05/07/2021
Dia a dia da clínica - inconsciente e gramática: hoje, ao realizar a última sessão do expediente, pude perceber, e apontar, uma mudança geral na forma da fala de um paciente: ele passou a usar muito mais "gerúndios", ao invés da forma infinitiva dos verbos, ou modos taxativos de expressão. "Vou poder estar conversando com o pessoal", "estou vendo", "as coisas vão acontecendo": são tipos de formações que surgiram espontaneamente, ao longo de seu processo de associação livre. Um dos aspectos mais interessantes de se observar algo assim, além de como uma mutação geral de fala desse tipo chama a atenção por si mesma, por possivelmente mesmo apontar novas plausibilidades para o funcionamento psíquico do sujeito em questão, é o fato de ele próprio não ter observado tal transmudação. Esta estando, até então, incidindo de forma inconsciente, operando como aporte advindo do processo de análise, como pudemos comentar, inclusive o próprio paciente o fez espontaneamente, em decorrência de minha primeira intervenção sobre este ponto. Outra intervenção que pude fazer foi quanto à sua maneira de predicar as coisas; lembro de usar expressões como "um pouco", ou se referir às coisas como tentativas e riscos, muito mais do que fazia no início de seu processo. A gramática do inconsciente, destilando-se em seus padrões, questionamentos e conseguintes mutações, ao longo das apresentações associativas da fala, inclui trocas de palavras (atos falhos), jogos espirituosos de linguagem (chistes), narrativas de sonhos, repetições compulsivas e esquecimentos, como sabemos - e, ainda, essas mudanças no quadro geral da forma de cada um falar, possibilitando que vejamos modificações de ser no mundo - da perspectiva e maneira de lidar com tudo ao redor... Assim, temos que, de fato, ao pesquisar o plano neurofisiológico, e, posteriormente, o âmbito psíquico de seus pacientes, Freud se viu diante de inúmeros fenômenos linguajeiros; como ressalta Jacques Lacan - toda página escrita por Freud fala, de algum modo que seja..., de linguagem. O aparelho neurofisiológico de linguagem, muitos o observam, seria o protótipo do aparelho psíquico. Mas, o aparelho psíquico é aparelho de linguagem, se o lemos.