16/01/2026
Um menino atravessado por ausências, uma perda gigantesca e a busca por algum sentido.
A cabeça do santo, de Socorro Acioli, me fez refletir sobre o que vem depois do luto. O que acontece quando a vida se desorganiza de tal forma que não há mais como voltar ao que era antes.
Samuel, um “homem-feito”, perde sua mãe, Mariinha, a única companhia que teve por toda a vida. Antes de morrer, ela lhe faz um pedido: que acenda três velas aos santos de sua devoção e que vá até o vilarejo da Candeia para conhecer o pai e a avó paterna.
A narrativa começa com a dura caminhada de Juazeiro do Norte até Candeia. Samuel enfrenta fome, sol, cansaço e, sobretudo, a dor do luto. Enquanto o corpo atravessa a estrada, a mente tenta assimilar a perda, numa travessia interna tão difícil quanto a física.
Ao chegar ao vilarejo, os encontros não acontecem como ele imaginava. Perdido, Samuel acaba dormindo em uma gruta, que depois descobre ser a cabeça caída de Santo Antônio. É a partir desse lugar improvável que algo começa a se reorganizar. Para alguém que não sabia o que fazer da vida após a morte da mãe, surgem novos caminhos: pessoas, vínculos, afetos, sonhos e também frustrações.
No fim, Mariinha não pediu um favor à toa. Seu pedido era, sobretudo, um convite à vida. Que Samuel seguisse vivendo. Que encontrasse um sentido. Primeiro por ela, depois por si mesmo. Mariinha sabia da dor que deixaria, mas desejava ao filho uma vida possível apesar da perda.
Samuel viveu seu luto estando vivo. Viveu as ambiguidades entre o que perdeu e o que se apresentava no agora. Entre a raiva pela promessa feita à mãe e a alegria por fazer amigos, encontrar amores, criar inimigos. O luto, ali, não paralisa, ele atravessa, transforma, reconfigura.
Talvez o livro nos lembre disso: viver o luto não é esquecer quem se foi, mas aprender a seguir carregando a ausência, abrindo espaço para que a vida — ainda assim — aconteça.