10/08/2026
Tenho pensado sobre paternidade a partir de três lugares que também me constituem: o de filha, o de mãe e o de psicóloga. E uma percepção tem ficado cada vez mais clara: ser pai também é ensinar, pelo modo de viver, como se está em relação. Principalmente quando existem conflitos. É nesses momentos que uma criança observa o que os adultos fazem com aquilo que sentem: se um limite pode ser colocado sem humilhar, se uma discordância precisa virar uma guerra, se é possível estar irritado e ainda assim continuar tratando alguém com respeito, e se depois de uma palavra que feriu existe espaço para reconhecer, pedir desculpas e reparar.
Uma criança aprende sobre amor não apenas quando recebe carinho. Aprende também observando como as pessoas que ama se tratam quando o carinho não vem tão facilmente. Por isso, ser pai não é apenas ensinar com palavras o que é certo ou errado. É oferecer, no cotidiano, maneiras de lidar com frustrações, demonstrar afeto, reconhecer os próprios limites e continuar enxergando o outro mesmo quando existe diferença. E não é a perfeição que constrói esse repertório. Também é poder errar diante de um filho e mostrar a ele o que fazemos depois do erro.
No consultório, acompanho muitos homens e gosto muito desse trabalho. Gosto de vê-los olhando para a própria história, questionando maneiras de se relacionar que aprenderam e construindo outras formas de ser homens, companheiros e pais. Tenho um carinho especial pelos que permanecem envolvidos. Pelos que percebem que algumas dores também aparecem na forma como se relacionam e decidem olhar para elas. Pelos que procuram ajuda, aprendem outras maneiras de conversar, lidar com a raiva, colocar limites, demonstrar afeto e reparar aquilo que machucaram.
Ser pai não é chegar pronto à vida de um filho. É também permitir que a experiência de amar alguém nos transforme. Há algo muito bonito em um adulto que decide não entregar aos filhos, sem questionar, tudo aquilo que um dia recebeu. Durante muitos anos, os adultos emprestam às crianças maneiras de estar no mundo. E parte da paternidade acontece justamente aí: naquilo que um filho aprende sobre ser humano enquanto observa o pai sendo humano. 🤎