07/09/2026
A CATÁSTROFE NO NEPAL PODE TER RELAÇÃO COM O AQUECIMENTO GLOBAL?
Pode. Mas, até agora, não é possível afirmar que o aquecimento global tenha causado diretamente esse desastre.
O que sabemos com mais segurança é que, em 26 de agosto, uma enorme massa envolvendo rocha e gelo perdeu estabilidade na região de Langtang, no Himalaia. Esse material despencou pela montanha, incorporou água, sedimentos e mais detritos e produziu uma corrente extremamente destrutiva, seguida por uma grande inundação rio abaixo.
Análises preliminares do USGS indicam que o fluxo percorreu quase 100 km pelos vales dos rios da região [1].
Assim, o mecanismo geral do desastre parece ter sido:
colapso de gelo e rocha → avalanche e fluxo de detritos → grande inundação.
O que ainda não está claro é por que aquela encosta perdeu estabilidade naquele momento.
E é justamente aí que entra o aquecimento global como uma possibilidade.
Em regiões muito frias das altas montanhas existe gelo não apenas nas geleiras, mas também no interior do solo e das fraturas das rochas. É o chamado permafrost.
Quando esse material aquece e parte do gelo derrete, as propriedades físicas da encosta podem mudar. A água também pode penetrar nas fraturas e contribuir para sua instabilidade.
Além disso, quando uma geleira perde massa e recua, ela modifica as condições das encostas que estavam em contato com o gelo.
Esses mecanismos são conhecidos pela ciência. O IPCC conclui, com alta confiança, que o recuo das geleiras e o degelo do permafrost podem diminuir a estabilidade das encostas das altas montanhas e favorecer deslizamentos e outros eventos em cascata [2].
E sabemos que o Himalaia está mudando rapidamente.
Uma avaliação científica divulgada em 2026 pelo ICIMOD, reunindo décadas de monitoramento das geleiras do Hindu Kush-Himalaia, mostra que a perda de gelo aproximadamente dobrou depois do ano 2000. Entre 1990 e 2020, as geleiras da região perderam aproximadamente 12% de sua área e 9% de suas reservas estimadas de gelo [3].
Outros estudos independentes também documentam perda acelerada de gelo no Himalaia e expansão de lagos associados ao recuo das geleiras [4,5].
Portanto, existe um mecanismo possível e cientificamente bem fundamentado:
aquecimento → perda de gelo e degelo do permafrost → alteração da estabilidade das encostas → maior possibilidade de grandes colapsos.
Mas isso não significa que essa sequência tenha necessariamente provocado o desastre atual.
A estrutura das rochas, fraturas antigas, inclinação da encosta, presença de água e a própria dinâmica natural da geleira também podem ter contribuído.
Por isso, com as evidências disponíveis hoje, podemos dizer:
✅ O desastre começou com um grande colapso envolvendo gelo e rocha.
✅ O Himalaia está aquecendo e suas geleiras estão perdendo gelo rapidamente.
✅ A literatura científica mostra que o recuo das geleiras e o degelo do permafrost podem tornar encostas de altas montanhas mais instáveis.
⚠️ Portanto, o aquecimento global é uma possibilidade real entre os fatores que podem ter contribuído para esse desastre.
⚠️ Mas ainda não há evidências suficientes para afirmar que ele tenha sido a causa deste colapso específico.
Referências
[1] U.S. Geological Survey — 2026 Nepal Debris Avalanche and Flash Flood. Landslide Hazards Program, 2026.
[2] Hock, R. et al. High Mountain Areas. In: IPCC Special Report on the Ocean and Cryosphere in a Changing Climate. IPCC, 2019.
[3] ICIMOD. HKH Glacier Outlook 2026: Insights from 50 Years of Himalayan Glacier Monitoring; e Changing Dynamics of Glaciers in the Hindu Kush Himalaya Region from 1990 to 2020. ICIMOD, 2026.
[4] Zhang, G. et al. Underestimated mass loss from lake-terminating glaciers in the greater Himalaya. Nature Geoscience, 2023.
[5] Shokory, J. A. N.; Lane, S. N. Ice cover loss and debris cover evolution in the Afghanistan Hindu Kush Himalaya between 2000 and 2020. Arctic, Antarctic, and Alpine Research, 2024.