23/08/2026
Como explicar um tipo de saudade que não é exatamente de uma pessoa, de um lugar ou de uma época.
É saudade de uma vida que nunca aconteceu.
Daquela versão de nós que, em algum momento, imaginamos que seríamos.
E então começam os “se”.
se eu tivesse escolhido aquela faculdade, se tivesse aceitado aquele emprego, se tivesse ficado, se tivesse ido embora, se aquela pessoa tivesse permanecido, se eu tivesse sido mais corajosa.
O problema é que o “se” sempre conhece o final da história que inventamos.
Na fantasia, aquela escolha teria dado certo, aquela porta teria levado ao lugar certo, aquela versão de nós teria finalmente encontrado aquilo que procurava.
O mecanismo que ajuda a entender essa prisão, é o viés de ancoragem. Tendemos a ficar presos a uma informação inicial, a um ponto de referência que passa a influenciar nossas avaliações posteriores.
Às vezes, essa âncora é justamente a vida que imaginamos que teríamos. E começamos a comparar o presente com uma possibilidade idealizada do passado. O curioso é que comparamos uma vida real, cheia de perdas, imprevistos e contradições, com uma vida hipotética, editada pela nossa imaginação. E pior, temos as melhores ferramentas de edição.
Algumas escolhas foram erradas.
Outras foram necessárias.
Algumas portas se fecharam antes mesmo que tivéssemos coragem de atravessá-las.
E existem sonhos que simplesmente não encontraram lugar na realidade.
Perdoar a si mesmo por aquilo que você não se tornou é, em alguma medida, parar de exigir que o presente pague uma dívida com o passado. Divida essa, gerada por culpa, gerada por você e somente em você.
A vida que não aconteceu pode continuar sendo bonita na imaginação. Só não precisa continuar sendo o parâmetro pelo qual você condena a vida que está acontecendo.
Por favor, releia este trecho.
Solte, aos poucos, o “e se?”
e começar a perguntar:
“E agora, o que eu faço com a vida que tenho?”
Ainda existe muita vida depois daquela que você imaginou.