16/12/2022
No final da década de 1970, Carl Rogers escreveu um texto com o título "Precisamos de uma realidade?". A sua pergunta se originava das mudanças nos campos da física e da química, bem como da psicologia, que alertavam para a impossibilidade de compreendermos que existe uma realidade compartilhada igualmente por todos. "É que cada consciência humana, cada pessoa, cria seu próprio mundo de existência objetiva e significado", escrevia Rogers.
Quando leio esse texto, eu vago pelo futuro entrevisto por Rogers, onde cada pessoa se reconheceria na subjetividade e no mundo próprios de sua existência. Meu corpo é encharcado pelo prazer do autoconhecimento e pela percepção das possibilidades infinitas.
Ao terminar o texto, porém, percebo que vivemos hoje o que Rogers descrevia décadas atrás: não há mais UMA realidade! Porém, sou arrastado para experiência muito diversa: encaro o abismo da fratura e do medo. Não há mais uma realidade que nos una, e portanto não existe mais a possibilidade garantida de comunicação.
No meu mundo, a pandemia de Covid-19 foi ocasionada por um vírus, criado em certa medida pelas ações ambientais do capitalismo global, e foi controlado pela aplicação de vacinas. No mundo do outro, o vírus foi feito pela China, num projeto de dominação comunista, do qual as vacinas também fazem parte, e o que deveria ser feito (e foi feito!) era trabalharmos até adquirirmos a chamada imunidade de rebanho.
Entre mim e o "outro", há um abismo. Cada um vivendo a sua própria realidade, que passamos a chamar de "bolhas". O salto de um mundo para o outro muitas vezes se torna impossível. Consequentemente, a compreensão empática não é propriamente uma opção. Até mesmo porque no mundo do outro, o meu mundo não existe ou já deveria ter sido aniquilado - uma experiência vivida há muitos séculos por negros/negras e indígenas.
É óbvio que Rogers não pensava nessa situação ao escrever aquele texto, mas hoje, com nossos mundos-bolhas, precisamos encontrar novas ideias e novos horizontes enraizados no presente para que não confundamos utopia com tragédia.
Texto de Yuri Sales