Projeto InFluxo

Projeto InFluxo Somos um grupo de psicólogos que pensamos o mundo a partir das lentes do humanismo. Serão muito bem-v

Publicado em 2012, com a edição de Jeffrey-Cornelius White (Universidade de Missouri), este livro lança luz sob um momen...
29/12/2022

Publicado em 2012, com a edição de Jeffrey-Cornelius White (Universidade de Missouri), este livro lança luz sob um momento crucial na biografia de Carl Rogers e definidor para a futura criação da Abordagem Centrada na Pessoa: a sua viagem à China. Trata-se do diário escrito por Rogers durante o ano de 1922, quando ocorre essa travessia entre continentes que dura cerca de seis meses.

É o momento onde o jovem Rogers, de apenas 20 anos, se desloca do pesado etnocentrismo do meio oeste norte-americano, da religiosidade protestante baseada em dogmas e do anti-intelectualismo que caracterizam a sua formação familiar. Foi essa viagem que permitiu a Rogers vislumbrar um novo percurso biográfico, que em poucos anos desembocaria na sua mudança para a Psicologia.

Compreender a sua proposta de não-diretividade, lançada formalmente em 1942, requer mergulhar nessa experiência de formação ocorrida duas décadas antes.

F**a a recomendação de leitura!

Muda dançaQuando a vida mudate chama pra dançarSem ritmo, sem escolhasentre um passo ou outrosem tempo de pararUrge não ...
22/12/2022

Muda dança

Quando a vida muda
te chama pra dançar
Sem ritmo, sem escolhas
entre um passo ou outro
sem tempo de parar

Urge não os passos,
nem a corrida, o caminhar,
aqui, sem dançar

Ela puxa pelas mãos e pés
pelos dias, noites
O sorriso desonesto
do que pode vir a ser
sem ser nem o que é,
nem o que há

O material, a roupa
para o evento
O investimento, fôlego
para a experiência

O corpo? Pequeno, frágil,
em uma dança sem dançar

O que é dança sem dançar?

O par de um só, uma metade em falha
Pisa longe do ritmo, tropeçando, caindo, sem dançar

Dançar então
Sem fôlego, roupa,
desconjuntado, risos e
piadas

Qual o lugar? Que luz vai
sincronizar?
Esses passos algum dia podem ser
outros ou iguais? Será?

Vida, que convida sem convidar dizendo que conduz, olha ali, aquele sorriso dos teus pares perfeitos dançando

Como pode ser tão egoísta?
Querer dançar e dançar

Aqui sei que os movimentos não exigem certeza, mas tu conhece alguém impuro como aqui está?

Dançando sem dançar

No vazio das paredes onde o peito pulsa sem música.

No final da década de 1970, Carl Rogers escreveu um texto com o título "Precisamos de uma realidade?". A sua pergunta se...
16/12/2022

No final da década de 1970, Carl Rogers escreveu um texto com o título "Precisamos de uma realidade?". A sua pergunta se originava das mudanças nos campos da física e da química, bem como da psicologia, que alertavam para a impossibilidade de compreendermos que existe uma realidade compartilhada igualmente por todos. "É que cada consciência humana, cada pessoa, cria seu próprio mundo de existência objetiva e significado", escrevia Rogers.

Quando leio esse texto, eu vago pelo futuro entrevisto por Rogers, onde cada pessoa se reconheceria na subjetividade e no mundo próprios de sua existência. Meu corpo é encharcado pelo prazer do autoconhecimento e pela percepção das possibilidades infinitas.

Ao terminar o texto, porém, percebo que vivemos hoje o que Rogers descrevia décadas atrás: não há mais UMA realidade! Porém, sou arrastado para experiência muito diversa: encaro o abismo da fratura e do medo. Não há mais uma realidade que nos una, e portanto não existe mais a possibilidade garantida de comunicação.

No meu mundo, a pandemia de Covid-19 foi ocasionada por um vírus, criado em certa medida pelas ações ambientais do capitalismo global, e foi controlado pela aplicação de vacinas. No mundo do outro, o vírus foi feito pela China, num projeto de dominação comunista, do qual as vacinas também fazem parte, e o que deveria ser feito (e foi feito!) era trabalharmos até adquirirmos a chamada imunidade de rebanho.

Entre mim e o "outro", há um abismo. Cada um vivendo a sua própria realidade, que passamos a chamar de "bolhas". O salto de um mundo para o outro muitas vezes se torna impossível. Consequentemente, a compreensão empática não é propriamente uma opção. Até mesmo porque no mundo do outro, o meu mundo não existe ou já deveria ter sido aniquilado - uma experiência vivida há muitos séculos por negros/negras e indígenas.

É óbvio que Rogers não pensava nessa situação ao escrever aquele texto, mas hoje, com nossos mundos-bolhas, precisamos encontrar novas ideias e novos horizontes enraizados no presente para que não confundamos utopia com tragédia.

Texto de Yuri Sales

"Todo ato de medir, portanto, por ser (des)qualificador a partir de um ponto de referência, seja ele um outro, uma cultu...
14/12/2022

"Todo ato de medir, portanto, por ser (des)qualificador a partir de um ponto de referência, seja ele um outro, uma cultura, uma ideia ou uma teoria, não faz parte da prática da ACP. Por outro lado, toda medição do ato foi liberada e venerada. Chegamos a um ponto-cego.

A medida na ACP não se extinguiu, mas passou a ser anterior ao próprio ato; tornou-se a composição básica, pré-comportamental, da ação do organismo. Não se é permitido medir um outro a partir de uma referência contextual, mas é necessário que esse faça a medida de si mesmo por meio de uma referência extramundo, natural - leia-se, tendência atualizante. O último bunker da medida, indescritivelmente presente e impenetrável, é o próprio organismo!"

Trecho de SALES, Yuri & COSTA, Alana . O flow vertiginoso na constituição do organismo: ensaio sobre a desnaturalização da atualização. Em: Cavalcante Junior, F. Corpos Anárquicos. Curitiba: CRV, 2014.

É difícil precisar quando Carl Rogers criou uma abordagem própria em psicoterapia, mas, se levarmos em consideração suas...
11/12/2022

É difícil precisar quando Carl Rogers criou uma abordagem própria em psicoterapia, mas, se levarmos em consideração suas próprias palavras, esse dia seria hoje, 11 de dezembro. Nas suas palavras:

"No final da minha estadia em Minneapolis, realmente me pegou a ideia de que talvez eu estivesse dizendo algo novo que veio de mim; que não estava apenas sumarizando o ponto de vista dos terapeutas em geral. Poderia parecer bastante absurdo acreditar que alguém poderia apontar um dia no qual a terapia centrada no cliente nasceu. Ainda assim, eu sinto que é possível apontar esse dia e foi em 11 de dezembro de 1940"

Não existe memória, não, meu sinhôSó bitucas de tempo, decorações gastasNo fundo dos gastros percursosJogados nuNo unive...
05/12/2022

Não existe memória, não, meu sinhô
Só bitucas de tempo, decorações gastas
No fundo dos gastros percursos
Jogados nu
No universo.
Constelações de guimbas cronotípicas.
Pescar horizontes vindouros
Não desfaz os sargaços do
Tempo.

🧠 Perdi as contas das vezes em que me deparei na ACP com o falso dilema, um tipo de anti-pática oposição, entre pensamen...
30/11/2022

🧠 Perdi as contas das vezes em que me deparei na ACP com o falso dilema, um tipo de anti-pática oposição, entre pensamento e não diretividade, conceitos e experiência, reflexão e compreensão empática. O pressuposto é que uma vez que se legitima e se segue a experiência do outro, qualquer forma de reflexão, pensamento e conceitualização é secundária, e em muitos casos prejudicial. Uma veia anti-intelectual que pulsa no organismo da ACP.

👨‍🏫 John Shlien, aluno de Rogers na Universidade de Chicago e posteriormente professor da Universidade de Harvard, nos lembra, com sua assertividade característica, que essa oposição é preguiçosa. Na verdade, a compreensão empática não é apenas uma atitude pessoal e/ou clínica, mas uma diretriz epistemológica; ou seja, ela pode ser o caminho para construir conceitos e ideias sem perder o rastro do mundo.

💡Assim, a questão não é se devemos ou não elaborar conceitos na ACP, mas como fazê-lo empaticamente, parindo-os de dentro da experiência com o mundo, e não de um exercício asséptico de abstração.

Texto de Yuri Sales

Sobre Flores, Jardins e Amores(Daniel Dantas)É preciso amar as flores, caminhar nos jardinsCultivar afetos, irrigar amor...
28/11/2022

Sobre Flores, Jardins e Amores
(Daniel Dantas)

É preciso amar as flores, caminhar nos jardins
Cultivar afetos, irrigar amores

É preciso vida para acolher a morte de cada dia
Nesse solo adubado, renascer em flores de si

Fertilidade dos sonhos que teimam em renascer
Cultivar vida, transcender, reviver, reinventar-se

É preciso uma poética dos cultivos e das colheitas
Consciência do que se planta e se colhe

É preciso um ativismo dos jardins
Pelas flores, amores e dores

Um ativismo das danças, flores e contemplações
Do que se busca ao se buscar nada
Do que se ganha ao simplesmente ser
Do sorriso que brota
Das sementes em terras áridas
Dos solos férteis de lágrimas e sonhos
Das flores que germinam, florescem e dão frutos
Dos pés na terra macia e húmida
Das raízes e do enraizar

Mas também é preciso lutar
E se saber pelo que se luta

Um ativismo dos cultivos dos grãos e raízes
E saber o que se é, e o que se busca
Da poesia que se quer cultivar
Das diferentes formas de amar
Das cirandas ao luar
Do pé enraizado
Do chão
Da firmeza e gentileza
Dos afetos e flores
E sim das flores. Flores, jardins e amores

E sim, é preciso cultivar
Tudo pelo que se vale a pena lutar

👋 Olá, tudo bem pessoal? Aqui é o Daniel, iniciaremos postagens que contam a trajetória de vida de alguns autores do hum...
24/11/2022

👋 Olá, tudo bem pessoal? Aqui é o Daniel, iniciaremos postagens que contam a trajetória de vida de alguns autores do humanismo, entendendo que a história de vida de cada um tem uma forte influência na sua construção teórica e visão de mundo, e como primeiro escolhido teremos Carl Ransom Rogers.

🔹️Seu nascimento foi em 8 de janeiro de 1902 em Oak Park. Ele era o filho do meio de uma família protestante onde os valores tradicionais e religiosos e o incentivo ao trabalho eram cultivados. Aos 12 anos, Rogers mudou-se com a família para uma fazenda, onde desenvolveu interesse pela agricultura e pelas ciências naturais.

A bússola está avariada ou simplesmente não sabemos mais como usá-la? Se não estamos conscientes de onde viemos e onde e...
21/11/2022

A bússola está avariada ou simplesmente não sabemos mais como usá-la? Se não estamos conscientes de onde viemos e onde estamos, às vezes pouco importa saber a direção do norte. Por vezes, sinto dessa forma quando penso na Abordagem Centrada na Pessoa. Por isso, se tornou essencial para mim, nos últimos anos, o reconhecimento de que a ACP surgiu a partir das concepções intelectuais antifascistas que emergiram nos anos 1930/1940, nos EUA.

Quando falamos e articulamos a não-diretividade, a aceitação positiva incondicional, o ambiente facilitador e tantos outros conceitos da ACP estamos a atualizar, na melhor das hipóteses, ou a repetir, na pior, uma concepção antifascista norte-americana. O que isso significa para esse momento presente, quando uma onda neofascista, ou protofascista, assola o mundo e o Brasil?

Primeiro, que essa luta já nos chega como uma herança. Não cabe titubear ou relativizar, quando no nosso “DNA” resiste essa origem histórica e epistemológica. Mas significa também, e aqui adentramos terrenos mais pantanosos, que existe um imbricamento entre a teoria da ACP e o quadrante político de disputas entre democracia e fascismo. Logo, ao enxergar a presença de um neo-fascismo, somos convocados a re-ver nossa teoria, no intuito de, novamente, fazer frente à expressão histórica singular do fascismo emergente no presente.

Em resumo: o enfrentamento ao neofascismo é tanto uma questão de coerência com a ética fundante da ACP quanto um chamado para acionar nossa imaginação teórica.

Endereço

Fortaleza, CE

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