naquilo que um filho aprende sobre ser humano enquanto observa o pai sendo humano. 🤎

A cada dia, nas relações que vivo e nas histórias que escuto dentro e fora do consultório, percebo como é difícil encont...
06/08/2026

A cada dia, nas relações que vivo e nas histórias que escuto dentro e fora do consultório, percebo como é difícil encontrar vínculos em que possamos sentir amparo.
Em muitos momentos, tudo o que gostaríamos é ter alguém por perto quando não estamos bem. Alguém diante de quem não precisemos primeiro nos organizar, encontrar as palavras certas ou esconder aquilo que estamos sentindo.

Ainda assim, justamente quando mais precisam de cuidado, muitas pessoas sentem vergonha, desconforto ou a sensação de que estão sendo um incômodo.
Esse emaranhado de sentimentos não nasce necessariamente de uma escolha. Ele também carrega a história do que aprendemos sobre depender, confiar e precisar de alguém.

Quem precisou assumir cedo demais responsabilidades maiores do que conseguia suportar pode ter aprendido que estar seguro significava não depender de ninguém.
Por isso, pedir ajuda pode ser difícil.
Expressar o que sente pode não acontecer com naturalidade.
Receber cuidado pode causar estranhamento.
Baixar a guarda pode parecer perigoso.
Não porque essa pessoa não deseje proximidade, mas porque passou muito tempo acreditando que precisava se defender e dar conta de tudo sozinha.
Construir laços assim se torna ainda mais desafiador em um mundo que tantas vezes nos ensina a seguir, produzir e resolver sem incomodar ninguém.

E porque o amparo não é algo que uma pessoa simplesmente oferece enquanto a outra recebe.
Ele é uma construção mútua.
Em alguns momentos, somos o lugar onde alguém pode repousar. Em outros, precisamos permitir que alguém seja esse lugar para nós.
É preciso aprender a cuidar, mas também a receber cuidado.
A permanecer quando o outro não está bem e a acreditar que também podemos permanecer sendo amados quando somos nós que não estamos.

Uma das experiências mais transformadoras da vida é descobrir que não precisamos atravessar tudo sozinhos.
E que não é preciso continuar se defendendo de todo cuidado que chega. 🤎

Relacionar-se com a vida e com cada papel que desempenhamos nela talvez se pareça menos com manter tudo sob controle e m...
29/07/2026

Relacionar-se com a vida e com cada papel que desempenhamos nela talvez se pareça menos com manter tudo sob controle e mais com aprender a surfar uma onda. Há momentos em que o trabalho cresce e pede mais de nós.
Em outros, a maternidade ocupa quase todo o horizonte.
Algumas amizades se aproximam. Outras encontram um lugar mais distante.
O corpo muda. A disposição muda. Aquilo que desejamos e conseguimos oferecer também muda.
A onda não permanece da forma que gostaríamos para que possamos nos organizar sobre ela.
Ela muda de força, altura e direção.

E surfar não é dominar o mar.
É perceber o movimento, ajustar o corpo e descobrir como queremos permanecer nele.
Talvez aceitar uma relação com alguém, com o trabalho, com a maternidade ou conosco, seja algo parecido.
Não significa gostar de tudo o que ela é.
Também não significa desistir de transformar aquilo que ainda pode ser construído.
Significa enxergar o que realmente existe, em vez de continuar se relacionando apenas com aquilo que gostaríamos que existisse.

Há momentos em que insistir para que uma pessoa, um vínculo ou uma parte da vida se apresente da forma que desejamos não é esperança.
É adiar o encontro com a realidade.

Leveza não seja viver sem peso. É deixar de exigir que a vida, as pessoas e nós mesmos correspondam ao que imaginamos para, então, escolher como queremos nos relacionar com aquilo que existe. 🤎

Você pode discordar de mim.Pode estar com raiva.Pode dizer não.O que machuca é perceber que, quando alguma coisa frustra...
23/07/2026

Você pode discordar de mim.
Pode estar com raiva.
Pode dizer não.

O que machuca é perceber que, quando alguma coisa frustra o outro, a gentileza desaparece.
O tom muda. As palavras ferem. A ironia entra na conversa. E, por alguns instantes, a pessoa que amamos passa a ser tratada como alguém que precisa ser vencido, silenciado ou punido.

Gentileza não é falar de forma doce o tempo inteiro.
Às vezes, ela aparece na firmeza de quem consegue colocar um limite sem desprezar.
Na raiva de quem não transforma o outro no lugar onde descarrega tudo o que está sentindo.
Na possibilidade de continuar reconhecendo diante de si alguém importante, mesmo quando essa pessoa nos contraria.

Uma relação segura não é aquela em que ninguém se irrita.
É aquela em que a irritação não apaga o cuidado.
Porque não permanece apenas aquilo que discutimos ou discordamos.
Também permanece quem nos tornamos um para o outro durante uma discordância🤎.

Há mulheres que acordam e, antes mesmo de encontrarem o próprio dia, já estão tentando evitar tudo o que poderia acontec...
20/07/2026

Há mulheres que acordam e, antes mesmo de encontrarem o próprio dia, já estão tentando evitar tudo o que poderia acontecer.
Observam o corpo.
Repassam conversas.
Pensam nos filhos, no trabalho, no casamento, nas decisões que tomaram e nas que ainda precisam tomar.
Tentam perceber os sinais antes que algo saia do lugar.
Muitas vezes, essa forma de viver é confundida com responsabilidade, cuidado ou organização.
E ela pode ser tudo isso.
Mas também pode existir um corpo que raramente descansa e uma mente que aprendeu a permanecer de prontidão, como se baixar a guarda fosse correr um risco.

Viver assim oferece uma sensação momentânea de controle.
Mas cobra um preço: enquanto a pessoa tenta impedir o pior, pode haver cada vez menos espaço para habitar o que está acontecendo agora.
Não precisamos abandonar o cuidado. Mas construir uma vida em que estar presente possa, aos poucos, tornar-se tão possível quanto estar preparada.

Quando essa forma de viver começa a ocupar grande parte dos dias, pode ser importante não seguir sozinha.
Atendo mulheres e homens adultos, presencialmente em Palhoça e Florianópolis, e também on-line.
Para este semestre, abri duas novas vagas para acompanhamento psicológico.
Informações pelo link da bio🤎.

Ontem assisti à peça Guia Nada Prático para o Amor.Ela conta a história de uma mulher desde menina.Enquanto acompanhava ...
18/07/2026

Ontem assisti à peça Guia Nada Prático para o Amor.
Ela conta a história de uma mulher desde menina.
Enquanto acompanhava sua trajetória, fiquei pensando em uma pergunta que me acompanha há algum tempo:
Como aprendemos a amar?
Aprendemos pelos contos que ouvimos na infância, pelas histórias que nos contaram, pelas relações que observamos, pelas experiências que vivemos e também pelas dores que experimentarmos.
Talvez seja por isso que nenhuma história de amor comece no primeiro encontro. Ela começa muito antes.

A delicadeza da peça está justamente em transformar uma história tão íntima em algo que tantas mulheres conseguem reconhecer como parte da própria história.
Obrigada, por compartilhar essa história com tanta sensibilidade. E ao por abrir espaço para encontros como esse. 🤎

Nem sempre porque gosta de fazer tudo sozinha. Às vezes, porque em algum momento da vida aprendeu que pedir ajuda dizia ...
15/07/2026

Nem sempre porque gosta de fazer tudo sozinha. Às vezes, porque em algum momento da vida aprendeu que pedir ajuda dizia alguma coisa sobre quem ela era. Então continua. Carrega mais um pouco. Adia o descanso. Diz que consegue. E segue. Até que um dia percebe que o sofrimento talvez nunca tenha sido precisar de ajuda. Talvez tenha sido acreditar que isso significava fracassar. Nos últimos dias, tenho encerrado alguns atendimentos com uma cena que se repete: mulheres e homens emocionalmente exaustos. Pessoas tentando construir uma forma diferente de viver daquela que aprenderam. E isso também cansa. Porque construir a própria vida exige abrir mão de respostas prontas. Exige experimentar. Errar. Recomeçar.

A clínica tem me lembrado de algo que também atravessa a minha própria vida: amadurecer não é dar conta de tudo. Talvez amadurecer seja construir, aos poucos, uma vida em que pedir ajuda deixe de significar fracasso. E aprender a carregar apenas aquilo que realmente importa🤎.

12/07/2026
Algumas frases aparecem no consultório com uma frequência curiosa."Pode ir.""Tudo bem.""Esquece."Curiosamente, quase nun...
08/07/2026

Algumas frases aparecem no consultório com uma frequência curiosa.

"Pode ir."

"Tudo bem."

"Esquece."

Curiosamente, quase nunca o problema está nas palavras.
Está naquilo que elas estavam tentando comunicar.

As mesmas frases podem significar coisas completamente diferentes em relações diferentes.
Talvez por isso a curiosidade seja mais útil do que a pressa em concluir.

Em vez de responder automaticamente, experimentar perguntar:
"Quando você disse isso... o que estava tentando me contar?"

Às vezes, essa pergunta muda completamente o rumo de uma conversa. 🤎

Algumas conversas são leves, são agradáveis.E, ainda assim, deixam uma sensação difícil de explicar.Tenho a impressão de...
05/07/2026

Algumas conversas são leves, são agradáveis.
E, ainda assim, deixam uma sensação difícil de explicar.

Tenho a impressão de que nem sempre o que buscamos em uma conversa são respostas.
Talvez busquemos algo mais simples.
Um lugar onde a nossa história e nós também possam existir. 🤎

Endereço

Rua Dos Sabiás, Pedra Branca
Florianópolis, SC
88137-155

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