06/08/2026
Se eu olhasse para trás, daria para montar um álbum inteiro só com fotos da rejeição.
Na infância, eram as piadas pelas minhas sardas. Na escola, a preferência evidente dos professores por outros alunos. Na rua, os comentários porque eu não tinha pai. Mais tarde, no trabalho, o desconforto de encarar as “panelinhas”. Entre amigos, o afastamento de alguns por eu ter minhas próprias ideias. E na família, a sensação constante de ser a peça fora do encaixe por ser diferente.
Por muito tempo, a minha defesa foi o silêncio. Existia uma voz interna que me soprava: “Não se importe, abstrai.” E eu abstraí. Engoli a seco, segui em frente. Mas a gente vai amadurecendo. A vida vai cobrando presença, e o corpo cansa de apenas fingir que não dói.
Na terapia, o jogo mudou. Eu entendi que abstrair não é o mesmo que curar. Entendi que a rejeição que vivi na infância e na vida adulta nunca foi sobre o meu valor ; era sobre a incapacidade dos outros de acolherem o que foge do padrão deles.
É nesse momento que o espelho quebra.
Quando paramos de apenas “abstrair” e decidimos olhar para as feridas com consciência, o espelho onde projetávamos uma imagem de “aceitação a qualquer custo” se despedaça. Essa quebra dói, sim. Mas é libertadora. Quando esse espelho se quebra, não é só a dor que aparece; também vai embora a personagem que eu criei para agradar, convencer, salvar ou ser aceita.
A quebra do espelho é o luto da mulher que vivia mendigando reconhecimento, mas é também o nascimento daquela que finalmente começa a se escolher.
Aquelas cicatrizes das sardas, da ausência do pai, das ideias próprias e da singularidade não eram defeitos , eram os primeiros traços da mulher autêntica que eu estava me tornando.
Toda vez que o mundo te fecha uma porta (ou quebra o espelho da ilusão), ele te entrega a chave para a única construção que importa: a da sua própria casa.
Hoje, quando olho para aquele “álbum de rejeições”, não vejo mais derrotas. Vejo os degraus exatos que me trouxeram até aqui — consciente, inteira e sem pedir licença a ninguém para existir.